terça-feira, março 16, 2010

os prémios dos gestores

Sem ser preciso cavalgar a vaga populista que muitas vezes caracteriza as intervenções do líder do PP, parece-me mais do que óbvio, grosseiramente claro, que a necessidade de premiar os gestores de empresas públicas é tão premente e oportuno como muitas das obras que o governo continua apostado em realizar. São estas contradições políticas que nos fazem desacreditar nos nossos homens e mulheres do regime. Devemos notar que estes senhores gestores são já cabalmente premiados com ordenados muito, mas mesmo muito acima da média. Muitos deles estão lá porque são amigos. Defendem-se na nomeação. Alvoraçam um qualquer canudo. Escondem o desajeitado currículo. A questão é, pois, séria. Tendencialmente, o único dado de crescimento efectivo no nosso país tem a ver com o número de desempregados. Destes, muitos não gostam de arvorear o canudo. Escondem-no com alguma e - sejamos francos - justificada vergonha. O que fatalmente entristece é que alguns faziam bem melhor figura do que muitos dos nossos premiados públicos.

O IP4 e a auto-estrada

Recebi uma crítica simpática de um leitor dando conta, essencialmente, da minha falta de “patriotismo transmontano” quando abordo, depreciativamente, o projecto da auto-estrada transmontana. A esse respeito, tento ser coerente. Para mim, as obras que têm dilacerado a serra do Marão são tão desnecessárias quanto o são, por exemplo, o TGV ou o aeroporto de Lisboa. Para mim, são simplesmente obras de regime, de alguém que quer ser lembrado na história, mesmo que seja como nota de rodapé, como o governo (o mandante) que construiu um dos maiores túneis do mundo e o aeroporto de Lisboa, um dos mais modernos da época. Acontece que o tempo do fontismo acabou, ou mesmo o do cavaquismo. Os tempos são, portanto, outros e a aposta passará sempre pela qualidade e não através de níveis quantitativo.

Nunca gostei do IP4. Mesmo quando, nos idos anos da sua conclusão, Cavaco esgrimia os mesmíssimos argumentos que agora Sócrates invoca a respeito da tão celebrada (alvoraçadamente celebrada) auto-estrada da justiça, mesmo nessa altura o seu traçado afigurava-se-me pouco ambicioso e perigoso. Bastaria um olhar descomprometido, tanto ao nível político-partidário como também ao nível emotivo-territorial, para entender que percorrer exasperantes quilómetros atrás dum veículo pesado em marcha necessariamente lenta não é a melhor forma de prevenir e optimizar nos condutores uma condução segura e civilizada. Todavia, importa sublinhar a simbologia da obra, ao ligar o distrito do Porto à fronteira de Quintanilha, roçando (de forma proveitosa, é certo) os concelhos de Vila Real, Mirandela e, obviamente, Bragança. E é também neste ponto que impulsiono parte da minha perspectiva crítica.

De facto, o IP4 não ligou Trás-os-Montes ao litoral. Quando muito, houve um enleamento destes concelhos a um conceito desastrado de desenvolvimento que tem pautado o nosso país desde sempre, principalmente desde que a necessidade de ganhar eleições (o poder pelo poder) se começou a impor em prol dum crescimento verdadeiramente homogéneo. Por isso é que os autarcas destes concelhos andam agora numa onda salivante na perspectiva de ver passar uma auto-estrada à porta de casa. Como diria Jorge Sampaio, há mais Trás-os-Montes para além da auto-estrada da justiça... Diz o meu estimável leitor o seguinte, seguindo, aliás, uma espécie de mainstream político: “a província de Trás-os-Montes não possui uma única auto-estrada”. E depois? Acaso essa verdade é um premente problema para a região, tendo em conta, por exemplo, a despovoação das vilas e aldeias, o consequente encerramento de escolas e unidades de saúde, o degradado estado das cidades e vilas, o esquecimento sistemático das vias de comunicação, onde os carros circulam em estradas – estas sim – objectivamente desadequadas para os nossos tempos, a ausência cada vez mais irrevogável de comboios, o caciquismo, o compadrio, etc.? Eu vivo em Vila Real mas recuso-me a olhar para Trás-os-Montes dividido em sub-regiões no que diz respeito aos índices de desenvolvimento. Isso seria cair naquilo que é, actualmente, Portugal, isto é, um dos países vergonhosamente mais desiguais da Europa, o que, a meu ver, se expõe como a mais influente desvantagem, ao não sermos capazes de dar aquele salto qualitativo, o tal que nos permita olhar para este pequeno território sem falar em litoral ou interior como se nos estivéssemos a referir a dois países distintos. Daí que concorde com o meu conterrâneo quando invoca a necessidade de uma via rápida segura. No que discordamos é somente no seguinte: para mim, metade dos 800 milhões orçamentados para esta obra seria mais do que suficiente para alterar o perfil de segurança do IP4. Quanto aos outros 400 milhões tenho a certeza que não chegariam para impulsionar de forma efectiva o outro lado da região. O raciocínio é, pois, simples: não podemos continuar de costas voltadas para Trás-os-Montes. Então quando são os próprios transmontanos que estão na base desta desarticulação!…

