segunda-feira, outubro 12, 2009

um tópico europeu

Por vezes, basta muito pouco para escrever uma crónica. Neste caso, a segunda página do Expresso da última semana revelou-se suficientemente capaz de me entusiasmar. E o que relata, então, logo a abrir, o semanário de Pinto Balsemão? Nada mais, nada menos do que os rendimentos dos eurodeputados. O título é, desde logo, sugestivo: “Eurodeputados gastam mais 30 milhões em despesas”.
Como se sabe, o novo Estatuto do Deputado entrou em vigor a 15 de Julho e teve como principal inovação o pagamento ao quilómetro das viagens para casa, colocando um termo à disparidade de remuneração dos deputados consoante o país de origem. Deste modo, o que antigamente era guiado pelos respectivos parlamentos nacionais, passou agora a ser estruturado com um salário único de €7000 mensais (€5969 líquidos). No caso dos nossos felizes deputados, tiveram um acréscimo de €3444. A questão, todavia, não se estaca nesta simples homogeneização salarial inter pares. Se é certo que se exauriu o subsídio ao quilómetro das viagens para casa, é também certo que se criaram mais duas novas assistências salariais: uma nova versão do subsídio ao quilómetro e um outro de “tempo perdido” na viagem. Os eurodeputados, não sei se ironicamente (nunca se sabe), apelidaram-no já de “subsídio de transtorno”. Conseguintemente, a exponencial subida, relativamente à anterior legislatura na rubrica subsídios, situa-se nos €32 milhões. O interessante é que, no actual quadro parlamentar, há menos 49 deputados. Quer isto dizer que, apesar de menos, gastam mais (o orçamento do Parlamento Europeu foi o que mais subiu dentro das instituições europeias: €1590 milhões face a €1530 da última legislatura). Mas não se ficam por aqui as benesses: por cada dia de exaustivo trabalho em Bruxelas ou Estrasburgo (um exemplo da pesada e expansiva organização comunitária, com sessões plenárias mensais em Estrasburgo, sessões das comissões em Bruxelas e a sede do secretário-geral do Parlamento em Luxemburgo), cada deputado recebe €298, além do seu salário. Ainda segundo o jornal, os deputados auferem ainda, no item despesas de gabinete, €4200 e, como se não bastasse, reivindicam um aumento para o seus assistentes, de modo a garantir um trabalho de qualidade com a introdução esperada do Tratado de Lisboa.
É certo que este tipo de matérias exalta para uma oportuna demagogia. Pela minha parte, não é essa a minha intenção. Todavia, convém sublinhar o óbvio: numa altura de crise europeia e mundial, onde milhões de desempregados enxameiam os centros de emprego, onde cresce perversamente a pobreza, envergonhada ou declarada, a União Europeia patenteia uma capacidade notável para resolver as questiúnculas de mera organização salarial, através deste tipo de homogeneização comunitária. Por outro lado, essa estreita lucidez pragmática não é conduzida para uma resolução dos verdadeiros problemas dos cidadãos. Muito pelo contrário, as instituições europeias têm-se revelado, face à crise, de uma total e preocupante inoperância política, preferindo, muitos dos seus mais respeitados dirigentes nacionais, entreterem-se em agrupamentos que pomposamente são designados de G qualquer coisa. Será porventura na aprovação do Tratado de Lisboa que tudo isto começará a mudar. Pelo menos, é o que os mais optimistas esperam. Haverá, estou certo, novas reformas. Quanto mais não seja, para optimizar, ainda mais, a configuração salarial do Parlamento Europeu.

sábado, outubro 10, 2009

obama nobelizado

As opiniões são divergentes. Para uns, o prémio Nobel da Paz deste ano não podia estar mais bem entregue pelo que Obama representa na esperança duma paz mundial, na esperança do início de uma nova ordem mundial, a qual, para alguns destes, já se teria mesmo iniciado com a sua eleição. Para outros, o presidente dos Estados Unidos ainda não justificou tão responsável galardão. Afinal, só está ainda no poder há dez pequenos meses. No entanto, poderemos elevar uma terceira via de análise: a de que o prémio não é pelo que ele fez, mas pelo que se espera que venha a fazer. Neste sentido, estou em crer que Barack Hussein Obama, o quadragésimo quarto presidente dos Estados Unidos da América, preferiria que lá por Oslo o seu nome não tivesse sido, sequer, alvitrado.

segunda-feira, outubro 05, 2009

fim de ciclo

O ministro da agricultura, um dos que está de saída do executivo socrático, afirmou, em Bruxelas, que "quem ganhou as eleições foi o engenheiro Sócrates" e que este "tem toda a liberdade" para escolher o seu governo. É interessante verificarmos, nestes diversos ocasos ministeriais, as várias verdades la palissianas que, por norma, todos os ministros executam, principalmente aqueles que têm cartão de saída. Do mesmo modo, será igualmente curioso anotar os encómios de Sócrates a estes desadequados ministros. Pela minha parte, estou curioso relativamente a Maria de Lurdes Rodrigues, um dos algozes deste governo.

