segunda-feira, janeiro 17, 2011

mau serviço

Revela-se importante esclarecermos que presidente queremos para o país e não andarmos de cinco em cinco anos a discutir o mesmo. Soares era acusado, por parte dos cavaquistas, de intervir em excesso, isto é, de opinar critica e sistematicamente. Santos Silva vem agora tentar reduzir os poderes do presidente Cavaco, remetendo-o para aquilo que Soares nunca foi nem nunca aceitou ser. Tudo porque quem está no governo é o PS. Se por acaso tivéssemos um governo PSD, o discurso seria necessariamente outro. E são estas coisas que toldam o raciocínio político não só dos agentes mas também dos pacientes.

desemprego - o pior já passou

Vi de relance o título em qualquer sítio: já passou o pior relativamente ao desemprego. Logo de imediato, vislumbrei que esta estatística mental só poderia ter saído duma cabecinha costumeira nestas enormidades: Walter Lemos. Não me enganei.

domingo, janeiro 16, 2011

a alegre campanha

Como é hábito nestas coisas, os jornais e comentadores construíram a ideia de que a campanha eleitoral tem sido caraterizada por uma inocuidade de assuntos e de visões futuristas. Devem ter razão. No entanto, eu não encontro grandes diferenças para outras campanhas presidenciais. É certo que há já um vencedor antecipado (mais uma efabulação mediática); é também acertado que Alegre tem sido, desde o seu impulso iniciático, um desastre, um fuzil poético no meio das dívidas, dos défices, dos pec's e restantes desorçamentações, das reduções salariais, das obrigações do tesouro, dos leilões, dos juros, dos "credit default swaps"; e que Francisco Lopes é o costumeiro candidato comunista sem nada para dizer que se afigure novidade; e também que Fernando Nobre desiludiu imergindo na sua surpreendente vaidade. Temos, portanto, variegados esboços analíticos, paradoxalmente convergentes nas suas individualidades.
O resultado desta salsada não vai ser dos melhores. O vencedor Cavaco sai fragilizado por ter sido, pela primeira vez na sua longa carreira política, confrontado com a sua própria incapacidade e também com a nulidade do cargo que ocupa. A par disto, Cavaco Silva não é, afinal - tem-se vindo extraordinariamente a provar -, o tal que se encontra por cima da podridão partidária. Pelo contrário, ou por incapacidade de análise, ou por (o que é bem pior) se julgar efetivamente acima da choldra política, o atual presidente da República viveu embrulhado em algumas negociatas pouco recomendáveis. É assim uma espécie de segundo nascimento, que ele, curiosamente, avençou nesta campanha eleitoral.
Do mesmo modo, Cavaco perde pela simples razão que vai ser, provavelmente, o presidente da República reeleito com menor percentagem de votantes em confronto direto com o segundo classificado. Mas mesmo que isto não aconteça, o mito Cavaco Silva enquanto alter ego de uma certa portugalidade acabou, definitivamente.

terça-feira, janeiro 11, 2011

esperteza saloia

Estamos nós fartos de luminárias. Na verdade, a nossa democracia tem proporcionado variadíssimas ramificações deste espécime. Seria esgotante enumerá-los aqui neste pequeno espaço, mas posso adiantar, como, digamos, personagem-tipo, o sempre conveniente Ferreira do Amaral, que afoitamente negociou, quando liderava o Ministério das Obras Públicas, o contrato da travessia de todas as pontes a jusante de Vila Franca de Xira à Lusoponte, para depois presidir à… Lusoponte.
Neste paradigma, o governo da República não conseguiu arranjar mais ninguém para presidir à coisa BPN para além de um tal Francisco Bandeira, o qual, em comissão de inquérito, responde, assim, desavergonhadamente, quando questionado por um deputado do CDS-PP (João Almeida) se auferia mais algum ordenado para além do cargo que ocupa como vice-presidente da CGD. O homem respondeu então que não, senhor, não auferia mais nada. Acontece que agora conseguiu uma acumulaçãozita (uns parcos 63 mil euros) através da presidência do banco recentemente nacionalizado. Responde à pacóvio: não há nenhuma correção a fazer porque "à data [da comissão de inquérito] não recebia" mais nenhum vencimento, para além daquele inerente ao seu trabalho na CGD. E não é que o homem tem razão

