Vamos ter mais Cavaco Silva no caldeirão político do Natal e também, segundo todas as previsões e por vontade do povo todo soberano, no próximo lustro. O presidente apresentou-se ao país enquanto candidato e depressa foi apelidado de mestre na tática política quando ordenou que os gastos da sua campanha não ultrapassassem metade do máximo que a lei permite. Obviamente que a mestria se situa algures entre a mediatização inerente ao cargo presidencial (não pode, de fato, deixar de ser presidente) e a sua efetiva pouca inclinação para a fotogenia, filmogenia, e outras coisas afins. No entanto, a astúcia de Cavaco quedou-se naquilo que de pior o candidato domina: a demagogia. Na verdade, toda a intenção comunicativa de Cavaco Silva foi ao encontro daquele centrão amorfo que não é carne nem peixe e vê em Cavaco aquilo que o próprio construiu mas que nunca provou ser.
A par de tudo isto, Cavaco Silva emergiu-se. Prometeu tudo o que já antes prometera, agora com um acréscimo de atividade, uma "magistratura ativa", como o próprio sublinhou. Esqueceu-se, todavia, de definir o que isso é, no quadro constitucional que nos rege. Deixou também no ar a extraordinária e quase humorística interrogação, a qual presumo ser formulada retoricamente: "em que situação se encontraria o país sem a ação intensa e ponderada, muitas vezes discreta [!], que desenvolvi ao longo do meu mandato? (...) O que teria acontecido sem os alertas que lancei?"
Ainda discursivamente emparelhado, não pude deixar de me lembrar das queixas de Mário Soares presidente da República, quando o Governo era chefiado maioritariamente por Cavaco Silva. Afirmava então Soares que quando lhe fechavam uma porta, saltava pela janela. Tudo a propósito da sua pouca utilização pelo Governo enquanto chefe de Estado, principalmente quando o assubto era política externa. Pois agora é a vez de Cavaco Silva dizer o mesmo, embora num registo tradicionalmente mais dubitativo e frívolo: "sei que podia ter sido mais bem aproveitada [a sua magistratura] pelos diferentes poderes do Estado".
O povo é, pois, soberano. Escolherá, decerto, o presidente de todos os portugueses. O que nos espera, pelo menos nos próxinmos meses, não é a crise. É simples e desgraçadamete a emoção duma campanha eleitoral. Tudo terminará em Janeiro e Cavaco entrará, de novo, num singular estado de graça.
domingo, outubro 31, 2010
quarta-feira, outubro 27, 2010
mau sinal para os mercados
Rompe-se o diálogo sobre a aprovação do Orçamento de Estado para 2011 e logo surgem, catastroficamente, as primeiras reações. "É um mau sinal para os mercados", afirmam, pressurosos, vários agentes políticos. Começa a encher esta gente.
os visionários economistas
A candidatura de Cavaco Silva foi um estranho exercício de autopanegírico. Na verdade, o atual presidente da República não é capaz de sair do mesmo. Doutor em finanças, rígido na postura e encravado na verve, Cavaco construiu, na torre de marfim da presidência, aquilo que melhor se adapta à sua imagem de marca: o afastamento dos enredos político-partidários e um capital de confiança que, não sendo nunca posto à prova, também não corre o risco de se desgastar. Voltamos, pois, à atmosfera eleitoral de há cinco anos: votem em mim porque o que aí vem exige um homem das finanças. Acontece que é preciso muito mais do que isso para se entender o mundo em que vivemos.
terça-feira, outubro 26, 2010
salários dos magistrados
Isto das crises acaba muitas vezes por trazer ao lume da fogueira da massa comunicacional curiosidades de variadíssima ordem como, por exemplo, o que hoje saiu a respeito da soldada dos juízes em fim de carreira. É certo que já estão em fim de carreira. Mas ficarmos à frente de países como a Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Áustria relativamente ao rácio com os salários médios brutos nacionais é sintomático da sociedade que temos, ou melhor, da que não fomos capazes de construir no rescaldo da revolução de abril ocorrida no último quartel do século passado.
Do mesmo modo, a revista Sábado dá também conta dos gastos absolutamente sumptuosos do gabinete de José Sócrates. Para que raio quer o homem tantos motoristas, tantas secretárias, tantos carros, tanto tudo? Batemos muita gente nestes particulares. Zapatero, por exemplo, ganha substancialmente menos do que o "su homólogo portugués". Nada que não saibamos desde há muito. Só é pena que estas contas não possam ser feitas quando se fala em classes médias ou ordenados mínimos. Aí os rácios cantam de outra maneira.
