terça-feira, dezembro 14, 2010

o portugal errático

Vejo ali na televisão António Barreto criticar, com razão, as opções de Portugal enquanto país de há 20 ou 25 anos atrás. Viviamos então envolvidos e mergulhados na onda europeia de uma espécie de refundação nacional, onde as prioridades se centravam no que era novo: autoestradas e subsídios da CEE. Deixávamos para trás importantes setores estruturais da nossa vida enquanto nação: a agricultura, o mar, as pescas. Lembro-me desses tempos. E o que me recordo é que andávamos todos embevecidos com os novos caminhos que os automóveis, impingidos cada vez mais veementemente em suaves prestações, breve e celeremente percorreriam.
Pena foi que estes visionários do passado não tivessem projetado esgares luminosos para o futuro. O futuro que, afinal, chegou neste presente.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

propagandisticamente

José Sócrates, o melhor vendedor de ilusões que o país teve a chefiar um Governo (e houve-os mais ou menos às carradas), debate no Parlamento sobre os resultados do último PISA (2009). Portugal ficou, nestes testes, pouco abaixo da média dos países intervenientes. Sócrates salienta os resultados notáveis, os quais marcam uma época no país, um antes e um depois, segundo as suas próprias e extraordinárias palavras.
Neste sentido, importa relevar o seguinte: foi a primeira vez que Portugal atingiu, de facto, estes desígnios. Daí que se afigure notavelmente incipiente este alarido à volta do programa PISA. Aliás, este exemplo adequa-se na perfeição ao que foi e continua a ser o paradigma do sistema educativo em Portugal: tudo muito avulsivo, tudo muito sincrónico, tudo muito pouco projetivo. Neste sentido, ainda havemos de ver alguma luminária proclamar Maria de Lurdes Rodrigues como o melhor ministro da educação do Portugal democrático.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

crise na justiça

É tragicamente curioso verificarmos o desenfreado mutismo do ministro Alberto Martins relativamente ao caos provocado pelas torrentosas demissões de um Secretário de Estado, de um diretor-geral da Administração, de um subdiretor-geral e de uma direção em bloco, ou seja, tudo pessoas que acompanhavam bem de perto toda a estrutura emanada pelo ministério, a qual, presumo, se enquadaria ainda no mais globalizante programa do Governo para a área.
Mas de programas governamentais estamos já há muito conversados. Na verdade, ninguém sabe muito bem, hoje me dia, o que isso é, apesar de, em áreas tão melindrosas e importantes como a Justiça, a Educação ou a Saúde, não deveria haver crise alguma que se sobrepusesse ao que fora previamente apresentado e outorgado pelos cidadãos eleitores.
Alberto Martins estará certamente à espera (como, aliás, muitos outros seus pares) que abril ou maio cheguem depressa para se ver livre da prisão em que José Sócrates o meteu.

domingo, dezembro 05, 2010

desregulações mentais

A marca de café Lavazza pagou 1,2 milhões de euros à atriz Julia Roberts para esta abrir esplenderosamente a sua boquinha e revelar a sua alva dentição. Dizem que nem precisou de se deslocar a Itália, visto que se encontrava em filmagens neste país. Daí que este trabalhinho tenha sido efetuado num dos intervalos da rodagem do filme.
Na minha humilde perspetiva, estas situações contratuais - vergonhosas - fazem também parte da chamada desregulação dos mercados. Há-as às centenas, aos milhares, com atrizes, atores, jogadores disto e daquilo, os quais sendo todos extraordinariamente bem pagos no que aos salários diz respeito, ainda penicam uns trocos a espevitadas marcas de produtos comerciais altamente globalizadas. Estas, por sua vez, tentarão sempre aproveitar-se dos incautos cidadãos (a necessidade da escola, da educação!...quão imprescindíveis!...) sempre dispostos a despender essas depenadas migalhas.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

hipocrisia política

Francisco Assis jogou aparentemente alto e excessivo com a chantagem da sua demissão de líder da bancada do grupo parlamentar do Partido Socialista, caso a maioria dos seus correligionários partidários votasse a favor da proposta do PCP, a qual preconizava a antecipação para este ano dos dividendos distribuídos pelas grandes empresas. Jogou, pois, elevado e parece que ganhou. Mas são estas pequenas vitórias da baixa política, fruto de táticas pessoais visando outras ramificações futuras, que fragilizam.
Ao mesmo tempo que Francisco Assis remetia a sua demissão para os colegas, afirmava (embora já convicto da sua vitória) que compreendia as declarações de voto por parte de alguns dos deputados socialistas. São pressupostos justificativos contraditórios e disparatados. É que não se pode ou não deve manifestar este sintoma de anuência a posteriori. Se verdadeiramente compreendesse deixava o barco correr ao sabor dos votos livres dos deputados.
A juntar a todo este circo de final de regime foram as declarações de Sócrates e Teixeira dos Santos, ao remeterem a decisão das empresas em antecipar a distribuição dos dividendos para este ano, para o domínio da moral e da ética. Como sabemos, moral e ética é coisa que sobeja nesta gente. Sempre quero ver onde parará esta dicotomia moralizadora quando se discutir a alteração para 500 euros do salário mínimo nacional. Ou (outro exemplo) a vinculação extraordinária dos professores com mais dez anos de serviço.

luís amado e os voos da cia

A situação é claríssima: Luís Amado afirmou que se demitiria se se provasse que aviões da CIA transportando prisioneiros passaram no espaço aéreo português. Sinceramente, estou em crer que não era caso para tanto empolgamento por parte do ministro dos negócios estrangeiros (os Estados Unidos passaram em todo o lado com aviões de Guantanamo). Ficou provado que isso, efetivamente, aconteceu. Não obstante, o Governo vem obstaculizar a situação com cenários que mais não fazem do que lançar poeiras de confusão analítica para cima dos portugueses incautos. Na verdade, esta não-opção de Luís Amado é simplesmente mais uma machadada no pouco crédito que este Governo tem junto dos portugueses. Por outro lado, o ministro da justiça revelou uma manifesta falta de noção do tempo certo para bater com a porta, preferindo optar pela protelação de mais uma situação entre muitas outras que trilharam este mesmo caminho.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

emprego, desemprego, demagogia

José Sócrates afirmou, desavergonhadamente, que discute somente política e não politiquice. Tudo a propósito das questões levantadas pelos jornalistas sobre uma eventual remodelação governamental (e isso não é politiquice, com toda a certeza, mas entendo por que, na sua cabeça, este assunto não valha um caracol). De seguida, ainda nesse efemeramente curto espaço temporal de glória mediática, o primeiro-ministro saiu-se, desassombrado, com um registo que merece anotação: o que interessa é devolver aos portugueses os seus empregos! Presumo que naquele ténue entendimento declarações deste tipo, as quais atingem direta ou indiretamente centenas de milhares de pessoas, não sejam consideradas de politiquice.
Politiquice é tudo aquilo que se diz e sabe-se que não se cumpre. É o que se encontra mais próximo da demagogia.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...