terça-feira, março 09, 2010

as contingências

Por muito que nos custe – e por muito demagógico que possa parecer – as notícias que, devido às condições climáticas, dão conta de estradas cortadas, árvores caídas, casas desmoronadas, rios a transbordar, revelam, indelevelmente, muito menos a contínua e necessária discussão sobre o clima e muito mais o estado absolutamente incoerente do país. O exemplo da Madeira foi, digamos, a "prova provada" de que planificação no âmbito de uma perspectiva ecológica urbana nunca foi o nosso fio condutor. As contingências eleitorais – demagógicas a maior parte delas – e a menoridade da nossa democracia fizeram com que os políticos do nosso tempo optassem, invariavelmente, pelo foguetório em prol duma planificação naturalmente sustentada. Os exemplos abundam. O difícil é, sem dúvida, perscrutar casos de sucesso. Basta percorrermos as nossas cidades e olharmos para a pouca consideração com que os pedonais são remetidos. Os carros, aqui, são quase sempre mais importantes do que as pessoas. Ainda nas cidades, a quantidade de prédios degradados é também um sinal dos tempos. Invocam-se inúmeras razões, muitas delas pertinentes, mas entre invocações e críticas, os edifícios permanecem numa morte lenta e perigosa.
No mesmo sentido, a opção pelas auto-estradas continua a ser, nos dias de hoje, inexplicavelmente, primacial. Retomemos este tópico, já aqui abordado várias vezes. Há pouco mais de duas décadas desenhou-se e fez-se o IP4. A obra mirífica que ligaria, finalmente, o litoral ao interior. Necessária, sem dúvida. Mas não é preciso ser engenheiro de estradas para facilmente verificarmos, mesmo aos olhos da década de 90 ou 80, que, em alguns troços, as faixas de rodagem se afiguravam objectiva e definitivamente curtas, com uma só opção de percurso, quase sempre no sentido descendente. No entanto, inventou-se agora a auto-estrada da justiça, a mais proclamada obra transmontana, segundo o nosso aturdido primeiro-ministro. Não teria sido melhor havermos resolvido esta "injustiça" no seu devido tempo? E será mesmo tão imprescindível esta auto-estrada? Na minha opinião, claramente que não.
Mas o exemplo maior de todo este focus argumentativo vem, infelizmente, com a trágica situação vivida na Madeira. Por muito que nos afecte, a dimensão dos estragos do aluvião que assolou a ilha tem muito a ver com a ausência de uma planificada e coerente estruturação urbanística. Neste sentido, as responsabilidades deveriam ser assumidas. Mas o que se passou foi extraordinariamente o oposto. Alberto João Jardim, numa das primeiras declarações que lhe ouvi, afirmou logo que ia fazer um túnel, mais um. Poderíamos pensar que era um impensado e dolorido raciocínio, fruto da tragédia interior que o governante, naquele momento, vivia. No entanto, já depois da maior hipocrisia política que a democracia portuguesa presenciou, reproduzida por José Sócrates e Jardim, este, questionado sobre a reconstrução da ilha e dos eventuais pareceres negativos dos ambientalistas, depressa retomou, agora já mais reconfortado no alto do seu bilião de euros, a sua tradicional e escalavrada verve, afirmando que o "ambientalista sou eu".
Ouvi muitos e respeitados comentadores da nossa praça glorificando o Presidente Regional da Madeira a respeito da sua atitude perante o sucedido. Não discuto a valorização do sentimento de pertença territorial. O que me perturba são as respostas. As pretéritas e as futuras.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

37, 42, 50?

