Os ministros da economia costumam ser clientes assíduos do anedotário político nacional. Tivemos Manuel Pinho que um belo dia de debate parlamentar se lembrou, do alto da sua tribuna ministerial, de apontar uns cornos para o deputado Bernardino Soares e, antes dele, aquele que olhava para além Tejo e só conseguia vislumbrar um deserto. O Álvaro Santos Pereira ainda não havia, digamos, tido a honra de assinar tão relevante apologia. É certo que se pressentia: o homem não consegue definitivamente acertar com o fuso horário que norteia o país.
Hoje, em plena Comissão de Finanças e Trabalho, na audição parlamentar sobre Orçamento de Estado, afirmou, categoricamente (sem mesmo prescindir do assertivo advérbio "certamente") que "2012 será um ano determinante para Portugal e para a economia portuguesa [porque] certamente irá marcar o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014". Entusiasmado, adiantou: "que não exista qualquer dúvida: este caminho será mais rápido e mais frutuoso se formos capazes de reformar as áreas que representam hoje os verdadeiros obstáculos à modernização e que nos separam da performance económica dos nossos parceiros, nomeadamente europeus. Reformar é a palavra-chave para um caminho sustentado a longo prazo."
Não sei o que o ministro entende por fim da crise, mas declarar/decretar o fim da crise para 2012 é mais do que uma anedota, é quase um sacrilégio. É que todas as estimativas apontam para um crescimento colossal do desemprego. E só isso deveria ser suficiente para que nenhum responsável político da esfera do governo afirmasse tais disparates.
adenda: depois, como é hábito nos incautos, o ministro Álvaro reeditou a premissa, ao afiançar, à Santana Lopes, que, afinal, 2102 será o início do fim da crise. A tontaria continua.
segunda-feira, novembro 14, 2011
domingo, novembro 13, 2011
os governos dos contabilistas
Chamam-lhes tecnocratas, mas mais parecem contabilistas. Temos em Portugal um ministro das finanças que não passa disso, embora, reconheça-se, cheio de competência técnica. Chefia o nosso governo um ministro que por acaso é o primeiro, embora este epíteto pareça cada vez mais artificializado à luz das diretivas internacionais delineadas no acordo das troikas, da externa e da interna. Acima disto tudo, paira, orgulhosa, a chanceler alemã e o não menos ufano Sarkozy. Os deveres de fidelidade são muitos e visíveis, ao ponto de não conseguir definir o papel político de Passos Coelho.
Aos poucos, o duopólio central arreia o seu contingente. Para além de Portugal, surgiu depois o novo tecno- grego seguido, quase de imediato, pelo seu congénere italiano. Estes, os italianos, rejubilaram de alegria. Encheram praças e dispuseram-se à frente da residência oficial do chefe do governo horas e horas notívagas. Lembrei-me das imagens de Mussolini pendurado de pernas para o ar, na praça Loreto, em Milão. Pela alegria, gostaram da troca ou - muito mais grave - desinteressaram-se do voto.
Sem política, a Europa não pode caminhar. Simplesmente porque ela é, fundamentalmente, um tratado político.
Aos poucos, o duopólio central arreia o seu contingente. Para além de Portugal, surgiu depois o novo tecno- grego seguido, quase de imediato, pelo seu congénere italiano. Estes, os italianos, rejubilaram de alegria. Encheram praças e dispuseram-se à frente da residência oficial do chefe do governo horas e horas notívagas. Lembrei-me das imagens de Mussolini pendurado de pernas para o ar, na praça Loreto, em Milão. Pela alegria, gostaram da troca ou - muito mais grave - desinteressaram-se do voto.
Sem política, a Europa não pode caminhar. Simplesmente porque ela é, fundamentalmente, um tratado político.
sexta-feira, novembro 11, 2011
os gestos de ronaldo e madaíl
São curiosas as afirmações de Gilberto Madaíl a respeito do gesto de Ronaldo (dedo médio em riste apontado para o público), quando afirma que compreende a reação do jogador. Depois diz que os jogadores estão habituados a este tipo de provocações (por parte do público, o qual assesta baterias, principalmente, para o jogador do Real Madrid, com o nome de Messi à cabeça) e que, além disso, já são crescidinhos.
Faz-me lembrar uma outra situação passada com João Pinto, quando agrediu um árbitro em pleno jogo do mundial. O agora comentador desportivo virou, num ápice, com esse desafio, uma espécie de herói nacional.
Tivemos, nas escolas (são jovens os que consomem este tipo de episódios - os jovens e os inenarráveis comentadores desportivos), a moda da cuspidela (via futebol, em grande parte, que o diga um outro exponencial ex-futebolista, de seu nome Sérgio Conceição). Pode ser que agora o dedinho apontado se cole, episodicamente, em algumas mentes engraçadas. O Madaíl, decerto, compreenderá.
Faz-me lembrar uma outra situação passada com João Pinto, quando agrediu um árbitro em pleno jogo do mundial. O agora comentador desportivo virou, num ápice, com esse desafio, uma espécie de herói nacional.
Tivemos, nas escolas (são jovens os que consomem este tipo de episódios - os jovens e os inenarráveis comentadores desportivos), a moda da cuspidela (via futebol, em grande parte, que o diga um outro exponencial ex-futebolista, de seu nome Sérgio Conceição). Pode ser que agora o dedinho apontado se cole, episodicamente, em algumas mentes engraçadas. O Madaíl, decerto, compreenderá.
