Dia 12 de março será dia de manifestação. Aparentemente, são uns jovens movidos, também aparentemente, por excesso de adrelanina tecnológica, via redes sociais, que combaterão em nome da precaridade laboral e das demais injustiças sociais. Confesso que, desde o início projetado do protesto, nunca me interessei pelo tema nem pela ação. Ou melhor, interessa-me o tema, mas não creio que seja este tipo mais apropriado de gente a introduzi-lo. No entanto, os media têm-se revelado prodigiosos na amostragem da manifestação, em Lisboa. Cavaco também se interessou, incluindo-a subliminarmente no seu discurso de posse.
Entretanto, há em Portugal mais jovens com juventudes demasiado prolongadas. E desses ninguém fala. Para esses, existe apenas a inquietação definitiva de que, se pudessem, não estavam de certeza naquele Terreiro do Paço protestativo do dia 12.
quarta-feira, março 09, 2011
o discurso de cavaco
Cavaco Silva tomou hoje posse como o 20º presidente da República Portuguesa. É o seu segundo mandato à frente da República e adivinha-se um início de mandato no mínimo desconcertante. Na sua comunicação aos deputados (ao país), uma palavra foi discursivamente reiterada: ativo(a).
A par disso, o seu discurso de tomada de posse foi projetivamente coerente. Na verdade, Cavaco não se coibiu de discorrer sobre a crise social em que nos encontramos submergidos, em versão, é claro, maioritariamente económica. Assim, ouvimo-lo falar, do alto da tribuna parlamentar, de "dados económicos", "desemprego", "pobreza e exclusão social". Mas também o ouvimos, incisivo, a proclamar a urgência de "encontrar soluções", ou a autodefinida imposição de traçar "linhas de orientação e de rumos para a economia nacional", ou o pedagógico "entendo que há soluções", ou ainda o soarista presidencial "há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos", ou o guterrista eleitoral "os Portugueses não são uma estatística abstrata".
A salpicar tudo isto, o espaço dedicado aos jovens. Para o presidente da República, é neles que reside o futuro de Portugal. Foi precisamente aqui que Cavaco se pareceu mais com Cavaco.
A par disso, o seu discurso de tomada de posse foi projetivamente coerente. Na verdade, Cavaco não se coibiu de discorrer sobre a crise social em que nos encontramos submergidos, em versão, é claro, maioritariamente económica. Assim, ouvimo-lo falar, do alto da tribuna parlamentar, de "dados económicos", "desemprego", "pobreza e exclusão social". Mas também o ouvimos, incisivo, a proclamar a urgência de "encontrar soluções", ou a autodefinida imposição de traçar "linhas de orientação e de rumos para a economia nacional", ou o pedagógico "entendo que há soluções", ou ainda o soarista presidencial "há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos", ou o guterrista eleitoral "os Portugueses não são uma estatística abstrata".
A salpicar tudo isto, o espaço dedicado aos jovens. Para o presidente da República, é neles que reside o futuro de Portugal. Foi precisamente aqui que Cavaco se pareceu mais com Cavaco.
o estranho caso da reforma do ensino básico
Retira-se do currículo do ensino básico duas disciplinas chamadas extracurriculares (estudo acompanhado e área do projeto), afunila-se a lecionação de educação visual e tecnológica para um professor (eram dois), junta-se um fermento de contestação sindical e temos uma reforma educativa. Mentor do extraordinário desígnio nacional: Isabel Alçada (só tenho pena de não continuar a ouvir as bacoradas justificativas de Walter Lemos).
Ouvi a ministra da educação divagar sobre finanças públicas (não sabe onde o Orçamento Geral do Estado vai agora buscar os 42 milhões de euros decorrentes desta extravagância da oposição política parlamentar). Foi desconcertante. Não sei se este penoso encargo teve como mandante Sócrates ou Teixeira dos Santos. O que eu sei é que, definitivamente, a educação (o projeto nacional educativo do país) é um parente pobre para o presente executivo em crise permanente.
Em primeiro lugar, uma reforma educativa tem, necessariamente, voos mais alargados do que estes cortezitos estereotipados. Uma reforma educativa tem, por inerência nominal, um projeto educativo interciclo e intergeracional. Neste sentido, o ponto de partida deve ser sempre interrogativo: que cidadãos queremos ter dentro de 15 ou 20 anos? Para isto não basta, pois, retirar, num ampla narrativa pedagógico curricular, duas ou três disciplinas de importância reduzida. Para além disso, introduzir no campo educativo variáveis orçamentais impostas por um défice crónico e agora cada vez mais apertado por uma impassível e destacada Alemanha, não é uma aglutinação saudável nem tão-pouco coerente. A aposta na educação – na educação que não é parva – é e será sempre uma aposta de futuro. Não há praticamente país no mundo com desinvestimentos nesta área. Pelo contrário, o que se tem vindo a verificar é uma aposta cada vez maior num paradigma educativo de acordo com as necessidades conjunturais e estruturais de cada país. Cavaco Silva, infelizmente, com a sua incapacidade de análise social (e cada vez mais deslumbrado pela tese do bom aluno europeu, que ainda dela fez eco há meia dúzia de semanas) hipotecou de forma traumática várias gerações de portugueses (o país) aquando da sua passagem repetidamente maioritária por São Bento. Mas depois dele também ninguém elaborou melhor projeto para a educação. Desgraçadamente, a qualidade das equipas do ministério da educação tem vindo a revelar-se em queda dramaticamente livre. Vejamos: tivemos Roberto Carneiro, Marçal Grilo para acabarmos em Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada. Aqueles não conseguiram, é certo, edificar o tal projeto (não há projeto sem pacto educativo partidário). Estes, simplesmente, não sabem o que fazem (Lurdes Rodrigues, como é da praxe, ainda conseguiu um confortável lugar como presidente da Fundação Luso-Americana).