Parece-me absolutamente despropositada a incoerência que tem vindo a ser anunciada pelos órgãos de comunicação social relativamente aos números de mortos do aluvião que se abateu sobre a ilha da Madeira no último sábado. É evidente que os jornais, televisões se rádios não têm culpa primeira: os números são, de facto, contraditórios. No entanto, a insistência obcecada neste assunto deturpa, de certo modo, o valor essencial da notícia. Esta diz respeito, tão-somente, ao acidente. Há mortos, desaparecidos, pessoas que ficaram numa situação muito difícil, sem casa, sem trabalho. Há também todo um trabalho de reconstrução e de ajuda nacional e europeia. Importa, pois, ir por aí. O resto é hipocrisia no meio dum assunto que não devia ser delineado neste tom. Como se 37, 42 ou 50 fossem apenas números.

domingo, fevereiro 21, 2010

sinais

Vêm paulatinamente à superfície do nosso status social casos e mais casos que, na eventualidade de não resultarem judicialmente em nada, ao menos dão a conhecer um pouco da forma como se cozinham, na "alta política" (devidamente grafada por aspas), as estratégias, os compadrios, as destemperanças. O caso "Face Oculta" é, a este propósito, paradigmático.
Li uma das entrevistas dum senhor chamado Rui Pedro Soares, ex-administrador da PT, nomeado pelo Governo, através do pressuposto normativo da Golden Share do Estado nessa empresa. Obviamente que esta tão inócua existência pública do Sr. Rui Soares não passaria disso mesmo: um pássaro a migrar para os calores trópicos durante os nossos invernos descontentes. Acontece que é difícil a atenuação do deslumbramento para alguém que diz, orgulhoso, que entrou aos quinze anos para a Juventude Socialista (um problema, esta gente) e que, questionado pela sua ascensão meteórica, afirma que se está "a fugir-se a avaliação dos quatro anos em que fui administrador da PT SGPS", e também que, no reinado PSD, ente 2001 e 2004, triplicou o seu salário na PT.
Ora, é precisamente neste ponto que convém ficarmos alerta. Estas personagens - verdadeiros tipos sociais - não merecem o dinheiro que ganham. Simplesmente por que ainda não tiveram tempo de o demonstrar. Como escreve Henrique Monteiro no Expresso, um técnico superior da Função Pública no topo da carreira levaria mais de 20 anos a ganhar o mesmo que Rui Pedro Soares num ano." Deste modo, as certezas, quanto aos favores políticos, de alguém que contribuiu, modestamente (Rui Soares dixit), na eleição do primeiro-ministro, desenvolvem-se de forma inexorável. As crises podem ser benéficas, na medida em que revelam a expressão dos países e das suas gentes. Neste sentido, as catarses advindas nestes momentos mais difíceis poderão, efectivamente, ser a única salvação nacional. Daí que seja salutar sabermos que estes senhores andam, sorrateiramente, a viajar para Milão com um contrato no bolso de 350 mil euros com Luís Figo (um amigo, mais um) e ainda afirmam, deleitados, que é um número inferior ao que o ex-futebolista costuma cobrar pela imagem (um caso de sentido patriotismo, portanto). Do mesmo modo, é também interessante sabermos que as encenações de Figo com "Sócrates 2009", juntos, numa esplanada do Parque Expo, poderão ser o resultado de mais uma qualquer contratualização (é a imagem, estúpido...) laboral.
Daí que a recente candidatura de Fernando Nobre, presidente e fundador da AMI, poderá constituir, no nosso triste espectro político e social, uma lufada de ar fresco. Aparentemente, Fernando Nobre será, de forma objectiva, o candidato da cidadania, isto é, um verdadeiro candidato apartidário. Por isso, estou em crer que é de todo precipitado a contabilidade eleitoral em que já se embrenharam parte dos jornalistas e comentadores, na qual preconizam um eleitorado de esquerda dividido e a subsequente vitória de Cavaco Silva logo na primeira volta. O actual presidente da República agradece, pois, o serviço prestado por estes valorosos e intuitivos opinion makers. Só que nos devemos questionar por que razão é que Fernando Nobre dividirá apenas o eleitorado de esquerda. Acaso os valores éticos e morais que o norteiam não se enquadram com os valores sociais da igreja? Não demonstrou já ser uma personalidade que não contrapõe qualquer enquadramento partidário nas suas tomadas de posição político-sociais (a este propósito, convém notar que já objectivamente avalizou candidatos que vão da esquerda à direita parlamentar, nas diversas eleições nacionais, autárquicas e europeias)? No entanto, para os nossos jornalistas, tudo está, já, definido: Alegre, coitado, está perdido.
Pela minha parte, gostei de ler a entrevista do candidato ao Expresso, quando afirmou, peremptório, que "as pensões mínimas deveriam ser de 500 euros, e as reformas máximas de 5 mil euros" (não é populismo, como alguns já começaram, maldizentemente, a desenhar). É, de facto, um sintomático ponto de partida. Do mesmo modo, salientou que não deveriam ser as grandes obras públicas o impulsionador primeiro da saída da crise. Em sua substituição, os investimentos mais pequenos, como a requalificação urbana e a recuperação do património revelar-se-iam bem mais coerentes e proveitosos (ideia já defendida aqui algumas vezes). Na verdade, ouço sistematicamente na comunicação social a promoção do aeroporto da Portela. Na mesma óptica, as auto-estradas parecem-me mais que suficientes, ao contrário da melhoria de algumas estradas nacionais.
Por isso, a candidatura de Fernando Nobre poderá ser uma espécie de surgimento nacional. Não, obviamente, pela índole sebastianista, que não é, aliás, séria. Mas antes pela oportunidade de, talvez pela primeira vez numa campanha eleitoral para o mais alto cargo institucional da nação, ouvirmos alguém falar a língua de todos nós, seja ateu ou cristão, muçulmano ou católico, de direita ou de esquerda. Alguém em quem, verdadeiramente, os partidos não se revejam.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

