domingo, julho 05, 2009

candidaturas duplas

Ana Gomes, protagonista de uma dupla candidatura para as europeias e as autárquicas, vem agora dizer que acha que é uma decisão razoável, por parte do PS, a proibição de tal duplicidade. Acrescenta, no entanto, que a única razão que a leva a tomar esta atitude se deve à "especulação perfeitamente demagógica" que foi feita a propósito da sua candidatura e da candidatura de Elisa Ferreira, a qual perdeu, com a anuência de concorrer a deputada ao Parlamento Europeu, uma belíssima oportunidade de alcançar a vitória na câmara do Porto. Não se compreende, pois, que a deputada sobreponha, uma vez mais, a estratégia em vez das convicções. Por exemplo, Leonor Coutinho que, tal como Ana Gomes, protagoniza este tipo de aberração política, afirmou desde logo que não acredita que a decisão de proibir as duplas candidaturas melhore a democracia. Pelos vistos, Ana Gomes também não acredita, mas compreende. Compreende o quê, afinal?

sábado, julho 04, 2009

o que pode fazer um ex-ministro

Alcançou-se irresponsavelmente a convicção de que, em Portugal, melhor do que ser ministro é tornar-se um ex-ministro. No caso de Manuel Pinho, este matiz veio, mais uma vez, clarificadoramente, ao de cima. O comendador Berardo, glória do coleccionismo português, apelou, através das televisões, para que Manuel Pinho aceitasse o cargo de administrador da sua fundação. É um grande conhecedor de arte, afiançou Berardo. Pois... se o diz, é porque o deve, realmente, ser. No entanto, esqueceu-se de afirmar o seguinte: para além disso, é um ex-ministro. Nada de novo, tendo em conta a promiscuidade que existe há muito entre o Estado e outros empregos (são de empregos que se trata, mesmo que, eufemisticamente, esta palavra nunca seja abertamente exposta). Os nomes abundam e são transversais aos partidos do arco governativo: Joaquim Ferreira do Amaral, Dias Loureiro, Armando Vara, Fernando Gomes, Mexia, e muitos, muitos outros que até se dão ao luxo de acumular o lugar de deputado da nação com cargos nos sectores público e privado. Vitalino Canas, por exemplo, digno porta-voz do PS, entretanto despedido dessas funções, acumulava, carismaticamente, esse cargo com o de provedor das empresas de trabalho temporário. Foi até apelidado, por um jornal, de "rei na actividade de consultoria", pois eram (ou continuam a ser) cinco o número de consultadorias que aglomerava (ou aglomera). A tão convenientemente apregoada ética republicana merecia mais do que este tipo de conduta sôfrega por parte desta classe política. Na verdade, fazendo deste tipo de conduta o estado normal da nação, tudo se vira de pernas para o ar, tendo em conta que a política, no seu postulado mais merecedor, deve personificar o mais exemplar desapego pessoal a determinados tipos de cargos. Dito de outro modo, os políticos devem orgulhosamente servir o país e não servirem-se deste para proveito próprio. Por isso é que nunca entendi, por exemplo, a fuga de Durão Barroso para Bruxelas, ou até mesmo a troca de António Costa de Ministro da Administração Interna para candidato (e certíssimo ganhador de eleições) a Presidente da Câmara de Lisboa.
Um outro ponto que gostaria de alinhavar a respeito da demissão de Manuel Pinho, tem a ver com a rapidez com que José Sócrates decretou a sua substituição (e também, valha a verdade, a sua demissão). Uma vez mais, estão, a meu ver, equivocados a maioria dos comentadores encartados das televisões e jornais. Faz-me lembrar o que li um dia da pena de António Barreto a respeito duma qualquer maratona de ministros que entrou até altas horas da madrugada. Dizia então o sociólogo que não quer ministros que decidam assim, cansados e com sono. Seria, pois, preferível que se deitassem cedo e, depois de uma noite repousante, retomassem, porventura com ideias clarificadas, a reunião. De facto, com esta decisão relâmpago do primeiro-ministro, passa-se mais ou menos o mesmo. Para quê a pressa? Acaso demonstrou alguma capacidade de resolução (sei que muitos se apressaram a enaltecer o regresso do velho Sócrates, aquele que não tem medo, o que, porventura, até seria essa a ideia que o próprio desejava)? Pelo contrário, José Sócrates provou que é um líder em contra-ciclo e que só uma espécie de milagre o poderá levar, de novo, a uma vitória nas duas eleições que se aproximam. Na realidade, Sócrates revelaria maior sapiência se adiasse a decisão da demissão do ministro – e, principalmente, a sua substituição –, para depois de uma reunião com os seus conselheiros. É para isso que eles servem, não é?