Para além desta pseudo reforma do ensino básico gostaria de referir uma outra que corre em paralelo na área do ensino da língua materna. São os chamados novos programas de português para o ensino básico e secundário. Há um pressuposto louvável neste exercício: conluiar o ensino da língua portuguesa nas suas determinações decorrentes do processo de ensino aprendizagem. Acontece que este exercício de homogeneização só teria o seu desejável amplo alcance se tivesse em conta as variantes gramaticais americana e africana. Tal como decorreu, aliás, do acordo ortográfico. O lema unidade na diversidade que deve pautar, de facto, o espaço linguístico lusófono, deve também ser delineado não por uma ramificação gramatical terminológica, mas antes por aquilo que os linguistas apelidam de diassistema, isto é, um sistema de sistemas, categoria inerente à própria variação de uma língua, seja no âmbito de uma variação diatópica (no espaço), diafásica ou diastrática (diferenças entre os estratos sócio culturais da comunidade linguística). O que decerto irá acontecer, dentro de pouco anos, é uma nova reforma do ensino da língua materna, agora conjugado com os nossos associados falantes nativos da língua portuguesa.
Não queria acabar estas linhas sem antes afirmar, a respeito da revogação do decreto-lei do Governo que iria entrar em vigor no início do próximo ano letivo (o qual determina a extinção da Área de Projeto, o fim do par pedagógico em Educação Visual e Tecnológica e a limitação do Estudo Acompanhado a alunos com dificuldades) que concordo com a medida do Executivo. Na verdade, não creio que os alunos adquiram substanciais competências com este tipo de disciplinas de importância reduzida. Estas horas letivas poderiam ser aproveitadas para o aprofundamento de outros conteúdos disciplinares (língua materna, iniciação a uma segunda ou terceira língua estrangeira…). Do mesmo modo, estou em crer que o par pedagógico a Educação Visual e Tecnológica não faz, efetivamente, sentido. Todavia, o que não faz também sentido é despachar para o desemprego insuprível milhares de professores. E este tipo de medidas social e profissionalmente insensível também é projeto educativo.
Ouvi a ministra da educação divagar sobre finanças públicas (não sabe onde o Orçamento Geral do Estado vai agora buscar os 42 milhões de euros decorrentes desta extravagância da oposição política parlamentar). Foi desconcertante. Não sei se este penoso encargo teve como mandante Sócrates ou Teixeira dos Santos. O que eu sei é que, definitivamente, a educação (o projeto nacional educativo do país) é um parente pobre para o presente executivo em crise permanente.
Em primeiro lugar, uma reforma educativa tem, necessariamente, voos mais alargados do que estes cortezitos estereotipados. Uma reforma educativa tem, por inerência nominal, um projeto educativo interciclo e intergeracional. Neste sentido, o ponto de partida deve ser sempre interrogativo: que cidadãos queremos ter dentro de 15 ou 20 anos? Para isto não basta, pois, retirar, num ampla narrativa pedagógico curricular, duas ou três disciplinas de importância reduzida. Para além disso, introduzir no campo educativo variáveis orçamentais impostas por um défice crónico e agora cada vez mais apertado por uma impassível e destacada Alemanha, não é uma aglutinação saudável nem tão-pouco coerente. A aposta na educação – na educação que não é parva – é e será sempre uma aposta de futuro. Não há praticamente país no mundo com desinvestimentos nesta área. Pelo contrário, o que se tem vindo a verificar é uma aposta cada vez maior num paradigma educativo de acordo com as necessidades conjunturais e estruturais de cada país. Cavaco Silva, infelizmente, com a sua incapacidade de análise social (e cada vez mais deslumbrado pela tese do bom aluno europeu, que ainda dela fez eco há meia dúzia de semanas) hipotecou de forma traumática várias gerações de portugueses (o país) aquando da sua passagem repetidamente maioritária por São Bento. Mas depois dele também ninguém elaborou melhor projeto para a educação. Desgraçadamente, a qualidade das equipas do ministério da educação tem vindo a revelar-se em queda dramaticamente livre. Vejamos: tivemos Roberto Carneiro, Marçal Grilo para acabarmos em Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada. Aqueles não conseguiram, é certo, edificar o tal projeto (não há projeto sem pacto educativo partidário). Estes, simplesmente, não sabem o que fazem (Lurdes Rodrigues, como é da praxe, ainda conseguiu um confortável lugar como presidente da Fundação Luso-Americana).
