Aprova-se; não se aprova?... Dá-se mais uma volta e retornamos a esta bifurcação retórica. A maioria corre atrás do politicamente correto: pois com certeza que sim que se deve aprovar o Orçamento de Estado; o país não pode viver de duodécimos; que pensará de nós aquela gente de Bruxelas; entramos numa crise política; o Presidente não pode fazer nada, visto que se encontra numa espécie de coartação constitucional; e por aí fora.
Custa-me este letargo. Custa-me que os responsáveis primeiros por esta situação ainda se arroguem numa espécie de somos nós a salvação (a teoria do caos do tempo de Cavaco ministro deu frutos e ainda pesponta). A equação é, pois, simples. Pelo menos deveria sê-la, se tivéssemos clarividência e desassombramentos.
O último Governo de Sócrates, com uma confortável e prometedora maioria parlamentar, não foi capaz de nos tornar melhores e mais prósperos, enquanto país. Falhou, por isso. Ao invés, preferiu maquilhar todos os percalços e conjeturas de crise. O resultado é o que se vê.
O Governo moldou-se a José Sócrates. Este sempre soube, todavia, uma coisa importante: é imperioso a construção de uma imagem de homem providencial. Tivemo-los na nossa história recente: desde os mitos da República à imagem de Sidónio Pais enquanto presidente-rei, passando, obviamente, por Salazar e desaguando em Cavaco. Todos foram salvadores, verdadeiros impulsionadores da nossa úlcera sebastianina. O atual primeiro-ministro alicerçou tentacularmente esta imagem, rodeando-se de homens decerto academicamente resolutos, mas fracos na alma. Basta olhar para eles. O que vemos em Santos Silva, por exemplo, para além de um espécie de ateador de fogos parlamentares? E no Silva Pereira, uma espécie de pajem travestido de braço direito? E os Laurentinos? E os Albertos Martins? E o próprio Teixeira dos Santos (todos os ministros das finanças são considerados os que encaram a coisa, a res publica, de forma mais gravemente comprometedora)? E as senhoras da Educação? O que tem esta gente para mostrar ao país? Nada. Não têm nada, absolutamente nada. Esgotaram já o nada que eventualmente possuíam. Ainda assim, José Sócrates conseguiu o feito de secar o que poderia ainda florescer à sua volta.
O que importa, agora, é protegê-lo. Afinal, ainda poderemos vir a precisar dele, numa insignificante manhã de nevoeiro.
sábado, outubro 09, 2010
quinta-feira, outubro 07, 2010
as compras da anacom e a resposta à mexia
A ANACOM foi às compras para comemorar o seu aniversário. Como não se comemoram duas décadas de existência todos os dias (na verdade, só uma vez na vida, tal como os 21 ou 22 anos), os responsáveis pela entidade reguladora das comunicações postais e comunicações eletrónicas andaram por aí, loucos, a alugar tendas, a estufar bancos de viaturas em pele bancos de viaturas (parece que isto foi no natal, numa festita que custou 30 mil euros), a exibir vídeos humorísticos, a encomendar penduricalhos, entre outras utilidades inseparáveis daquilo que se pretende com a passagem do décimo nono para o vigésimo ano de vida. Questionada pelos jornalistas, a ANACOM ou um dos seus representantes mais eruditos,desenhou uma resposta à Mexia, afirmando que apenas atua na legalidade e que faz compras transparentes de acordo com o código das compras públicas a distribuir.
António Sérgio afirmava em 1916 que o mal do país reside mais nas elites do que propriamente na (in)capacidade da nação. Não sei se esta gente que assim responde numa altura destas é elite. O que sei é que deveria simplesmente estar calado. E desocupar o lugar.
António Sérgio afirmava em 1916 que o mal do país reside mais nas elites do que propriamente na (in)capacidade da nação. Não sei se esta gente que assim responde numa altura destas é elite. O que sei é que deveria simplesmente estar calado. E desocupar o lugar.
alemanha: o contraste
A locomotiva económica da Europa anda em contraciclo. O próprio ministro da economia alemão, Rainer Bruederle, defende um aumento substancial dos salários. Portugal afastar-se-á, em 2011, deste paradigma. Seremos cada vez mais uma jangada de pedra.
quarta-feira, outubro 06, 2010
previsões fmi
As previsões do FMI para 2010 são tenebrosas. Espera-nos uma recessão, com uma queda do produto interno bruto e um aumento do desemprego, este na ordem dos 12%. Isto é, atenua-se as finanças e agrava-se a economia. Ora como é na economia que as pessoas se inserem, fácil é entender que estaremos, no próximo ano, a viver pior, cada vez pior.
