É meu entendimento que a ex-ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, desempenhou, ao longo dos seus penosos e longos quatro anos de mandato socialista, um péssimo trabalho à frente de um dos mais importantes ministérios de qualquer país. Não vale a pena esboçar aqui os vários parâmetros em que Lurdes Rodrigues e a sua equipa menearam o mundo da educação. De qualquer modo, afigura-se-me evidente que o focus de toda esta narrativa política se centrou na incapacidade total do ministério de entender o mundo das escolas. Estas não são, definitivamente, espaços que se podem programar dentro de quatro paredes incontestavelmente teóricas. Assim pensada, a escola resulta numa incongruência altamente burocrática, num “linguarejar sem sentido e sem ideias”, na expressão feliz de António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa. E é precisamente o que tem vindo a acontecer, desde há muito – é justo referi-lo – com as várias equipas que têm gravitado no interior do Ministério da Educação. O exemplo porventura mais marcante e pragmático desta filosofia educativa teve o seu epicentro com a revisão do Estatuto da Carreira Docente, designadamente com a divisão artificialíssima e sem sentido dos professores, a qual resultou em nomenclaturas absurdas como o são, por exemplo, as de professores titulares e professores não titulares (bastaria centrar-nos na singularidade do nome para facilmente verificarmos do completo absurdo da coisa: titulares do quê?!...). Passados dois anos desta inserção nas escolas, evidencia-se pertinente a questão: quais as mais valias que trouxeram os professores titulares às escolas? Acaso funcionam melhor? Os alunos estão melhor preparados? Cidadãos mais fiéis? A resposta é naturalmente negativa. O que não é de espantar, visto que a essência da invenção não tem nada de pedagógico. Para percebermos esta evidência, basta notarmos que somente os titulares conseguem chegar ao topo da carreira. E nestas coisas de topo da carreira, as variáveis economicistas costumam sobrepor-se às restantes, mesmo que nestas se enquadrem realidades pedagógicas meritórias.
Daí que fique ligeiramente espantado quando li que a actual ministra da Educação, a prevista Isabel Alçada, tem, como farol político, a consolidação, reforço e desenvolvimento das alterações introduzidas por Maria de Lurdes Rodrigues. E digo ligeiramente espantado porque me lembro de a ter ouvido aquando das sessões de esclarecimento do Partido Socialista no âmbito da campanha eleitoral (“Avançar Portugal”), e ter ficado espantado com o registo discursivo da então candidata a ministra. Entendi então que Isabel Alçada se posicionou para conquistar o cargo, tal a amplitude panegírica da prédica. José Sócrates gosta deste tipo de personalidades “consensuais”. Daí a contratação.
Felizmente, temos hoje um governo que precisa dos votos da oposição para governar. Conseguintemente, paradoxos como os de Maria de Lurdes Rodrigues e a sua extraordinária equipa educativa, não terão muita razão de existir na actual conjectura política. A não ser que seja por meio da educação que o governo aposte na tão irascivelmente proclamada responsabilidade da oposição. É um preço demasiado alto, sabendo de antemão que, nesta matéria, é o próprio governo que se encontra isolado. Para além disso, a educação tem sido, provavelmente, a área governativa mais errática ao longo da nossa vivência em democracia. O que – facilmente se constata – tem sido também o nosso maior erro.
segunda-feira, novembro 02, 2009
domingo, novembro 01, 2009
a face oculta dos puros sangues
Os puros sangues lusitanos, embora muito deles já deleitosamente arraçados, encontraram no enleado Armando Vara um oportuno e feliz bode espiatório. Vasco Pulido Valente, o mor do grupelho, iniciou, este fim de semana na sua coluna no Público, um ataque cerrado a estas personagens sem pedigree. No outro dia foi Saramago que levou. Coube, desta vez, a Vara. Ah! Portugal, Portugal!...
terça-feira, outubro 27, 2009
o lobo ibérico, outra vez
A Quercus decidiu formalizar mais uma queixa à União Europeia para que trave a construção de um Parque Eólico do Douro Sul. Tudo por que, segundo estes ambientalistas, o empreendimento põe em causa a vivência dos animais. É bom recordar que por causa destas queixinhas foram gastos largos milhões de euros na construção dum viaduto na A24. Até ao momento, ainda não foram detectados vestígios de lobo algum. Este facto torna-se exasperadamente anedótico quando verificamos que, mesmo ao lado do viaduto, se plantaram trabalhosas pedreiras.
Ora, se tivermos em conta que a causa do declínio do Lobo Ibérico se deve, essencialmente, à sua perseguição directa e ao extermínio das suas presas selvagens, não nos custará admitir que uns postes eólicos em cima de um monte não serão preponderantes para o regular funcionamento da vida destes animais.