Para além desta pseudo reforma do ensino básico gostaria de referir uma outra que corre em paralelo na área do ensino da língua materna. São os chamados novos programas de português para o ensino básico e secundário. Há um pressuposto louvável neste exercício: conluiar o ensino da língua portuguesa nas suas determinações decorrentes do processo de ensino aprendizagem. Acontece que este exercício de homogeneização só teria o seu desejável amplo alcance se tivesse em conta as variantes gramaticais americana e africana. Tal como decorreu, aliás, do acordo ortográfico. O lema unidade na diversidade que deve pautar, de facto, o espaço linguístico lusófono, deve também ser delineado não por uma ramificação gramatical terminológica, mas antes por aquilo que os linguistas apelidam de diassistema, isto é, um sistema de sistemas, categoria inerente à própria variação de uma língua, seja no âmbito de uma variação diatópica (no espaço), diafásica ou diastrática (diferenças entre os estratos sócio culturais da comunidade linguística). O que decerto irá acontecer, dentro de pouco anos, é uma nova reforma do ensino da língua materna, agora conjugado com os nossos associados falantes nativos da língua portuguesa.
Não queria acabar estas linhas sem antes afirmar, a respeito da revogação do decreto-lei do Governo que iria entrar em vigor no início do próximo ano letivo (o qual determina a extinção da Área de Projeto, o fim do par pedagógico em Educação Visual e Tecnológica e a limitação do Estudo Acompanhado a alunos com dificuldades) que concordo com a medida do Executivo. Na verdade, não creio que os alunos adquiram substanciais competências com este tipo de disciplinas de importância reduzida. Estas horas letivas poderiam ser aproveitadas para o aprofundamento de outros conteúdos disciplinares (língua materna, iniciação a uma segunda ou terceira língua estrangeira…). Do mesmo modo, estou em crer que o par pedagógico a Educação Visual e Tecnológica não faz, efetivamente, sentido. Todavia, o que não faz também sentido é despachar para o desemprego insuprível milhares de professores. E este tipo de medidas social e profissionalmente insensível também é projeto educativo.
quarta-feira, março 02, 2011
o contributo de vicente jorge silva
Ouvi, de relance, Vicente Jorge Silva, nebulosamente compungido, afirmar que a liberdade festejada pela sociedade atual se paga também com precaridade laboral. Pois eu penso que quando se entra num estádio mais ou menos persistente de precaridade laboral, a liberdade vai relacionalmente diminuindo. E aí entramos em vias inconstitucionais.
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o psd e o governo
O secretário geral de um partido fala, quando o faz à frente das camaras de de televisão, em nome do partido que representa. José Relvas afirmou hoje que o Governo anda desnorteado, ao ponto de ter dificuldade de entender a sua mensagem. Tudo porque Teixeira dos Santos, o desgraçado ministro das finanças, admitiu a possibilidade de mais medidas de austeridade. Défice oblige. Só isso. Não sei onde para a dificuldade de entendimento por parte do sr. Relvas. O que eu realmente não entendo é este PSD. Nem ata nem desata. As costas quentes do funesto e augurado rotativismo que nos aniquila dá para estas coisas.
sábado, fevereiro 26, 2011
tudo bons rapazes
Hugo Chavez afirmou hoje que o seu governo apoia naturalmente o governo libanês, apoio esse extensível ao seu homólogo Kadafi. Adiantou ainda que existe uma manipulação ocidental, assim como tendências intervencionistas. Depois rematou que é a favor da paz.
Acontece que a favor da paz somos todos, mesmo os mais ignóbeis ditadores. Não basta, porém, ficarmos por aí.
Acontece que a favor da paz somos todos, mesmo os mais ignóbeis ditadores. Não basta, porém, ficarmos por aí.
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
o mundo e a líbia
Torna-se curioso verificar, através do espelho mediático que é, neste momento, a Líbia, certas desarmonias da nossa ocidentalizada ordem mundial. Para além de pertencer ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU - cujo escopo é a verificação e consequente elaboração de um relatório público (público, quero repetir) sobre a situação dos direitos humanos (direitos humanos, permito-me reiterar) em países ou territórios específicos (em Marte?...) -, a Líbia possui também, na mesma ONU, uma "embaixadora da boa vontade", a qual é, obviamente, a filha do decaníssimo ditador Kadafi.
Parece que a organização, num veradeiro e hilariante e exemplar trabalho preventivo, tratou já de expulsar esta gente...
Parece que a organização, num veradeiro e hilariante e exemplar trabalho preventivo, tratou já de expulsar esta gente...
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