segunda-feira, junho 15, 2009

a derrota do governo e a derrota na educação

Parece-me oportuno aproveitar este momento de rescaldo subsequente da contagem de votos das eleições europeias, os quais penalizaram – e muito – o partido que sustenta a maioria governativa, para apontar, em jeito de balanço, uma crítica a um ministério que foi, a meu ver, um dos principais algozes de José Sócrates. Refiro-me ao Ministério da Educação. Parece obviamente claro que o primeiro-ministro absorve também, no que ao panorama derrotista diz respeito, uma quota-parte da culpa, se não mesmo a totalidade.
Com efeito, ele foi incapaz de ver o que muitos (ou melhor, poucos, sejamos francos) começaram a vislumbrar desde muito cedo. Basta olharmos para os jornais de há dois ou três anos para concluir que a ministra da educação, Lurdes Rodrigues, usufruía daquilo que se apelida de uma boa imprensa. Este juízo era basicamente alicerçado em ideias muito genéricas e resumidas: finalmente, aparece alguém para pôr em ordem os professores e as escolas. O paradigma foi, desde muito cedo, claro: regras (ocultas ou através de uma caudalosa legislação) que semearam nos professores (honra lhe seja feita relativamente ao conhecimento psico-socio-profissional da classe) um clima de quase pânico. Estes – é também verdadeiro – desde muito cedo perceberam os "gastos da casa", ou seja, o desfalecido perfil da ministra e dos seus secretários de estado. O desassossego, porém, impôs-se na maioria das vezes, ainda para mais quando Maria de Lurdes Rodrigues se dissimulava ao redor dos comentadores sociais e políticos, da população e até do próprio Presidente da República, o qual nunca se inibiu de aparecer, concludentemente, com ela ao seu lado, louvando este novo manobrar em redor das coisas da educação. Foi um tempo em que José Sócrates esfregava as mãos e tinha na ministra uma espécie de cartão de apresentação da nova maioria, o que o Plano Tecnológico (leia-se, Magalhães) ajudou depois a estimular.
Contudo, é muito difícil, quando se fala em educação, mascarar por muito tempo más políticas. Só que, tal como nas grandes paixões, em que o amante entusiasta é sempre o último a saber, José Sócrates continuava enlevado numa teimosia persistente, perdendo extraordinárias oportunidades de renovação da pasta da educação. Cavaco, entretanto, já se tinha, cautelosamente, afastado.
Assim, convém interrogarmo-nos: o que ficou desta política educativa? Para além duma aprendizagem que a ciência política por certo aproveitará, no que diz respeito à educação, muito pouco. Estou mesmo inclinado a assumir que, dentro dum ponto de vista verdadeiramente educativo – medidas que se consubstanciam dentro duma narrativa pedagógica – não se fez nada. Um tempo perdido, portanto. Na realidade, o que esta equipa ministerial acabou por desenvolver resultou em meros procedimentos administrativos, os quais só com alguma boa vontade poderemos estabelecer uma relação unidireccional com um envolvimento pedagógico. Um só exemplo basta, na medida em que representa um porta-estandarte deste ministério: os professores titulares. Como se sabe (ou como começaram, os que se encontram do lado de fora da escola, tardiamente, a descortinar), a divisão da classe docente em titulares e não titulares foi não só artificialíssima como também envolvia um pressuposto que nunca foi muito bem explicado, mas que tinha a ver com a assunção de que só alguns – os melhores, presume-se – teriam como direito chegar ao topo da carreira. Ora, por aqui se vê esta especialização por via administrativa deste ministério. Agora, a questão indeclinável: quais as mais-valias que os professores titulares promoveram nas escolas, na educação? Por muitas voltas que se dêem, a resposta só pode ser uma: nada.
Aprendemos (espero), de facto, uma lição. Um Ministério da Educação tem de pensar, acima de tudo, em educação. E os valores inerentes à educação são, antes de tudo, humanos.

(publicado no Público, em 17/06/2009)

sábado, junho 13, 2009

o problema foi...