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quarta-feira, novembro 09, 2011
limitações salariais para os gestores públicos
É uma medida justa, concordante com os tempos que correm, a limitação salarial que os gestores de empresas públicas vão estar sujeitos. Essa limitação vai ter como teto retributivo o ordenado do primeiro-ministro. O que já me custa a entender são as exceções. Estas dizem respeito aos gestores que operem em empresas ligadas à atividade mercantil e em regime de concorrência de mercado. Continuamos, pois, no mito dos homens providenciais e, mais do que isto, na ordenança catalogada das impiedosas leis do mercado.
sexta-feira, novembro 04, 2011
o abstémio
Nós não somos os gregos, está-se mesmo a ver. Ainda bem, dirão uns, ainda mal, outros. Nós não pertencemos, portanto, àquela zona de confusão sistémica grega. Temos assim dois partidos, muito limpinhos, muito bem comportadinhos, os quais, por obra e graça de nosso senhor e também dos portugueses, se revezam, sofregamente, no poder do Estado. Os dois partidos são mentirosos. É, na verdade, uma das muitas caraterísticas siamesas que os aglomera. Invariavelmente, ganham eleições mentindo aos portugueses. Nesta propósito, Passos Coelho ocupa um lugar invejável no ranking dos primeiros-ministros que faltaram ao prometido. Há sempre a desculpa, oportuna, do desconhecimento das contas herdadas pelo anterior executivo. É esta, no fundo, a base da teoria barrosista do Portugal está de tanga. Neste momento de tormenta, cabe ao PSD governar o país. O PS, por conseguinte, lidera a oposição que outrora foi ocupada, nos mesmos moldes discursivos, pelo PSD. O PS de Seguro discorda profundamente do Orçamento de Estado para 2012 (curioso e obtuso ponto de reflexão de Aguiar Branco: este é um orçamento de estado do Partido Socialista). Vai mais longe do que a Troika; oprime os portugueses; é ultraliberal; é... é.... e é... O líder do PS, que gosta da pose institucional, debita especiais sound bites políticos: este não é o meu orçamento, mas é o meu país e não volto as costas a Portugal. Aplausos? Parece que existem por aí alguns, dentro do próprio PS e também no PSD.
Seguro é incapaz de entender que não tem de se abster quando não concorda, pública, frontal e explicitamente das diretrizes económicas e sociais preconizadas pelo Orçamento de Estado. Como partido corresponsável pela entrada do triunvirato (por onde andas, Portas?...) em território luso, esta abstenção é, sobretudo, um autoatestado de incompetência. Nós somos contra, mas abstemo-nos. Alguém entende esta gente, se excluirmos, como é óbvio, aqueles jogos e joguetes políticos costumeiros? Precisamente esses que têm deixado Portugal numa jangada de pedra?
Seguro é incapaz de entender que não tem de se abster quando não concorda, pública, frontal e explicitamente das diretrizes económicas e sociais preconizadas pelo Orçamento de Estado. Como partido corresponsável pela entrada do triunvirato (por onde andas, Portas?...) em território luso, esta abstenção é, sobretudo, um autoatestado de incompetência. Nós somos contra, mas abstemo-nos. Alguém entende esta gente, se excluirmos, como é óbvio, aqueles jogos e joguetes políticos costumeiros? Precisamente esses que têm deixado Portugal numa jangada de pedra?
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quinta-feira, novembro 03, 2011
o referendo grego
Chegou a Grécia a um limite. O suposto referendo ao novo empréstimo monetário acrescido de mais um plano de austeridade não é mais do que um referendo à saída da Grécia da união monetária. Talvez seja com decisões deste tipo, assentes, portanto, na democracia, que a Europa pule e avance. Mesmo que isto implique uma aparente regressão. No fundo, o que falta à Europa são europeus, a voz do povo.
segunda-feira, outubro 31, 2011
pensão vitalícia, subsídios, políticos
Jorge Coelho renunciou, estoicamente, à pensão vitalícia a que tinha, por inelutável intermédio da letra de lei, direito. Sabemos que o Governo prepara uma diretiva no sentido de acabar com este tipo de benesses a ex-políticos que se encontrem a usufruir de uma acumulação no setor privado. Daí que a nobreza deste gesto de Coelho se encontre ao mesmo nível de uns outros seus compagnons de route, agora no governo, os quais recusaram - vejam só! - o subsídio de alojamento a que tinham direito, mesmo sendo possuidores de habitação própria na capital. Foi até com este tipo de fundamentação que Aguiar Branco superou esta onda de hipocrisia política ao renunciar a um dos subsídios de alojamento (o monetário).
A este propósito, convém desmistificar algo que os comentadores políticos teimam em engrandecer, que se cola a uma suposta verdade que é a de que os políticos, em Portugal, são mal pagos. Mal pagos em relação a quem? Quantos quadros superiores públicos recebem, por exemplo, 800 euros mensais de subsídio de alojamento? E não sei quanto para despesas de representação?
A meu ver, urge, efetivamente, em Portugal, uma reforma salarial. Só que a mesma não passa - não deve - pelo aumento da massa salarial dos políticos.
A este propósito, convém desmistificar algo que os comentadores políticos teimam em engrandecer, que se cola a uma suposta verdade que é a de que os políticos, em Portugal, são mal pagos. Mal pagos em relação a quem? Quantos quadros superiores públicos recebem, por exemplo, 800 euros mensais de subsídio de alojamento? E não sei quanto para despesas de representação?
A meu ver, urge, efetivamente, em Portugal, uma reforma salarial. Só que a mesma não passa - não deve - pelo aumento da massa salarial dos políticos.
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