quarta-feira, outubro 27, 2010

os visionários economistas

A candidatura de Cavaco Silva foi um estranho exercício de autopanegírico. Na verdade, o atual presidente da República não é capaz de sair do mesmo. Doutor em finanças, rígido na postura e encravado na verve, Cavaco construiu, na torre de marfim da presidência, aquilo que melhor se adapta à sua imagem de marca: o afastamento dos enredos político-partidários e um capital de confiança que, não sendo nunca posto à prova, também não corre o risco de se desgastar. Voltamos, pois, à atmosfera eleitoral de há cinco anos: votem em mim porque o que aí vem exige um homem das finanças. Acontece que é preciso muito mais do que isso para se entender o mundo em que vivemos.

terça-feira, outubro 26, 2010

salários dos magistrados

Isto das crises acaba muitas vezes por trazer ao lume da fogueira da massa comunicacional curiosidades de variadíssima ordem como, por exemplo, o que hoje saiu a respeito da soldada dos juízes em fim de carreira. É certo que já estão em fim de carreira. Mas ficarmos à frente de países como a Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Áustria relativamente ao rácio com os salários médios brutos nacionais é sintomático da sociedade que temos, ou melhor, da que não fomos capazes de construir no rescaldo da revolução de abril ocorrida no último quartel do século passado.
Do mesmo modo, a revista Sábado dá também conta dos gastos absolutamente sumptuosos do gabinete de José Sócrates. Para que raio quer o homem tantos motoristas, tantas secretárias, tantos carros, tanto tudo? Batemos muita gente nestes particulares. Zapatero, por exemplo, ganha substancialmente menos do que o "su homólogo portugués". Nada que não saibamos desde há muito. Só é pena que estas contas não possam ser feitas quando se fala em classes médias ou ordenados mínimos. Aí os rácios cantam de outra maneira.

domingo, outubro 24, 2010

o culto das personalidades e o expresso

Custa-me muito entender certa prosa beata do semanário Expresso em torno de certos políticos. Há cerca de um ano e meio, deparei-me com uma reportagem alongada sobre Sócrates, numa vil tentativa de criação extemporânea de um culto de personalidade socratina. Este sábado, coube a vez de Cavaco Silva, numa suposta entrevista de quinze dias. A repórter parece que acompanhou o Presidente nos corredores do palácio de Belém - certos corredores, pois noutros não teve permissão para pôr lá os pés, como várias vezes sublinhou, pretensamente afetada, a jornalista -, e fez disso uma grande entrevista. Grande em extensão, obviamente, porque o adjetivo fica muito aquém se remetermos este exercício jornalístico para a vertente qualitativa. Poderia citar aqui muitos exemplos, desde o rigor cavaquista até ao acompanhamento de sua mulher, Maria. Mas não me apetece voltar àquilo.

sábado, outubro 23, 2010

ongoing, comissão de inquérito e um certo deputado

Há oito meses, Agostinho Branquinho era um relator proeminente da Comissão de Inquérito Parlamentar designado pelo PSD, a qual procurava perscrutar a influência do Governo na tentativa de compra de parte da TVI pela Ongoing. Hoje, Agostinho Branquinho é já um ex-deputado porque foi convidado para um também proeminente emprego na Ongoing Brasil. Obviamente que o venerável ex-deputado foi célere a asseverar que esta sua transição para o universo empresarial não poderia ter sido mais límpida e transparente. É evidente que não... Chama-se a isto bloco central de interesses e não é nada de que não estejamos habituados. Tudo na perfeita legalidade e transparência.
E é esta a (des)moral da história.

quinta-feira, outubro 21, 2010

isabel alçada e os assuntos de mercearia (2)

Isabel Alçada ficou conhecida como coautora de livros infantis, numa séria decalcada dos romances juvenis de Enid Blyton. Foi depois convidada para ocupar a liderança de uma coisa chamada Plano Nacional de Leitura, que mais não é do que uma lista de títulos que as escolas absorvem com a indicação “para pôr os meninos a ler”. Chegou, assim, a ministra da educação. Diferente na postura (bem mais sorridente e simpática) da sua antecessora (um desastre, outro), depressa ganhou a afeição da comunicação social e também alguma anuência dos sindicatos.
Foi neste pressuposto de mudança que prometeu, em janeiro, a vinculação de professores contratados há mais de dez anos. Esta semana, porém, salientou que só acordará "naquilo que não colidir com o Orçamento do Estado" e que, por isso, inviabilizará essa promessa, tratando estes professores como mera mercadoria (como se de uma auto-estrada se tratasse, por exemplo).
Ora quem assim funciona não merece ocupar certos lugares. Isabel Alçada provou que não tem capacidade política para negociar no interior do Executivo. Por isso, o mínimo que devia fazer era pedir a demissão ao primeiro-ministro (ou ao ministro das finanças). Decididamente, a cabecinha desta gente carece de democracia.

como se ajuda a processar o homem providencial

Já aqui foi motivo de reflexão o nosso pendor sebastianino. Com o desenvolvimento da série Orçamento 2011 notamos que a personagem herói/vilão, duplamente agente da ação (criador e salvador da coisa causada) se tem vindo paulatinamente a desenvolver na nossa praça pública, singularmente impulsionado por pessoas (figurantes ou até mesmo personagens muito secundárias mas que costumam ter uma voz proeminente no burgo) aparentemente desconvitas. Hoje, por exemplo, li que o presidente da Unicer, António Pires de Lima, ex-dirigente do CDS-PP, acha que "o mais lógico para um partido da oposição é declarar a viabilização do Orçamento sem entrar numa negociação específica, que pode servir de pretexto para o Governo abandonar funções".
Confesso que me a custa entender este tipo de argumentos. Não vejo onde estará o problema com a demissão deste executivo.

quarta-feira, outubro 20, 2010

são seis os pressupostos

O que me parece é que por estes seis apêndices condicionais não seria necessário tanto barulho. Ainda para mais se tivermos em conta que metade deles são de uma anedotice política de bradar aos céus. Imagino o trabalhão que o grupo de conselheiros políticos (os experts da coisa) de Pedro Passos Coelho tiveram para inventar tão pressurosos pressupostos como a verdade nas contas orçamentais (!), a agência independente para as contas públicas (com o acordante Banco de Portugal, o qual, pelos vistos, não tem capacidade para fiscalizar as contas públicas) e a suspensão das grandes obras (não estavam já equilibradamente suspensivas?). Um verdadeiro grau zero político.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...