Ora, se tivermos em conta que a causa do declínio do Lobo Ibérico se deve, essencialmente, à sua perseguição directa e ao extermínio das suas presas selvagens, não nos custará admitir que uns postes eólicos em cima de um monte não serão preponderantes para o regular funcionamento da vida destes animais.
sacerdócio
Li uns parágrafos que prefiguram alguns traços distintivos daqueles que aspiram a uma vida sacerdotal. Assim, no documento intitulado "Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio", de 2008, encontramos este tipo de "razões": "estabilidade clara da identidade masculina", "a capacidade de integrar a sua sexualidade no todo da pessoa". Para além disso, parece que nestas orientações não cabem aqueles que sofrem de graves carências físicas, os adolescentes criados fora do convívio dos pais, os emigrados de terra em terra e também aqueles com têm o infortúnio de terem parentes alcoólicos ou dementes. Estes últimos devem ser minuciosamente avaliados, pois nunca se sabe o que pode resultar desta tenebrosa conjugação de factores somáticos. E assim prega Frei Tomás...
segunda-feira, outubro 26, 2009
um representante da república na madeira
Na espuma dos nossos dias, há notícias que o não são pelas mais prosaicas razões. Este fim-de-semana deparei-me com uma que se liga ao Representante da República para a Região Autónoma da Madeira. Fui ver os alicerces constitucionais deste cargo e reparei que faz justiça ao provérbio que dita que "o que nasce torto tarde ou nunca se endireita". Vejamos: fundado pela Lei Constitucional nº 1/2004, de 24 de Julho, no âmbito da sexta revisão constitucional, só quatro anos mais tarde se consagrou, de modo definitivo, na Constituição da República, com a publicação da Lei nº 30/2008, de 10 de Julho. Torna-se, pois, fácil entender que todo este hiato temporal foi caracterizado por uma enormíssima indefinição de competências, algumas das quais vinham já do primeiro desenho constitucional (em democracia) que criara a figura de Ministro da República para as Regiões Autónomas. Convém notar, no entanto, que o âmbito competencial deste cargo lhe confere uma importância que não se adequa à prática política. Na verdade, não me ocorre ter alguma vez ouvido o Juiz Conselheiro Monteiro Diniz pronunciar-se sobre qualquer decreto legislativo regional, seja sob a forma de uma fiscalização preventiva ou mesmo através do veto político. Assim, temos na Madeira (e presumo também na Região Autónoma dos Açores) um Representante da República que pouco mais faz do que... representar a República, seja lá o que isso possa circunscrever.
Mas é precisamente aqui que a notícia emerge. Monteiro Diniz confessou sentir-se de "mãos atadas" e que nada pode fazer perante certos despautérios oriundos, por exemplo, da práxis política madeirense, designadamente da Assembleia Regional, reconhecendo, deste modo, que não tem competências para actuar, pois este é um cargo solitário circunscrito a uma magistratura de influência. Acrescenta ainda, para sublinhar o seu desconforto, que já por duas vezes pediu para abandonar o cargo e que está fora de questão continuar após 2011, data em que termina o seu mandato.
Todavia, o nosso representante na ilha compensa a míngua operacional através de pretensas análises sociopolíticas madeirenses. Assim, começa por afirmar que é o sistema autonómico que não permite uma actuação arbitral na ilha, o que, a ser verdade, é de facto extraordinário (estranho ainda mais não se ter ouvido aquando do veto de Cavaco Silva relativamente ao Estatuto Político dos Açores, o qual preconizou uma situação político-administrativa análoga à da Madeira), visto que se trata de um reconhecimento da inocuidade do cargo que ele próprio ocupa. Vai, porém, mais longe e culpa, desprendidamente, o povo madeirense, que tem dado sucessivas maiorias absolutas ao PSD: "o problema é o eleitorado da Madeira, que deu maiorias absolutas a um partido durante estes anos todos, esse é o problema". Pela minha parte, anoto simplesmente que Monteiro Diniz deve estar mesmo fartinho de andar por lá sem fazer nenhum. É que ouvir o representante da República (por inerência representa o próprio Presidente da República) criticar de modo tão explícito o alicerce de qualquer regime democrático que é o voto do povo, estranha-se e dificilmente se entranha. Se não andássemos distraídos pela espuma dos dias, Monteiro Diniz teria sido já convidado a regressar... à pátria.
