domingo, junho 06, 2010

o desejo de sócrates

Sócrates tinha o imperioso e secreto desejo de conhecer Chico Buarque de Hollanda. A este tal coisa nunca lhe passara pela cabeça. Sócrates meteu uma cunha. Nada mais, nada menos do que o presidente Lula. Vieram depois as habituais confusões socráticas: o Chico conhecera finalmente o primeiro de Portugal. Barafustou aquele: não partira do cantor e escritor a realização do encontro. O famoso gabinete de Sócrates teve de resolver a contenda: um mero mal-entendido: foi de facto a vontade do primeiro-ministro que despoletou tudo isto. Vasco Pulido Valente escreve um artigo a criticar Sócrates, acusando-o de provincianismo e de se aproveitar do cargo que ocupa para satisfazer um capricho juvenil. É seguido por muitos analistas políticos. Com razão, digo eu. Mas têm também de apontar o dedo para as veleidades de outros estadistas. Afinal, qual o presidente ou primeiro-ministro que nunca aproveitou viagens de Estado para conhecer ou dar a conhecer à sua dama um qualquer destino turístico? Ainda recentemente, vi a nossa primeira-dama regozijar de felicidade com a demorada e quase irrealizável oferenda do marido: passar um dia inteiro em Capadócia (um velho sonho de Maria Cavaco Silva). É que a visita de Estado à Turquia ficava mesmo ali ao lado...

a seleção

Voltemos à seleção de quase todos nós. Parece-me a mim, neste meu acesso modesto de patriotismo, muito difícil ficar indiferente a toda a movimentação dos emigrantes portugueses em África do Sul em torno da seleção. É, no fundo, uma a ausência forçada da terra que eles podem, naquele momento, reclamar. Mais do que o fenómeno futebolístico, aquelas pessoas querem sentir o calor do que deixaram para trás, muitos há trinta e mais anos (o que torna esta posição de carinho muito mais relevante).
Daí que nos coloquemos na cabeça dos jogadores brasileiros que jogam na equipa de Portugal. Entenderão eles isso, o entranhado cultural subjacente a este fenómeno migratório tipicamente português? Não. Obviamente que não. Basta vê-los a trautear o hino. Pergunta que me imponho fazer, que estará decerto, neste momento, a trabucar a cabecinha de muitos leitores: e os outros, os indígenas? Sentirão eles isso? Neste sentido, retive uma resposta do nosso jogador mais carismático a uma pergunta estúpida (são incontáveis) de um jornalista sobre se (ele) prometia alguma coisa aos adeptos (o título, vitórias...). Respondeu então o madeirense: "se eu não prometo à minha família, vou agora prometer aos outros...". Aos outros!... Lembrei-me dos emigrantes, dos outros... Os outros, para aqueles luso-sul-africanos, somos nós. E é este nós que faz toda a diferença. Para esta casta de jogadores, habituados a mundos e fundos, não há - porque não entendem - o nós. O nós é aquele contrato de milhões. Portugal é uma vaga ideia.

sábado, junho 05, 2010

a passagem do 8º para o 10º ano

Não me parece que esta medida do Ministério da Educação, a qual possibilita que alunos com mais de quinze anos e que ainda não tenham completado o 8º ano de escolaridade possam transitar diretamente para o 10º ano se obtiverem avaliação positiva nos exames nacionais (mediante a respetiva proposta e autorização dos encarregados de educação), seja mais do que uma colateralidade pedagógica. Por isso, o natural reboliço político e, diga-se desde já, de alguns pedagogos e aspirantes a sê-lo, não é mais do que um mero registo lógico (protesto, logo existo).
A medida é correta porque abrange uma faixa etária muito particular, em que as mudanças são por demais evidentes a todos os níveis constitutivos das personalidades dos rapazes e raparigas. Para além disso, quem atingir, no âmbito dos exames nacionais do 9º ano, níveis positivos, mesmo que tenha atrás de si uma história de retenção (ou retenções), merece a inexorável possibilidade de continuar o seu futuro, matriculando-se no ensino secundário.