segunda-feira, janeiro 10, 2011

discursos socráticos

O discurso político consegue distender o seu longo braço semântico nas direções que mais lhe convém. José Sócrates é, neste ponto, um verdadeiro paradigma. Ouvindo-o há dias no Parlamento pensei para comigo em que país é que este indivíduo vive. Para o primeiro-ministro, Portugal sobe em todas vertentes quantificáveis de desenvolvimento, desde a educação (que jeitaço o último e singular PISA) à justiça, passando pelas exportações e acabando no malfadado défice. Só faltou falar na quantificação da variável emprego. Ou desemprego. Ouvindo-o, pensei nas razões destes cortes que têm atormentado milhares de famílias, milhares de eternos desempregados e outros tantos de eternos pobres. Eu sei que o discurso do desalento não ajuda. Mas Sócrates exagera nas suas esfumadas convições. Ouvindo-o, uma evidência se emerge: não é com este homem de estultas certezas que o país sairá do pântano (Guterres dixit num dia de nevoeiro autárquico) em que o meteram PS e PSD.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

uma campanha alegre

Olhei hoje para Manuel Alegre em plena ação de campanha e tive dificuldades em relacioná-lo com o Alegre que se apresentou no debate televisivo com Cavaco Silva. Aqui surgiu envergonhado, titubeante, invariavelmente dependente da projeção discursiva dos seus interlocutores.
Já se sabe qual a estratégia dos candidatos: Cavaco quer que tudo passe rápido e cada aparição é, para ele, uma maçada. Os outros, excetuando talvez Nobre (sonha ainda com alguma coisa, uma espécie de milagre multiplicativo), desejam encostar às cordas Cavaco Silva. E depressa descobriram (honra seja feita a Lopes e Moura) que o único e estreito e perigoso caminho é o BPN, esse banco que o governo, não se sabe bem por que razão, remeteu para uma custosa sobrevivência.
Cavaco deveria, de fato, ter de explicar os meandros das suas venais ações. Mas prefere esboçar um papel tipicamente seu, principalmente quando o tempo é de campanha eleitoral. O deixam-me trabalhar de outrora passa agora para uma campanha suja e desonesta. Já aqui disse que Sócrates tem a mesma escola de Cavaco Silva (escola no sentido de sobrevivência política). É que entre isto e a campanha negra do Freeport a distância é, realmente, muito curta.

domingo, janeiro 02, 2011

cortes salariais em tribunal

Ouvi outro dia por acaso uma conversa de circunstância entre duas pessoas, num hipermercado. Os dois insurgiam-se contra o agravamento do nível de vida em 2011. Um deles rematou a conversação com isto: "se é para o bem do país!..." Uma nação é feita destas coisas, em que o bem comum, o perfil identitário prevalece a sintomatologias corporativistas.
Vem isto a propósito da notícia que tem vindo a ser explanada na comunicação social sobre a alegada inconstitucionalidade dos cortes salarias que entram em vigor neste mês de janeiro. Os agentes desta empreitada são o sindicato dos juízes (serão eles a julgar, em tribunal, a proposta) e a inevitável FRENPOF. Os juízes dizem que os cortes salariais reduzem em muito os seus vencimentos; os professores não dizem nada (a FENPROF dever-se-ia preocupar com outras latitudes protestativas e muito menos com estas espécie de questiúnculas abortivas). Ora parece-me facilmente entendível que os salários mais elevados serão os que levarão cortes mais elevados. Chama-se a isto proporcionalidade. Somos o segundo país da Europa com um maior índice de desigualdade salarial. Por conseguinte, tudo que seja uma tentativa de reduzir essa diferença será sempre bem vinda. Infelizmente, há quem continue a pensar demasiado corporativamente e se pense ad finem instalado em pedestais teimosa e acauteladamente dourados.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...