Faz parte duma certa ritualização partidária a demanda das razões por este ou aquele resultado nas eleições. Hoje vi, provavelmente, a mais engraçada. O autor é Marcos Perestrello. Defende então ele, que é candidato autárquico a Oeiras e aparece toda as semanas na televisão (uma fortíssima razão para ser candidato, por certo), que não se deve retirar conclusões destes resultados, na medida em que, se formos por essa via concludente, não estaremos a fazer mais do que "prolongar o embuste". E o embuste, para além dos próprios resultados, tem um nome: abstenção. E esta tem também uma causa, que eu coloco aqui entre aspas, tal como, aliás, o autor o faz: "nacionalização da campanha". Explicando: as pessoas abstiveram-se porque não encontraram assuntos europeus, isto é, porque a campanha rodopiou e estacionou nas preocupações nacionais, o que criou, nos eleitores, um "cariz de inautenticidade" pela coisa. Simples? Complexo? Eu direi mais: engraçado.

antónio variações

Ouvi agora na televisão que a carreira de António Variações, morto há precisamente 25 anos, percorreu somente três anos. Não sabia e fiquei verdadeiramente surpreso. Variações constituiu um claríssimo caso de avanço em relação à sociedade do seu tempo, nessa década de 80, de princípios de mudança, da chamada explosão do rock português. Na verdade, muito poucos artistas terão deixado uma marca tão profunda na arquitectura cultural do país, num espaço de tempo tão curto.

quinta-feira, junho 11, 2009

a transferência de ronaldo

Por muito que se goste de futebol (ou de qualquer outro desporto), o que o Real Madrid pagou pela transferência de Cristiano Ronaldo e de Kaká é, simplesmente, obsceno. No dia em que o meu clube, por muito rico que fosse, pagasse estas exorbitâncias, seria esse que deixaria de o ser. A cidadania (neste caso, europeia) teria aqui de afirmar uma palavra positiva. Infelizmente, haverá sempre palermas para justificar o que Valdano disse deste negócio: só é caro o que não for retornável.

quarta-feira, junho 10, 2009

crise económica, crise política e santos silva

Santos Silva faz mal em continuar a bater na mesma tecla no que diz respeito a uma eventual mudança de governo, ao advogar que "Portugal não pode dar-se ao luxo de acrescentar à crise económica uma crise política". Crise política, leia-se, governo do PSD (coligado ou não). Até aqui, era a estafada teoria do caos (conhecemo-la desde há muito, desde Cavaco, pelo menos); agora, com o que resultou das eleições europeias (o PSD como uma verdadeira alternativa de governo), não se entende este tipo de argumento. Até porque ficamos sem saber com qual das vitórias as crises estacionavam: com a do PS ou com a do PSD.

mau jornalismo

Não quero fazer de Pacheco Pereira com o seu prolongado "situacionismo", mas o que eu vi, hoje, no telejornal da SIC alberga um incontornável qualificativo: mau jornalismo. Começa tudo com a anunciada entrevista a Dias Loureiro, a pretexto da homenagem que o município de Aguiar da Beira - terra natal do ex-administrador do BPN, que foi também presidente da Assembleia Municipal - lhe prestou. A dada altura, Loureiro, respondendo à pergunta da jornalista sobre qual a importância da terra natal na sua vida, afirmou que aprendeu mais na sua terra, com as suas gentes, os seus valores como a lealdade, a verdade, a honradez, o não dizer mal de ninguém, do que nas viagens e nos livros que leu. É óbvio que em toda esta retórica Loureiro pensava mais no presente do que no passado. Mas a jornalista nunca poderia arrematar a entrevista como o fez: "a escolher palavras [Dias Loureiro] também não esteve nada mal". Definitivamente, estas senhoras e senhores jornalistas não sabem que a sua função, numa peça deste tipo (uma reportagem seguida de entrevista) não é o de estruturar a sua comunicação através deste tipo de tendência opinativa, ainda para mais quando ela é subliminarmente direccionada.

peregrinação de crianças

Parece que o dia 10 de Junho é escolhido por alguns papás e mamãs para remeterem os seus rebentos numa peregrinação a Fátima. Suponho que a igreja católica enalteça este posicionamento paternal tão devoto. Mas faz mal. Como faz mal permitir o degradante espectáculo das pessoas (estas sim, verdadeiramente devotas) a rastejarem nas lajes do Santuário. Sempre me ensinarem que a fé não se impõe. Ou se é tocado, ou não. Não sei a idade das criancinhas, mas estou propenso a crer que, no que respeita a luzes divinas, estariam mais inclinadas para outros tipos de claridades.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...