é assim que começam

Afinal, as juventudes partidárias sempre servem para isto: catapultar incógnitos políticos para a esfera pública. Então quando estes precoces seres têm uma mãozinha dum sénior, a coisa corre, de facto, sobre rodas. Manuel Alegre, o candidato, ajudou a promover um pouquinho mais Duarte Cordeiro, líder da Juventude Socialista, ao convidá-lo para dirigir a sua campanha nacional. Diz então Cordeiro que, para além de não ter hesitado, acha mesmo que é um convite naturalíssimo, pois tem o poeta a expectativa de ser ele (o Cordeiro) uma "via facilitadora para um contacto com as estruturas socialistas e com as gerações mais novas". Empolgado, não se deixa ficar: "conheço bem os dirigentes distritais e os presidentes de câmara. E tenho uma boa relação com o Bloco". A minha dúvida é tão-somente saber se os presidentes de câmara conhecem Cordeiro. Para além disso, esta escola socrática-de-trazer-por-casa não me parece a melhor aposta para dirigir uma campanha eleitoral para as presidenciais. E sabendo que foi já este Cordeiro que esteve à frente da campanha de Soares em Lisboa (estes candidatos não resistem ao fátuo fogo desta partidarite jovem, de facto), na qual ajudou o ex-Presidente da República a ficar à frente de Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Garcia Pereira, tem Manuel Alegre, aparente e prenunciadoramente, uma tarefa algo complicada. Nada que assuste este promissor líder da JS: em resposta a uma pergunta sobre como irá conciliar apoios tão contraditórios como o BE e o PS, disse: "um dia de campanha ou um fim-de-semana de campanha são suficientemente longos para que todos possam aparecer". Pois, e os eleitores são burros, pensará o Cordeiro.

quinta-feira, junho 03, 2010

o retroactivo teixeira dos santos

Sigo a linha de pensamento de António Pina hoje no Jornal de Notícias sobre o princípio avocado por Teixeira dos Santos que tem em conta uma suposta retroactividade fiscal. Acontece que a Constituição da República preconiza o seu oposto, isto é, o princípio da não retroactividade fiscal. Mas para o nosso ministro das finanças este paradigma constitucional não é um "valor absoluto", nem se sobrepõe ao bem público. Acontece que, por princípio, qualquer Constituição é uma espécie de reorganização social imposta politicamente, onde a lei "natural" é pois substituída por normas de funcionamento reguladoras. E é este regulador que desenvolve laços referenciais duradouros. Se é certo que o texto constitucional pode e deve ser alterado de acordo com a vontade do povo (princípio no qual já se baseava a Constituição Francesa de 1793), não me parece que um ministro das finanças tenha qualquer espécie de prerrogativa que lhe permita uma reinterpretação conveniente.

adenda ao post anterior

O que um miúdo de uma aldeia de Chaves respondeu ao jornalista do Jornal de Notícias domina todo o meu argumentário a respeito do encerramento das escolas (parece que vão ser 900 até final do próximo ano lectivo). Afirma então o Gonçalo, de 7 anos, que preferia ficar na aldeia onde poderia dormir mais.

quarta-feira, junho 02, 2010

encerramento de escolas

Mais uma das extraordinárias medidas "pedagógicas" levadas a cabo por as não menos extraordinárias equipas ministeriais, as quais decidiram que as escolas com menos de 21 alunos devem, em nome da evolução escolar dos discentes, encerrar. Depois, vem a hipocrisia: melhores escolas, melhores professores (?), mais e melhores equipamentos, mais miúdos a conviver entre si. É importante que se anote este último ponto: a convivência dos alunos.
A escola é, indubitavelmente, um espaço de convivência. Todavia, deve ser encarada, sobretudo, como um espaço de aprendizagem. Aliás, existem outros espaços de convivência para além dos muros escolares, bem mais saudáveis. Só se considerarmos que a denominada convivência deve andar de mãos dadas com o espaço da aprendizagem, com igual percentagem de relevância. A meu ver, não. Os alunos devem, desde o primeiro ciclo, objectivar a escola como aquele lugar onde a brincadeira fica de fora, onde se faculta mais um salto progressivo no seu desenvolvimento humano. Nesta perspectiva, não era de todo descabida o que se passava "antigamente", com os alunos a encararem o primeiro dia de aulas do primeiro ano escolar como uma "opção" obrigatória, em que a fronteira do sonho e da realidade emergia, tenuemente, num envolvimento teimosamente indagador. Esperem, senhores das ciências da educação, esperem psicopedagogos e assistentes pedagógicos e afins, esperem... não me crucifiquem já!... Eu também sei da importância do lúdico, dos afectos, dos vídeos projectores e dos power points. Sei isso tudo. Mas também sei o que é ir para uma escola de autocarro a não sei quantos quilómetros de distância, chegar a casa de noite, com frio, após uma viagem mal amanhada.
E também sei do despovoamento da ruralidade do país. Sei que depois se fecham centros de saúde porque as pessoas que vivem numa determinada área geográfica não são suficientemente "rentáveis" para a manutenção desse mesmo espaço. Sei que só com muita abnegação é que um jovem casal decide alicerçar uma vida num lugar assim.
Sei que Portugal é um pequeno país e é, provavelmente, o que mais sofre, em toda a União Europeia, de gritantes desigualdades sociais e regionais. Sei que depois vêm articulistas famosos satirizar os habitantes de Valença, precisamente com base no escasso número de utentes do concelho, quando estes simbolicamente decidiram agradecer ao alcaide de Tui a disponibilização das urgências locais para socorrer a população.
Sei, pois, isso tudo. Mas teimamos neste Portugal com "p" pequeno, neste Portugal futuro onde, ao contrário dos versos de Ruy Belo, é cada vez mais difícil ser feliz.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...