quarta-feira, janeiro 05, 2011

uma campanha alegre

Olhei hoje para Manuel Alegre em plena ação de campanha e tive dificuldades em relacioná-lo com o Alegre que se apresentou no debate televisivo com Cavaco Silva. Aqui surgiu envergonhado, titubeante, invariavelmente dependente da projeção discursiva dos seus interlocutores.
Já se sabe qual a estratégia dos candidatos: Cavaco quer que tudo passe rápido e cada aparição é, para ele, uma maçada. Os outros, excetuando talvez Nobre (sonha ainda com alguma coisa, uma espécie de milagre multiplicativo), desejam encostar às cordas Cavaco Silva. E depressa descobriram (honra seja feita a Lopes e Moura) que o único e estreito e perigoso caminho é o BPN, esse banco que o governo, não se sabe bem por que razão, remeteu para uma custosa sobrevivência.
Cavaco deveria, de fato, ter de explicar os meandros das suas venais ações. Mas prefere esboçar um papel tipicamente seu, principalmente quando o tempo é de campanha eleitoral. O deixam-me trabalhar de outrora passa agora para uma campanha suja e desonesta. Já aqui disse que Sócrates tem a mesma escola de Cavaco Silva (escola no sentido de sobrevivência política). É que entre isto e a campanha negra do Freeport a distância é, realmente, muito curta.

domingo, janeiro 02, 2011

cortes salariais em tribunal

Ouvi outro dia por acaso uma conversa de circunstância entre duas pessoas, num hipermercado. Os dois insurgiam-se contra o agravamento do nível de vida em 2011. Um deles rematou a conversação com isto: "se é para o bem do país!..." Uma nação é feita destas coisas, em que o bem comum, o perfil identitário prevalece a sintomatologias corporativistas.
Vem isto a propósito da notícia que tem vindo a ser explanada na comunicação social sobre a alegada inconstitucionalidade dos cortes salarias que entram em vigor neste mês de janeiro. Os agentes desta empreitada são o sindicato dos juízes (serão eles a julgar, em tribunal, a proposta) e a inevitável FRENPOF. Os juízes dizem que os cortes salariais reduzem em muito os seus vencimentos; os professores não dizem nada (a FENPROF dever-se-ia preocupar com outras latitudes protestativas e muito menos com estas espécie de questiúnculas abortivas). Ora parece-me facilmente entendível que os salários mais elevados serão os que levarão cortes mais elevados. Chama-se a isto proporcionalidade. Somos o segundo país da Europa com um maior índice de desigualdade salarial. Por conseguinte, tudo que seja uma tentativa de reduzir essa diferença será sempre bem vinda. Infelizmente, há quem continue a pensar demasiado corporativamente e se pense ad finem instalado em pedestais teimosa e acauteladamente dourados.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

debate pouco alegre

Sigo com tédio moderado o debate entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. Na verdade, a ornamentação destes debates televisivos também não ajuda para uma clarividência que se deve exigir numa campanha eleitoral.
Não é, de fato, difícil o emprego de Presidente da República, tirando alguns fins de semana preenchidos com convites folclóricos. O candidato Manuel Alegre e o candidato Cavaco Silva (gosto destas imparciais designações) não trazem nada de novo ao país. Brilhar, brilhar, só mesmo no minutito final no qual os candidatos se viram para as câmaras, ou melhor, para os putativos portugueses que os acompanham, e estrebucham o discursozito político afincadamente elaborado pelos seus assessores. Interessante será seguir agora os comentadores destrinçadores de imagéticas políticas esvoaçadas.

adenda: a ilusão desta campanha (e das outras presidencialistas) pode ser aferida numa frase de Cavaco Silva, a respeito dos pobres, desempregados, pensionistas, etc.: "para esses não pode faltar dinheiro". Se tivermos em conta os cortes nos diversos subsídios sociais e que o Presidente da República promulgou (ainda hoje a notícia do dia diz respeito ao pagamento das taxas moderadoras por todos os que ganham mais do miserável salário mínimo), este tipo de declarações confere ao cargo uma inocuidade preocupante.

terça-feira, dezembro 21, 2010

magistratura ativa

Cavaco Silva não foge à regra da projeção de um segundo mandato presidencial mais ativo. O que antigamente era cooperação estratégica passa agora para o menos português suave magistratura ativa. Deu já um atabalhoado sinal ao afirmar que estaria atento ao projeto-lei que altera, principalmente ao nível do financiamento (não é nisto que agora tudo desemboca?), a cooperação do Ministério da Educação com algumas escolas privadas. Antes, porém - e por que ainda não nos situamos temporalmente no segundo mandato -, originou mais um daqueles casos prodigiosos, reveladores do seu mainstream político: a lei do financiamento (não é nisto que tudo, hoje, desemboca?) dos partidos e campanhas eleitorais. Cavaco promulgou a lei e de imediato passou a combatê-la (curiosa ética cavaquista: a lei pode potenciar a lavagem de dinheiro, segundo as suas próprias e escritas palavras). Já assim acontera antes, com a promulgação da lei que enquadra, legitimadamente, o casamento entre homossexuais.
Veremos o que o futuro nos aguarda, nesta índole ativista do presidente.

domingo, dezembro 19, 2010

a campanha

As ideias sobre a presente pré-campanha (e a futura campanha) presidencial estão desde há muito formatadas. Todas elas vão ao encontro de uma caraterística preconceituosa da classe jornalística. O desinteresse é a nota dominante nesta gente. De uma maneira geral, os candidatos são avaliados pela espuma vaporosa das suas palavras e não pelas ideias que criticam ou que apresentam. Ou porque Fernando Nobre se apresentou exageradamente delicado para com Cavaco Silva (o último candidato a tratar grosseiramente um presidente em exercício - Basílio Horta - obteve um resultado miserável, de acordo, aliás, com a miserabilidade da sua campanha), ou porque Francisco Lopes é uma cassete comunista (esta ainda pega), ou ainda porque Manuel Alegre se agarra ao seu milhão de votos de 2006, ou porque Defensor Moura não tem ideias (crítica que é, na verdade, garantida para todos), ou ainda porque Cavaco Silva se limita a deixar escorrer, em percurso digressionista, o seu vazio ideotemático.
Eu sei que as preocupações dos portugueses nesta altura não se prendem muito com eleições, sejam presidenciais ou outras quaisquer. No entanto, seria bom que a imprensa fosse capaz de, desta vez, remar um pouco contra a maré cada vez mais afetada que teima grassar, resolutamente, na sociedade portuguesa.

cavaco e os sem abrigo

Cavaco Silva continua a sua senda demagógica a pouco mais de um mês de uma campanha eleitoral que se avizinha, apesar de tudo, fácil para a sua reeleição. Agora foi a vez dos sem abrigo, aparecendo (o verbo poderia ser outro, é verdade) num festivo casamento de alguém que foi ou ainda é um sem abrigo. As suas palavras foram ao encontro da ocasião: combate à pobreza, etc. Tudo muito encenado, tudo muito teátrico, à boa maneira de José Sócrates.

o (des)apoio de joão césar das neves

João César das Neves não apoia Cavaco Silva, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na última campanha presidencial, a cuja comissão de honra do candidato fez orgulhosamente parte. No entanto, César das Neves acrescenta que Cavaco é, de longe, o melhor dos candidatos.
É a primeira vez que vejo um candidato ser desapoiado tão pouco convincentemente. O setor católico social-democrata fica, assim, mais esclarecido sobre o seu sentido de voto.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...