Vem a propósito do que aí vem, com a entrada do FMI em Portugal. Existe, no país, uma espécie de estruturação que é feita a régua e esquadro. Hoje, os noticiários contaram, quase como nota de rodapé, que o posto de correios de Torre Dona Chama encerrará num brevíssimo espaço temporal (simplex). Vi o pesar de muitos locais, alguns choros, muita indignação. "Não votaremos nas próximas eleições", ouviam-se lamuriosos tons de revolta, a maior parte gastos pelo tempo.
Na verdade, a origem da tendência dissemelhante do país encontra-se algures no tempo da nossa empreitada marítima, quando o rei não soube estruturar o território homogeneamente, aliciando mão de obra masculina para as grandes cidades marítimas (o mercantilismo reinante exigia também empregos qualificados ligados aos deves e haveres do próprio Estado, empregos que não podiam ser deslocalizados para fora da orla marítima: o futuro, o plano tecnológico de então, era o mar, os barcos, o comércio, as rotas... A agricultura começou, então, tal como agora, a volver-se num parente pobre do progresso). Desde aí, Portugal, país geograficamente reduzido (daí o paradoxo), nunca soube inverter uma situação gritante de desigualdade cada vez mais crescente a todos os níveis, acabando por ser, no início do século XXI, o país europeu com maiores índices de desigualdades.
Lastimavelmente, o Governo não consegue entender o país e, por conseguinte, é assustadoramente incapaz de perceber o interior. Na verdade, pode arquitetar de forma exemplar uma determinada narrativa aritmética, do quanto poupa ao encerrar um posto de correios ou um centro de saúde. O que não consegue é entrar na cabeça das pessoas para quem um atendimento personalizado ali perto, onde se paga a água e a luz, onde se levanta a parca reforma esticada para um demasiado longo mês, faz toda a diferença do mundo. Volto a Guterres na crítica a Cavaco Silva: os portugueses não são números.
quarta-feira, abril 06, 2011
ajuda externa
Algo está a mudar no reino da fantasia: o ministro-mor deixou de falar ao país no horário nobre dos telejornais, logo após do musicado e apelativo pórtico de entrada. Agora autoremete-se para o fundo desses espaços informativos. Afinal, as contas eleitorais também se fazem, mesmo com o FMI a mandar.
conselho de estado
A condimentar a crise política só faltava mesmo o mui nobre Conselho de Estado exercer, na praça pública das televisões, o princípio do contraditório.
os abstrativos salvadores da pátria
Ouvimos e lemos por aí os salvadores da pátria contratados (contratados é um modo disfémico de alindar a questão, pois todos sabemos que esta gente, tratando-se de temas tão nobres como, por exemplo, o país - essa realidade abstrata que tão bem os tem servido ao longo de décadas de democracia - recusam todo e qualquer pinto sonante) pelo Partido Social Democrata de Passos Coelho (na verdade, começa-se a não se vislumbrar qualquer dissemelhança de fundo entre este partido de Coelho e os que o antecederam) admitirem, de fronha fixa e aparentemente compungida que, afinal, será necessário - imprescindível mesmo! - cortar o 13º mês aos trabalhadores portugueses.
O verbo, para esta gente, revela-se fácil, resoluto e cómodo quando, lá no assento etéreo onde se encontram (convenientemente colocados pela abstrata e prestativa pátria), abordam assim sem mais nem menos estas questões económicas. Convém sempre recordar que o ordenado médio em Portugal é de, mais euro, menos euro, 750 euros, valor igualmente abstrato para os carrapatosos do regime.
O que se revelava realmente patriótico era esta gente abdicar, durante três ou quatro anos, dos seus próprios subsídios de natal, férias e prémios de gestão. O simbolismo desta decisão reforçava, no fundo, a saída do universo da abstração analítica.
O verbo, para esta gente, revela-se fácil, resoluto e cómodo quando, lá no assento etéreo onde se encontram (convenientemente colocados pela abstrata e prestativa pátria), abordam assim sem mais nem menos estas questões económicas. Convém sempre recordar que o ordenado médio em Portugal é de, mais euro, menos euro, 750 euros, valor igualmente abstrato para os carrapatosos do regime.
O que se revelava realmente patriótico era esta gente abdicar, durante três ou quatro anos, dos seus próprios subsídios de natal, férias e prémios de gestão. O simbolismo desta decisão reforçava, no fundo, a saída do universo da abstração analítica.
terça-feira, abril 05, 2011
insanos
Melhor do que ganhar 2-1 no Estádio da Luz e comemorar aí o título de "campeon" nacional é ganhar 2-1 no Estádio da Luz, comemorar o título de campeon, desligarem a luz e acionarem o sistema de rega.
segunda-feira, abril 04, 2011
os sinais de josé sócrates
Prescindo de voltar a frisar sobre a secagem que um forte líder partidário origina no seu partido. A entrevista do primeiro ministro hoje na RTP1 ofereceu-nos uns sinais interessantes sobre a personagem. Algumas das curiosidades ligadas ao espaço interior de Sócrates já sobejamente mastigadas pelos comentadores profissionais e de serviço fez-nos o próprio o favor de as relembrar. Assim, é comummente aceite que ele não vira a cara à luta (ouço agora Maria João Avilez afirmar - sem rir - que o homem é um verdadeiro case study). Do mesmo modo, repete variadíssimas vezes que "eu já ganhei as eleições".
Estou propenso a crer que José Sócrates já se esqueceu, mas quem ganhou as eleições não foi ele, mas o Partido Socialista. Do mesmo modo, quem tomou as várias medidas de Governo não foi ele, mas o Conselho de Ministros.
Um outro ponto curioso apontado na entrevista tem a ver com o tempo antes e pós PEC. Ouvindo Sócrates, vivíamos numa espécie de oásis no tempo do antes. Para ele, a crise começou ontem.
Estou propenso a crer que José Sócrates já se esqueceu, mas quem ganhou as eleições não foi ele, mas o Partido Socialista. Do mesmo modo, quem tomou as várias medidas de Governo não foi ele, mas o Conselho de Ministros.
Um outro ponto curioso apontado na entrevista tem a ver com o tempo antes e pós PEC. Ouvindo Sócrates, vivíamos numa espécie de oásis no tempo do antes. Para ele, a crise começou ontem.
sábado, abril 02, 2011
os partidos e as aclamações
Decorrente ainda do post anterior, o Partido Socialista prepara-se, este fim de semana, para um dos mais estúpidos e, consequentemente, inúteis congressos da sua história. Por uma simples razão: este congresso realiza-se exclusivamente para aclamação do líder. Poderia o partido, contudo, visionar o futuro com esta aglomeração de encómios. O problema é que se irá contemplar o passado. Temos, pois, neste espaço de pretensa discussão de ideias, vários cruzamentos temporais: o passado glorioso socratiano (a primeira maioria absoluta do PS - esta gente gosta deste tipo de registos, tal como os adeptos de futebol acarinham as goleadas futebolísticas dos seus clubes) exacerbadamente exaltado no presente para se despejar num futuro de pasmada oposição externa e interna. E o problema reside precisamente nesta última: inicia-se tarde demais.
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