quarta-feira, agosto 11, 2010

a linguagem e o contexto

Há momentos, no telejornal da SIC, uma novel jornalista que cobria em direto um insistente incêndio em Sabugal, ela própria rodeada de labaredas por tudo quanto era lado, reportava o flagelo da seguinte forma: "o vento está a ajudar à festa". Lembrei-me de repente de Laurentino Dias e do caso Carlos Queiroz. Retomando os argumentos de Pinto da Costa: será que alguém ficou ofendido pelo registo pseudofestivaleiro da jornalista televisiva?...

o caso carlos queiroz

Pinto da Costa clarificou a coisa: ridículo. E tem razão. Todos sabemos que o que se está a passar com o atual selecionador nacional de futebol se encontra relacionado com os maus resultados obtidos no campeonato do mundo. Tivessem sido outros e não havia Laurentino Dias a esboçar receitas de maior ou menor gravidade dos "fatos ocorridos". E também sabemos que o contrato que liga Queiroz à Federação é, do mesmo modo, ridículo (os montantes e a duração). Assim, amanhou-se isto, à falta de melhor. Mas esta gente não contava com a reação do ex-adjunto de Alex Ferguson no Manchester United.
Lembro-me de que há tempos, era então António Oliveira o treinador, houve também uma situação de um certo pundonor exacerbado por parte de alguma imprensa, quando se descortinou, nos lábios do selecionador, no momento em que este esboçava as últimas diretrizes táticas ao jogador Dominguez (que se preparava para entrar em campo) qualquer coisa do género: "mostra a estes nazis como se joga" ou "vamos dar cabo destes nazis" (era a Áustria o adversário). Como Oliveira já havia caído em desgraça na imprensa desportiva, o episódio assemelha-se, nestes princípios, a este do Carlos Queiroz. Não sei se na altura o desbocado Laurentino Dias tutelava a área...

terça-feira, agosto 10, 2010

os incêndios e as pessoas

Gostam de ter umas arvorezinhas bem perto da vivenda. Não ouvem quando são chamados atenção para o perigo que pode advir desse fetiche. Depois, quando veem as labaredas lamber as paredes do castelo, apontam os queixumes para as câmaras de televisão, as quais, por esta altura do ano, alicerçam-se sobretudo nos disparates. O que mais me preocupa, no meio de tudo isto, é verificar que muitas destas pessoas que se organizam mentalmente desta forma são já o fruto da nova escola, isto é, foram inundados, na sua escolarização, com disciplinas como - repare-se - formação cívica, área de projeto e outras tais. A refletir...

a culpa

É já tempo dos partidos tradicionalmente oposicionistas não sacudirem a água do capote quando abordam as várias incongruências do país. Por exemplo, justiça: a culpa é do PS e do PSD que estiveram com a respetiva pasta durante estes trinta e tal anos de regime democrático. Acontece que há uma instituição chamada Parlamento, outra Presidência da República e ainda uma outra (oculta, mas porventura a maior de todas) denominada sociedade civil, a qual - essa sim - tem a responsabilidade maior através do voto democrático e sistemático. Daí que convém perspetivarmos todos nós uma tendência de cariz mais autocrítico sem, no entanto, deixar de relevar a responsabilidade de quem se julga (mal, deficiente) iluminado. Por norma, não simpatizo nem costumo votar em homens providentes. Dão sempre mau resultado. Para providenciais, bastaram Cavaco e Sócrates e os selecionadores de futebol.

