terça-feira, novembro 30, 2010

cavaco com novo fôlego

Uma das notas extraordinárias da política diz respeito às metamorfoses, sejam elas impostas ou oriundas de um processo francamente interiorizado. Cavaco é talvez o político no ativo com maior predominância decisória. Foi primeiro-ministro num tempo muito especial - o das chamadas vacas gordas -, num tempo em que nos contentávamos com o estatuto de bom aluno dos ditames de Bruxelas; é Presidente da República e foi ainda, há já muitos anos, um irrelevante ministro das finanças. Tem, portanto, uma enormíssima quota-parte de culpa relativamente ao estado a que isto chegou.
Estamos em campanha eleitoral e com ela o regabofe demagógico. Cavaco, o político que não gosta de o parecer, desavergonha-se perante os portugueses e esbofeteia-os com coisas como esta: Portugal deve voltar a ser um "país respeitado e credível na cena internacional", adiantando que não ser este um "tempo de experimentalismos, aventuras ou fantasias". Por isso, diz ainda o candidato que se for eleito será um presidente ativo e dinâmico mas (mas... mas...) simultaneamente prudente. Mais: "um presidente da República não é responsável pela governação do país, mas também não é uma figura meramente decorativa ou simbólica. É, desde logo, o garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições". Advoga ainda que tem ideias claras e realistas para o país e que não estará ao servilo de ideologia alguma.
Ficámos, pois, entendidos, senhor presidente da República. Mas eu não acredito em si.

segunda-feira, novembro 29, 2010

a comissão de inquérito já não existe

Henrique Granadeiro, presidente da PT, recusa entregar ao Parlamento o relatório final da auditoria feita a Rui Pedro Soares e a Paulo Penedos no âmbito do processo TVI. O motivo de tal procedimento, devidamente enquadrado na lei, como não podia deixar de ser, é daqueles que diz tudo desta gente: a comissão de inquérito já não existe! Henrique Granadeiro não consegue atingir que esta comissão de inquérito parlamentar só existiu porque havia sido avalizada pelo Parlamento, genuíno órgão de fiscalização. E uma comissão de inquérito é precisamente isso: uma fiscalização a posteriori que tem uma existência limitada no tempo. Não será, todavia, por acaso que junto da denominação comissão de inquérito se ajuntou o adjetivo parlamentar.

os quadros e os mitos ou os mitos dos quadros

Em Portugal existiu sempre uma áurea ligada aos quadros empresariais. Então se tiver o adjetivo superior colado, fica tudo dito. Tirar o cursozinho, ser doutor foi tradicionalmente o ponto de chegada de muitas famílias portuguesas. Daí até aos quadros é um pequeno passo. Ouvi mesmo há tempos um suposto quadro exibir, perante as câmaras de televisão, um adrede e inolvidável pedantismo, ao sugerir que os elevados ordenados dos quadros superiores têm uma explicação simplista, a qual se liga à suposta exiguidade dos mesmos.
Nesta linha de sentido, o Governo, compaginado envergonhadamente com o Partido Social-Democrata, decidiu abrir uma obscena exceção aos cortes salariais previstos no âmbito da execução do Orçamento Geral do Estado. As exceções são alguns quadros de algumas empresas públicas, os quais vendo-se assim tão desprotegidos nos seus 10% de corte salarial, poderiam mudar-se para uma empresa privada. Lembrei-me logo de alguns destes quadros como Armando Vara, Rui Pedro Soares, Mira Amaral, Ferreira do Amaral, ou outras centenas de nomes que, durante décadas de política neoliberal, ora a cargo do PSD, ora por interposto Partido Socialista, têm feito do Estado (direta ou indiretamente) uma espécie de fazedores de quadros. Desde logo, um ponto notoriamente comum: carreirismo partidário, isto é, a política como mero instrumento propulsionador de ávidas personalidades em busca de sonhos eventualmente desenhados, em muitos deles, imberbemente.
O que verdadeiramente me choca, no meio de todo este desnorte político, é este olhar sobredimensionado para esta gente. Pela minha parte, qualquer destes quadros deve sair se assim o entender. Não só por fazer parte de uma ambição legítima, mas também por que, nas dezenas de milhares de desempregados muito qualificados, haverá quem, possivelmente, os supere. Não em experiência, infelizmente.

sábado, novembro 27, 2010

apoios à reeleição de cavaco

Paulo Portas e Belmiro de Azevedo são dois diligentes apoiantes de Cavaco Silva. Nada teria de extraordinário se não houvesse, por exemplo, em Belmiro de Azevedo, um verboso passado recente (e quiçá um futuro igualmente fresco), no qual apelidou o chefe de estado de ditador. Convém notar que não é qualificativo que assente bem em qualquer presidente da república da União Europeia, muito menos num país que teve, até há pouco tempo, um regime contrário à democracia.
Mas o que efetivamente importa relevar neste arrimo tão notável são os argumentos utilizados. Sinceramente, fico sem saber se existe aqui alguma espécie de ironia quando ambos advogam, por exemplo, a ímpar preparação, conhecimentos e sabedoria em matéria de finanças públicas de Cavaco Silva.
Na verdade, o extraordinário autopanegírico de Cavaco Silva aquando da sua apresentação como candidato presidencial obteve eco: onde estaríamos nós sem Cavaco?...

quarta-feira, novembro 24, 2010

números da greve

A única coisa certa nisto da greve tem a ver com a disparidade dos números: para o Governo, vinte e tal por cento; para os sindicatos, três milhões de adesões. E ainda se diz que a matemática é ciência certa.

greves gerais, cavaco, sócrates

Verdadeiramente interessante foi ver imagens já com 22 anos, precisamente no tempo da última greve geral que juntou as duas centrais sindicais. Vi e ouvi Cavaco Silva e pensei que Sócrates tem de fato muitas parecenças com com o atual presidente da República (calma, senhores cavaquistas useiros, ainda havemos de ver Sócrates, dentro de dez anos mais coisa menos coisa, quando concorrer para o tacho de Belém, com discursos copy paste dos de Cavaco presidente). Dizia então o espantado Cavaco Silva que aquilo não era greve geral digna desse nome. Sócrates, neste momento, não poderia afirmar um disparate destes.

a crise e a Irlanda e o FMI

Com o dedo do FMI, a Irlanda prepara-se para despedir qualquer coisa como 24 mil e tal funcionários públicos. Ou seja, a maneira mais fácil de resolver situações pretensamente incontornáveis. Quer dizer que estes milhares de pessoas vão patrioticamente ajudar o seu país a solucionar um grave problema de défice orçamental. Provavelmente, os senhores do FMI e do Governo irlandês (assim como os seus homólogos portugueses) pensam que estas pessoas poderão resolver as suas iminentes precaridades existenciais talvez numa próxima vida.
Olho para o primeiro-ministro irlandês e não consigo deixar de ver Teixeira dos Santos.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...