cavaco silva

Não será de todo desacertado afirmar que existe, no Presidente da República, uma tendência que configura uma certa inaptidão para a política. É certo que ele sempre se definiu como um não-político, apesar de se encontrar, há mais de vinte anos, no seu epicentro. Daí que Cavaco – o homem político – possa ser considerado um paradoxo. Vejamos: foi ele o primeiro político que alcançou uma maioria absoluta, chegando mesmo, depois da primeira, à segunda. Isto depois de um estranho partido da década de oitenta – o PRD –, abençoado por Ramalho Eanes, ter destituído, com uma moção de censura, o governo minoritário social-democrata, liderado precisamente pelo actual Presidente da República. Depois disso, foi ganhador absoluto das eleições presidenciais (dez anos passados da derrota com Jorge Sampaio na sua primeira tentativa presidencialista), muito por causa dum silêncio estratégico que delineou durante o consulado deste último, mas também (sobretudo?) por uma separação conflituosa entre uma esquerda que (dizem) é socialmente maioritária em Portugal.
Convém também lembrar que Cavaco Silva apareceu na política num célebre congresso do PSD, ocorrido na Figueira da Foz, quando, segundo o próprio, o objectivo primeiro na sua deslocação à cidade, era fazer a rodagem ao carro acabadinho de comprar. Começou, portanto, a desenhar-se o sebastiânico homem do leme. Obviamente que este episódio, pitoresco, ficou nos anais políticos como uma não-verdade. Seria lá possível um homem, estranhamente desconhecido, sem biografia (Soares dixit), arrecadar assim um partido do marasmo que vivia num bloco central sufocante, sofrendo ainda um complexo de orfandade devido à morte do seu fundador, Francisco Sá Carneiro. No entanto, por vezes o homem político encontra-se terminantemente condicionado pelos acontecimentos que não consegue dominar. E a rodagem ao seu Citroën foi, neste propósito, um acaso providencial e libertador para Cavaco que viu, sem contar, a sua moção ser aprovada e aclamada maioritariamente no congresso.
Cavaco Silva é, pois, um fenómeno político. Não é, todavia, caso único na política portuguesa. Lembro-me, assim de repente, de mais dois: Nuno Abecassis que conseguiu duas maiorias absolutas em Lisboa precisamente pelo partido menos representativo eleitoralmente no círculo da capital, o então CDS; e João Jardim, cujas alarvices discursivas conseguem conservá-lo intocável há já trinta e tal anos.
Por conseguinte, quando Cavaco Silva tenta reagir politicamente à adversidade é, por norma, desastrado. Os exemplos são muitos, mas observo apenas dois: quando se dirigiu ao país na questão da possível inconstitucionalidade do Estatuto dos Açores (cheio de razão, diga-se desde já) e agora no episódio que configurou o chamado caso das escutas a Belém, o qual determinou uma singularíssima e infeliz intromissão do presidente nas duas campanhas eleitorais, na legislativa directamente e, nas autárquicas, com uma consequente desvalorização das mesmas. O sentido de estado do nosso presidente – o que, por norma, é de todos os portugueses – deve ser, pois revisto. Por ele, ou pelos seus assessores.

ausência de cavaco silva no 5 de outubro

Há uma terrível e fatal ironia quando Cavaco Silva defendeu que não discursará no Terreiro do Paço para não ser acusado de interferência nas eleições autárquicas. Esqueceu-se, porém, que ao convocar aquela transmissão solene e acusatória ao país, em horário de abertura dos telejornais, relegou estas eleições para um plano secundaríssimo. É que ele sempre disse que falaria ao país depois das eleições. Referia-se, como se viu, às legislativas.

domingo, outubro 04, 2009

olimpiadas no rio

A propósito da recente aposta do Comité Olímpico Internacional em presentear o Brasil com a edição dos Jogos Olímpicos de 2016, um dos reponsáveis olímpicos cá do burgo, apressou-se de imediato a demonstrar o seu regozijo salientando que é sempre uma alegria que a língua portuguesa seja anfitriã da edição e que os laços entre os dois países facilitarão um intercâmbio de atletas, designadamente a possibilidade de estágios na cidade brasileira. Foi logo a primeira coisa que este senhor pensou: uns estagiozitos no Rio.

tratado de lisboa

Temos, finalmente, o Tratado de Lisboa aprovado. Durão Barroso, o nosso orgulhoso comissário, já se pronunciou, agradecendo o empenho dos irlandeses. Tenho uma proposta a fazer: simplesmente ir à negra: quem ganhar à melhor de dois é, definitivamente, o vencedor: o sim ou o não.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...