sexta-feira, julho 03, 2009

portugal pequenino

Mais do que qualquer outra coisa, o que verdadeiramente revela, principalmente a insípida televisão pública, sobre a cobertura das eleições do Benfica, é o país que somos e o país que esta gente quer continuar a semear. O Benfica é apenas um clube desportivo. Não se pode, em nome do interesse de algumas pessoas, mesmo que sejam milhares, cultivar a boçalidade. E o que a RTP anda para aí a fazer, com variadíssimos programas e com esta cobertura noticiosa em particular, não é mais do que um convite ao desenvolvimento da triste degeneração da nação.

quinta-feira, julho 02, 2009

deixem o mercado funcionar livremente

Liguei a televisão e estava Judite de Sousa a entrevistar alguém que não conheço, mas que penso ser o representante do Banco Santander aqui neste jardim à beira mar plantado, se não mesmo da Península Ibérica. Ouvi a entrevistadora chamá-lo dr. Horta Osório. E ouvi também o seguinte, a respeito da transferência milionária de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid, na qual o Banco Santander teve influência financeira: "deixem o mercado funcionar livremente..." Ora, sabemos que esta operação teve o mérito de originar um debate alargado na Europa (mas não o suficiente), não só sobre a oportunidade do negócio tendo em conta a crise em que vivemos, mas também sobre a eterna interrogação se é realmente este o mundo em que queremos viver. Neste sentido, responder como esse senhor do Santander respondeu, salientando ainda que Tiger Woods e outros ganham muito mais do que o Cristiano Ronaldo é representativo que para esta gente "crise" é uma palavra que entra por um ouvido e sai pelo outro. Bem rapidinho.

manuel pinho na história parlamentar

Afinal, Manuel Pinho sempre acabou por servir alguma coisa na sua passagem pelo governo (ele diz que ainda tem condições para continuar a ser ministro!...). Sem ele, não teríamos o número que hoje nos ofereceu. Pela minha parte, agradeço.

quarta-feira, julho 01, 2009

camisola de sangue

Ouvi no rádio do carro o discurso do sr. Bettencourt aquando da apresentação do jogador Matias Fernandez. O sr. Bettencourt é presidente recém-eleito do Sporting. Parece que é uma grande figura lá para esses lados. Mas confesso que fiquei estupefacto com tamanha alarvidade discursiva. Ele pediu ao jogador chileno uma "camisola suada quase de sangue", pois custou muito dinheiro ao clube. Depois embalou por aí fora com outras tiradas tonitruantes (deve pensar que lá por o jogador ser chileno deve cantar o hino com os dentes e punhos arreganhados de sangue). Mas eu cheguei ao meu destino e desliguei admiravelmente o rádio do carro. É isso a visão do futebol desta gente? Suar a camisola quase de sangue? Que mensagem ele quererá transmitir? Os adeptos gostarão deste tipo de entontecimentos? Se calhar gostam, não sei.

a culpa é do outro

É um filme que estamos habituados a ver em democracia. Este governo tem sido useiro nessa triste estratégia. Refiro-me, evidentemente, à mania que os partidos têm de culpabilizar o outro. O outro é sempre o anterior. No caso da venda da rede fixa à PT, Manuela Ferreira Leite não resistiu e afirmou que foi Guterres o culpado. O anterior, portanto. O PS refuta naturalmente esta teoria. E andamos nisto desde sempre, o que é uma boa maneira de fazer com que o país não vá para a frente. Por outro lado, esta teoria da conspiração (os partidos políticos portugueses são, de facto, especializados neste tipo de orientações conspirativas. Por vezes, penso que é a razão principal das suas existências) pode servir de exemplo de como um governo minoritário poderá ser benéfico para o país. É que desse modo as culpas seriam sempre repartidas.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...