Mas é precisamente aqui que a notícia emerge. Monteiro Diniz confessou sentir-se de "mãos atadas" e que nada pode fazer perante certos despautérios oriundos, por exemplo, da práxis política madeirense, designadamente da Assembleia Regional, reconhecendo, deste modo, que não tem competências para actuar, pois este é um cargo solitário circunscrito a uma magistratura de influência. Acrescenta ainda, para sublinhar o seu desconforto, que já por duas vezes pediu para abandonar o cargo e que está fora de questão continuar após 2011, data em que termina o seu mandato.
Todavia, o nosso representante na ilha compensa a míngua operacional através de pretensas análises sociopolíticas madeirenses. Assim, começa por afirmar que é o sistema autonómico que não permite uma actuação arbitral na ilha, o que, a ser verdade, é de facto extraordinário (estranho ainda mais não se ter ouvido aquando do veto de Cavaco Silva relativamente ao Estatuto Político dos Açores, o qual preconizou uma situação político-administrativa análoga à da Madeira), visto que se trata de um reconhecimento da inocuidade do cargo que ele próprio ocupa. Vai, porém, mais longe e culpa, desprendidamente, o povo madeirense, que tem dado sucessivas maiorias absolutas ao PSD: "o problema é o eleitorado da Madeira, que deu maiorias absolutas a um partido durante estes anos todos, esse é o problema". Pela minha parte, anoto simplesmente que Monteiro Diniz deve estar mesmo fartinho de andar por lá sem fazer nenhum. É que ouvir o representante da República (por inerência representa o próprio Presidente da República) criticar de modo tão explícito o alicerce de qualquer regime democrático que é o voto do povo, estranha-se e dificilmente se entranha. Se não andássemos distraídos pela espuma dos dias, Monteiro Diniz teria sido já convidado a regressar... à pátria.
domingo, outubro 25, 2009
o reaccionário vasco pulido valente
Chego atrasado à polémica do texto de Vasco Puilido Valente da última sexta-feira no Público. Li-o e custou-me acreditar no que os meus olhos percorriam. O homem fala em conceitos como berço, educação, escolaridade, semianalfabeto, inveja, dotes de nascença, mediocridade, tudo para caracterizar denegridamente José Saramago.
Mesmo que tentemos ler este escrito infeliz e estúpido à luz duma variável polissemia, o que o senhor doutor de Oxford nos proporciona não é mais do que uma visão paroquiana de alguém que é incapaz de sair dum casulo feito de teias rancorosas e umbilicais. Para isso, não era preciso tanto estudo, sr. doutor.
Mesmo que tentemos ler este escrito infeliz e estúpido à luz duma variável polissemia, o que o senhor doutor de Oxford nos proporciona não é mais do que uma visão paroquiana de alguém que é incapaz de sair dum casulo feito de teias rancorosas e umbilicais. Para isso, não era preciso tanto estudo, sr. doutor.
sexta-feira, outubro 23, 2009
7º lugar do douro
A vasta região do Douro é, desde há muito - permitam-me o lugar comum - uma espécie de diamante em bruto. A National Geographic Society consagrou-lhe o sétimo lugar de um total de 133 destinos turísticos sustentáveis. É uma boa notícia para a região e para o país, num momento em que o grande desígnio nacional se encontra virado para auto-estradas, comboios TGV's e um retumbante aeroporto.
Sempre me entristeci que um país fisicamente tão pequeno como Portugal conseguisse alargar para além do regime despótico de Salazar e Marcelo Caetano uma divisão tão arreigada entre litoral e interior. O que é deveras insólito é este tipo de pensamento único que, na nossa contemporaneidade democrática, nasceu com os governos de Cavaco Silva: a de que é através das estradas que o desenvolvimento no interior do país se propaga. Podem ajudar, mas não bastam. E o que se me afigura deveras extraordinário é que não vejo qualquer desígnio nacional para o pós-autoestradas. Construam-se e depois logo se vê. Ocorre-me, repentinamente, os famosos estádios de futebol para o Euro 2004 (e vem aí o mundial): um verdadeiro exemplo.
Sempre me entristeci que um país fisicamente tão pequeno como Portugal conseguisse alargar para além do regime despótico de Salazar e Marcelo Caetano uma divisão tão arreigada entre litoral e interior. O que é deveras insólito é este tipo de pensamento único que, na nossa contemporaneidade democrática, nasceu com os governos de Cavaco Silva: a de que é através das estradas que o desenvolvimento no interior do país se propaga. Podem ajudar, mas não bastam. E o que se me afigura deveras extraordinário é que não vejo qualquer desígnio nacional para o pós-autoestradas. Construam-se e depois logo se vê. Ocorre-me, repentinamente, os famosos estádios de futebol para o Euro 2004 (e vem aí o mundial): um verdadeiro exemplo.
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