Entretanto, o PSD critica o orçamento e o Presidente Cavaco Silva aspira a eternos e pouco saudáveis consensos. Em tempos de firmações comemorativas revolucionárias, será este o tempo de novos voos. Tenho mágoa em verificar que Portugal não possui ninguém no ativo capaz de rasgar lucidamente uma realidade cada vez mais enlodada.
No nosso descalabro paulatino, temos metido todos na cabeça que somos pequenos, dez milhões, etc. Essa atitude é, desde logo, um sinal de fraqueza da nossa parte, um sinal de irremitente desgraça.
Entretanto, o PSD critica o orçamento e o Presidente Cavaco Silva aspira a eternos e pouco saudáveis consensos. Em tempos de firmações comemorativas revolucionárias, será este o tempo de novos voos. Tenho mágoa em verificar que Portugal não possui ninguém no ativo capaz de rasgar lucidamente uma realidade cada vez mais enlodada.
No nosso descalabro paulatino, temos metido todos na cabeça que somos pequenos, dez milhões, etc. Essa atitude é, desde logo, um sinal de fraqueza da nossa parte, um sinal de irremitente desgraça.
futebol português
Vi posteriormente um comentador futebolístico abandonar um programa em direto. Julgo saber a razão: insurgia-se contra o colega comentador do lado (afeto ao Benfica) por este ter, mais uma vez, avocado o caso das escutas e do apito dourado, agora com supostas novas conversas gravadas que estão, novamente, no espaço voyeur da internet. Teve razão Rui Moreira, o tal comentador futebolístico que não é só comentador futebolístico.
O povo desportivo futeboleiro gosta disto: casos vezes casos. Basta olharmos para os ditos programas do género que abundam nas televisões portuguesas, com com caros convidados, e rapidamente verificamos que continuam a alimentar o grunhido da sociedade portuguesa.
O povo desportivo futeboleiro gosta disto: casos vezes casos. Basta olharmos para os ditos programas do género que abundam nas televisões portuguesas, com com caros convidados, e rapidamente verificamos que continuam a alimentar o grunhido da sociedade portuguesa.
terça-feira, outubro 05, 2010
república: as comemorações
Segui as comemorações do centésimo aniversário da República e estou em crer que não havia razão plausível que justificasse a presença de Sócrates enquanto conferencista de serviço. Cavaco Silva, enquanto chefe de Estado, era o suficiente para representar a República. Ainda para mais quando sabemos de antemão o que sai da cabecinha do primeiro-ministro quando se apanha a jeito nestas ocasiões assim tão solenemente televisivas. E o próprio Costa, com aquele discurso de não-sei-de-quê, também se dispensava.
domingo, outubro 03, 2010
pacotes
Numa tonitruante e assustadora espiral de descontrole político, José Sócrates desdobra-se em entrevistas televisivas quando se deveria antes preocupar, por exemplo, em debater seriamente os problemas da atual crise política (existe uma crise política, não usurpem esta realidade, senhores comentadores políticos). Aliás, uma sociedade que aceita como natural este tipo de comunicação propagandística, não vive, de todo, uma existência saudável. Sócrates tem-se revelado igual a ele próprio: compulsivo. Ele parte do princípio que uma verdade será mais verdadeira quanto as vezes que for propagandeada, isto é, vulgarizada.
O que ouvimos nestes últimos dias ao primeiro-ministro foi, no mínimo, desconcertante. Portugal, afinal, plantava-se como um país exequível, no caminho quase eterno da salvação. Na verdade, segundo Sócrates, tudo rolava: desde as receitas, que estavam "dentro do padrão de segurança" para 2010, passando pela extraordinária previsão de crescimento, a qual foi mesmo superada para o dobro (de 0,7% para 1% no final do ano). Pelo meio, ainda garantiu (a ele é que ninguém o cala!...) a oportunidade de proclamar o ritual vocabular da confiança: "a questão principal é de confiança. O que o país precisa são palavras de confiança", afiançava José Sócrates em resposta ao deputado Miguel Macedo na Assembleia da República, aquando do último debate quinzenal. De facto, num país de tolos, isto bastaria para a exequibilidade de um Governo, de um qualquer Governo. Acontece que Sócrates divulga essa sua crença desde sempre, principalmente desde que iniciou a saga dos PEC's. Os dislates foram já tantos desde esse tempo já tão inacessivelmente memoriável que teríamos de ter muita paciência para os determinar com equidade. De pacote em pacote, de preferência enrolando o aparentemente incauto Passos Coelho - obrigando-o mesmo a um inacreditável pedido de desculpas públicas escassos dia após ter sido eleito líder do seu partido - José Sócrates (escrevi por engano trocas-te, o José do Contrainformação...) tem levado a sua carta a Garcia.