sábado, agosto 07, 2010

o ex-presidente

Jorge Sampaio vem hoje ao Expresso refletir sobre as capacidades ou poderes ou grau de intervenção de um Presidente da República, tendo em conta a especificidade do sistema semipresidencialista português. Entre o sentido constitucional que advoga fundamentalmente o cumprimento (e o fazer cumprir) da Constituição enquanto garante do Estado de Direito em Portugal, Sampaio lá foi desabrochando um ou dois tópicos representativos da sua visão do mais alto cargo institucional (e político) do país.
Um deles diz respeito ao inexorável elo de ligação entre o Presidente e o povo. De fato, o cargo de Presidente da República é unipessoal, longe das querelas e campanhas partidárias. Daí que me custe compreender o fervor dos partidos políticos nas campanhas eleitorais para a Presidência da República. Não faz, a meu ver, sentido que um candidato sem programa de governo (não o pode, efetivamente, esgrimir por que não faz parte do seu desenho político) tenha (rogada, muitas vezes) a seu lado a "partidarite" aguda que acompanha invariavelmente uma eleição legislativa.
Nessa ligação umbilical com o povo há que percecionar os indícios que dele se soltam. Daí que muitas vezes o cariz humanista dum presidente se revele uma vantagem acrescida na aferição de uma certa mensagem algumas vezes mal aconselhada. Sampaio escreve mesmo, e com pertinência, que "esta permanente proximidade do Presidente com o país e os cidadãos é preciosa na hora em que, por exemplo, um diploma chega a Belém e lhe cabe decidir se o promulga, veta ou envia para apreciação preventiva para o Tribunal Constitucional". Parece-me evidente que assim seja. Não fora essa "proximidade" e bastaria o Tribunal Constitucional para esgrimir (e arbitrar) algumas quezílias próprias desta repartição de poderes, advindas com a revisão de 1982.
Acontece que no momento porventura mais problemático do seu mandato, Jorge Sampaio não foi de todo capaz de fazer a tal leitura dos indícios populares. Refiro-me, obviamente, à chantagem (parece-me que o termo, não é, pelo que atualmente se sabe, excessivo), iniciada pelo então primeiro-ministro Durão Barroso, sobre a imperiosa necessidade de Santana Lopes ser orientado para a sua substituição enquanto responsável máximo governativo, pois o país não poderia perder a luminosidade que resultaria da sua ida para Bruxelas. Jorge Sampaio fez, na altura, depois de ouvir muita gente, o contrário do que um bom presidente faria que era exprimir o seguinte a Durão Barroso: se quiser ir vá, mas tem a minha reprovação; consequentemente, convocarei eleições antecipadas. O povo seria então, mais uma vez, levado a escolher.
Parece que não, mas estas atitudes e escolhas, para além de revelarem a qualidade (Jorge Sampaio) e a probidade (Durão Barroso) das pessoas que ocupam os altos cargos institucionais, resultam também em estados amórficos, os quais podem ser iniciadores (ou exasperantes prolongamentos) de graves crises sociais.
O que estamos presentemente a viver em Portugal não é decerto resultado do exíguo consulado de Santana Lopes (o qual, no meio desta história, é o menos culpado). No entanto, numa altura que o país estava "de tanga" (Durão Barroso dixit), o pior que se aceitaria num Presidente da República era a sua conivência com situações claramente pantanosas (o pântano de Guterres também não anda lá muito longe deste cenário).
Por isso, é sempre muito mais doutrinalmente edificativo usufruir da áurea que se levanta quando se é um ex-Presidente da República.

quinta-feira, agosto 05, 2010

privatização do bpn e outros ativos (não tóxicos)

A reprivatização do BPN vem aparentemente provar que a sua nacionalização (2500 milhões de euros) de há dois anos foi tão errada como precipitada. Como, aliás, se afigura igualmente demasiado célere esta proposta de mercado do executivo. A pergunta de Nuno Melo de quem fica com a dívida do banco revela-se, neste cenário, pertinente.
Por outro lado, a onda de ativos (GALP, EDP, REN...) ainda na posse do Estado tem os dias contados. E assim se combate o défice.
E assim se ganham, muitas vezes, eleições. Esta é mais uma medida do oculto Bloco Central. Passos Coelho não faria melhor. Mas ainda havemos de ver este Partido Socialista combater, na oposição, a onda demasiado liberalizante do PSD.

o ministro salamaleque

Já me havia ocorrido sobre o paradeiro do nosso ministro da justiça, teoricamente a braços com o estranhamente inconclusivo caso "Freeport". Ei-lo hoje no Telejornal da RTP1.
Alberto Martins foi, segundo rezam as crónicas, um revolucionário combativo que teve a sorte de estar um dia em Coimbra num certo plenário de estudantes, o qual resultou - granjeando ainda mais a sua fortuna - na prisão efetiva de alguns estudantes esquerdistas (comunistas, como então se simplificava), entre os quais se encontrava o simpático ministro. Viveu longos e justos anos à sombra e à luz dessa sua força juvenil, recusando, de certo modo, o envelhecimento. Mas este acontece e, por vezes, da pior maneira. Principalmente quando se sai de um assento sempre confortável de oposição (democrática) para a responsabilidade de liderar uma das pastas governamentais mais complicadas e carentes de iniciativas reformadoras.
Vendo e ouvindo Alberto Martins no cargo superior de alguém que tutela e se responsabiliza pela justiça portuguesa, é verdadeiramente confrangedor. Sobretudo porque a sua preocupação com o nada, com o vazio, com o inconcreto, com o porte, com o verbo, sobrepõe-se inexorável e definitivamente com os reais problemas que a justiça atravessa. Não existe, por parte do ministro, um rasgo, uma ideia, uma solução. Para ele, vinga, aparentemente, a máxima de que o tempo tudo resolverá. A frase que repetiu na breve entrevista: "o sr. Procurador-Geral tem a confiança institucional do governo da República". É pouco para quem quer respostas e soluções e sobretudo para quem (e são muitos e com preponderância no sistema jurídico), diariamente, não se coíbe de criticar abertamente o regime da justiça portuguesa.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...