Do mesmo modo, a revista Sábado dá também conta dos gastos absolutamente sumptuosos do gabinete de José Sócrates. Para que raio quer o homem tantos motoristas, tantas secretárias, tantos carros, tanto tudo? Batemos muita gente nestes particulares. Zapatero, por exemplo, ganha substancialmente menos do que o "su homólogo portugués". Nada que não saibamos desde há muito. Só é pena que estas contas não possam ser feitas quando se fala em classes médias ou ordenados mínimos. Aí os rácios cantam de outra maneira.
domingo, outubro 24, 2010
o culto das personalidades e o expresso
Custa-me muito entender certa prosa beata do semanário Expresso em torno de certos políticos. Há cerca de um ano e meio, deparei-me com uma reportagem alongada sobre Sócrates, numa vil tentativa de criação extemporânea de um culto de personalidade socratina. Este sábado, coube a vez de Cavaco Silva, numa suposta entrevista de quinze dias. A repórter parece que acompanhou o Presidente nos corredores do palácio de Belém - certos corredores, pois noutros não teve permissão para pôr lá os pés, como várias vezes sublinhou, pretensamente afetada, a jornalista -, e fez disso uma grande entrevista. Grande em extensão, obviamente, porque o adjetivo fica muito aquém se remetermos este exercício jornalístico para a vertente qualitativa. Poderia citar aqui muitos exemplos, desde o rigor cavaquista até ao acompanhamento de sua mulher, Maria. Mas não me apetece voltar àquilo.
sábado, outubro 23, 2010
ongoing, comissão de inquérito e um certo deputado
Há oito meses, Agostinho Branquinho era um relator proeminente da Comissão de Inquérito Parlamentar designado pelo PSD, a qual procurava perscrutar a influência do Governo na tentativa de compra de parte da TVI pela Ongoing. Hoje, Agostinho Branquinho é já um ex-deputado porque foi convidado para um também proeminente emprego na Ongoing Brasil. Obviamente que o venerável ex-deputado foi célere a asseverar que esta sua transição para o universo empresarial não poderia ter sido mais límpida e transparente. É evidente que não... Chama-se a isto bloco central de interesses e não é nada de que não estejamos habituados. Tudo na perfeita legalidade e transparência.
E é esta a (des)moral da história.
E é esta a (des)moral da história.
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quinta-feira, outubro 21, 2010
isabel alçada e os assuntos de mercearia (2)
Isabel Alçada ficou conhecida como coautora de livros infantis, numa séria decalcada dos romances juvenis de Enid Blyton. Foi depois convidada para ocupar a liderança de uma coisa chamada Plano Nacional de Leitura, que mais não é do que uma lista de títulos que as escolas absorvem com a indicação “para pôr os meninos a ler”. Chegou, assim, a ministra da educação. Diferente na postura (bem mais sorridente e simpática) da sua antecessora (um desastre, outro), depressa ganhou a afeição da comunicação social e também alguma anuência dos sindicatos.
Foi neste pressuposto de mudança que prometeu, em janeiro, a vinculação de professores contratados há mais de dez anos. Esta semana, porém, salientou que só acordará "naquilo que não colidir com o Orçamento do Estado" e que, por isso, inviabilizará essa promessa, tratando estes professores como mera mercadoria (como se de uma auto-estrada se tratasse, por exemplo).
Ora quem assim funciona não merece ocupar certos lugares. Isabel Alçada provou que não tem capacidade política para negociar no interior do Executivo. Por isso, o mínimo que devia fazer era pedir a demissão ao primeiro-ministro (ou ao ministro das finanças). Decididamente, a cabecinha desta gente carece de democracia.
Foi neste pressuposto de mudança que prometeu, em janeiro, a vinculação de professores contratados há mais de dez anos. Esta semana, porém, salientou que só acordará "naquilo que não colidir com o Orçamento do Estado" e que, por isso, inviabilizará essa promessa, tratando estes professores como mera mercadoria (como se de uma auto-estrada se tratasse, por exemplo).
Ora quem assim funciona não merece ocupar certos lugares. Isabel Alçada provou que não tem capacidade política para negociar no interior do Executivo. Por isso, o mínimo que devia fazer era pedir a demissão ao primeiro-ministro (ou ao ministro das finanças). Decididamente, a cabecinha desta gente carece de democracia.
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