o sr. feliz e e o sr. triste

Não deu tempo de introduzir no post anterior o desabafo existencial de Vítor Constâncio, em que afirma que é, simultaneamente, "um homem feliz e triste". Feliz por estar de malas aviadas para Frankfurt e triste por, imagine-se... abandonar o país. Laconizou ainda mais o seu raciocínio: partia com alguma amargura por ter sido motivado a deixar o torrão natal.
É evidente que não posso deixar de ficar também amargurado pela desventura do nosso mais recente herói nacional. Por conseguinte, proponho desde já uma petição, o mais abrangente possível, que apele à sensibilidade mais recôndita de Constâncio, para que o impeça de abandonar o país. Seria uma boa dor de cabeça para muitos, mas o que é que isso importaria estando em jogo os superiores interesses da nação?

um desígnio nacional chamado constâncio

Mais uma vitória portuguesa. Mais um desígnio nacional conquistado. Mais um chorrilho de elogios, todos eles iniciados pelo majestático "doutor". Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal, foi eleito, pelos ministros das finanças da zona euro, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Se não fosse ele, teria sido outro. No meu modestíssimo entendimento, uma qualquer vice-presidência do BCE deveria estar interdito a um governador de um banco central que não teve engenho nem arte para prever o descalabro e as irregularidades financeiras dos bancos nacionais que, por imperativo do cargo,tutelava. Mas o Correio da Manhã deixou-me, hoje, mais descansado. É que Vítor Constâncio vai tão-somente ser o "responsável máximo da supervisão financeira da Zona Euro e terá poderes reforçados na chamada supervisão macroprudencial". Fiquei, pois, aliviado, apesar de não ter percebido patavina. Continuei a leitura: afinal, esta coisa da "chamada supervisão macroprudencial" é um tipo "de supervisão que não deu problemas em Portugal dado que os casos da banca, como o do BPN e BPP, recaem sobre a supervisão comportamental". Ufa! que susto. Podemos, assim, dormir mais descansados. É "mais um êxito da nossa diplomacia internacional", disse, orgulhoso, o nosso primeiro-ministro.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...