Cavaco Silva, o presidente que percebe de finanças, principalmente quando este autopanegírico se revela muito útil em campanhas eleitorais (vamos ver se dentro de uns meses continua com este tipo de vestidura), tem sido, durante estes meses de PEC's, um mero espetador, seguramente atento. Por isso não entendo como é que o Presidente da República fez orelhas moucas à sua ex-ministra das finanças, Manuela Ferreira Leite, quando esta liderava o PSD, e se preocupa agora tanto com a suposta estabilidade governativa, condicionando - e muito - qualquer voto negativo ao Orçamento de Estado por parte do maior partido da oposição. Que eu saiba, a demissão de Sócrates (Cavaco não a pode, constitucionalmente, encetar e suspira, por isso, de alívio) não proclamaria um país em estado de sítio, nem de desgoverno permanente. Ao sugerir isso, o que se faz não é mais do que a entoação de exageradíssimas e imerecidas loas a José Sócrates na estratégica construção fictícia do homem certo no lugar certo. Por conseguinte, o nim parlamentar que tantos esperam por parte do PSD não é, para mim, tão certo quanto aparenta. Com efeito, não se pode discordar tanto e outorgar simultaneamente.
Num momento destes, são precisos verdadeiros políticos, daqueles que conseguem vislumbrar um país para além de dois ou três meses. Infelizmente, parece que estes são espécimes em vias de extinção. Os que por aí pairam, assemelham-se mais a encaminhamentos tentaculares em prol do deus-mercado do que a homens e mulheres com verdadeiro sentido republicano.
O que ouvimos nestes últimos dias ao primeiro-ministro foi, no mínimo, desconcertante. Portugal, afinal, plantava-se como um país exequível, no caminho quase eterno da salvação. Na verdade, segundo Sócrates, tudo rolava: desde as receitas, que estavam "dentro do padrão de segurança" para 2010, passando pela extraordinária previsão de crescimento, a qual foi mesmo superada para o dobro (de 0,7% para 1% no final do ano). Pelo meio, ainda garantiu (a ele é que ninguém o cala!...) a oportunidade de proclamar o ritual vocabular da confiança: "a questão principal é de confiança. O que o país precisa são palavras de confiança", afiançava José Sócrates em resposta ao deputado Miguel Macedo na Assembleia da República, aquando do último debate quinzenal. De facto, num país de tolos, isto bastaria para a exequibilidade de um Governo, de um qualquer Governo. Acontece que Sócrates divulga essa sua crença desde sempre, principalmente desde que iniciou a saga dos PEC's. Os dislates foram já tantos desde esse tempo já tão inacessivelmente memoriável que teríamos de ter muita paciência para os determinar com equidade. De pacote em pacote, de preferência enrolando o aparentemente incauto Passos Coelho - obrigando-o mesmo a um inacreditável pedido de desculpas públicas escassos dia após ter sido eleito líder do seu partido - José Sócrates (escrevi por engano trocas-te, o José do Contrainformação...) tem levado a sua carta a Garcia.
Cavaco Silva, o presidente que percebe de finanças, principalmente quando este autopanegírico se revela muito útil em campanhas eleitorais (vamos ver se dentro de uns meses continua com este tipo de vestidura), tem sido, durante estes meses de PEC's, um mero espetador, seguramente atento. Por isso não entendo como é que o Presidente da República fez orelhas moucas à sua ex-ministra das finanças, Manuela Ferreira Leite, quando esta liderava o PSD, e se preocupa agora tanto com a suposta estabilidade governativa, condicionando - e muito - qualquer voto negativo ao Orçamento de Estado por parte do maior partido da oposição. Que eu saiba, a demissão de Sócrates (Cavaco não a pode, constitucionalmente, encetar e suspira, por isso, de alívio) não proclamaria um país em estado de sítio, nem de desgoverno permanente. Ao sugerir isso, o que se faz não é mais do que a entoação de exageradíssimas e imerecidas loas a José Sócrates na estratégica construção fictícia do homem certo no lugar certo. Por conseguinte, o nim parlamentar que tantos esperam por parte do PSD não é, para mim, tão certo quanto aparenta. Com efeito, não se pode discordar tanto e outorgar simultaneamente.
Num momento destes, são precisos verdadeiros políticos, daqueles que conseguem vislumbrar um país para além de dois ou três meses. Infelizmente, parece que estes são espécimes em vias de extinção. Os que por aí pairam, assemelham-se mais a encaminhamentos tentaculares em prol do deus-mercado do que a homens e mulheres com verdadeiro sentido republicano.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
