quinta-feira, abril 16, 2009

educação: as novas propostas

É sempre curioso verificar a atitude titubeante deste ministério da educação. Diz agora que recua em algumas propostas caso os sindicatos parem com o clima de contestação. Propõe-se até criar um novo escalão para os professores que se encontram no topo da carreira. Ao mesmo tempo, retiram (ou alteram) a limitação de vagas para professor titular (com sinceridade, ainda não consegui perceber o que acrescenta, para as escolas e para a educação, um professor titular). Diz ainda Jorge Pedreira, deslumbrado e desafiador, que até podem ir mais longe. Ora, sabendo que não se encontram no topo da carreira os reais problemas da classe docente, não se percebe a invenção de mais um escalão. Claro que do ponto de vista negocial faz sentido, ainda para mais quando se conhece a apetência dos sindicatos para este tipo de escalonamento profissional.

(publicado no jornal Público, em 18/04/2009)

visitas de estudo em escolas públicas

Sabemos que os professores andam num rebuliço avaliativo. Daí que se apresentem, actualmente nas escolas, diversas formas de acolhimento de estratégias com um único fito: mostrar (possivelmente à comunidade escolar) que se é um professor dinâmico, com intervenções em actividades várias (cortejo de carnaval, dia dos namorados, projectos electrão, dias disto e daquilo, visitas de estudo, etc.). Ou seja: mostrar trabalho, mesmo que este pouco ou nada tenha a ver com a sala de aula, lugar privilegiado de qualquer relação pedagógico-didáctica. É precisamente nas visitas de estudo que quero, por ora, situar-me. Observo um exemplo: uma visita de estudo à Serra da Estrela que engloba todos os alunos (e não são muitos) do sexto ano de escolaridade (10-12 anos de idade). O meio socioeconómico é de pobreza. Muitos meninos e meninas desta faixa etária fazem mesmo a única refeição decente durante o dia na cantina da escola. Todos eles querem ir à Serra da Estrela, claro. Há lá ainda neve e muitos nunca viram esse manto branco. Só em livros e na televisão. Acontece que essa viagem, organizada pela professora de Religião Moral e Católica (!) da Escola, está estruturada como se de uma agência de viagens se tratasse. Os alunos - todos - têm de pagar 80 euros. O processo de exclusão social e económica destas crianças e dos seus encarregados de educação começa logo no momento em que um papel é distribuído aos alunos para que estes, por sua vez, os dêem aos pais ou encarregados de educação para que estes assinem a respectiva autorização. Pergunto: como é possível uma escola pública introduzir, dentro da sua comunidade, tal situação? Respondem-me, cândida e vagamente, que os alunos que usufruem dos escalões A e B serão reembolsados total ou parcialmente. Não sei se será essa a realidade. Penso mesmo que não. De qualquer modo, não me parece que estes alunos tenham encarregados de educação que possam disponibilizar cerca de 100 euros para uma viagem à Serra da Estrela.
A escola pública é um lugar, por definição, proporcionador de igualdades e de liberdades. Por isso mesmo, este tipo de actividades, estruturadas desta maneira, deveria ser, simplesmente proibida. É que não consigo vislumbrar nenhum aspecto positivo, nem para os que vão (que não têm culpa nenhuma nisto), nem muito menos para os que ficam. Antes pelo contrário, nos que vão, gera-se um processo gradativo de dessensibilização que nunca deveria ser desenvolvido num espaço escolar; os que não vão, ficam certamente revoltados pelo facto não só de não irem, mas, principalmente, por não poderem ir. Ainda para mais quando não fizeram nada para que isso acontecesse. Num Portugal que se quer civilizado e moderno (e, já agora, europeu), jamais um aluno deverá deixar de ir a uma visita de estudo por dificuldades económicas. Tão simples como isso.

(publicado no jornal Público, em 17/04/2009)

quarta-feira, abril 15, 2009

as mordaças

Sempre mais do mesmo. É sempre uma questão de afirmação. De um lado, o candidato Paulo Rangel atiçando com o putativo autoritarismo do actual governo, afirmando que não se calará, mesmo que à força de mordaças invisíveis. Do outro lado, Vital Moreira a transportar o debate para as mordaças reais do Estado Novo. Uma pergunta: o que é que isso interessa?

terça-feira, abril 14, 2009

os cabeças de lista

O PSD foi, como se sabe, o último partido a apresentar o cabeça de lista para as eleições ao Parlamento Europeu. Como também se sabe, foram muitas as congeminações jornalísticas e partidárias sobre o assunto. Sinceramente, não me interessa nada sobre nenhum cabeça de lista de qualquer partido. O que eu gostaria de conhecer, com igual aparato mediático, são aqueles outros que se mantêm em lugares elegíveis e que, por isso mesmo, podem ir parar ao Parlamento Europeu sem nunca terem feito nada para isso. Nada, fora do partido, é claro.

uma esquerda estúpida

Ilda Figueiredo, cabeça de lista do PCP às eleições europeias, defende a luta do seu partido no sentido de eleger o terceiro deputado para o Parlamento Europeu. Nada mais natural e legítimo. Porém, questionada, reiteradamente, pelos jornalistas sobre um dos possíveis cenários pós eleitorais, ou seja, a eventual não eleição do terceiro deputado, a deputada responde, lacónica, que não quer sequer ouvir falar da hipótese de a coligação obter um resultado inferior aos três eurodeputados e que "quem vai decidir é o povo português". Adiante, confrontada pelo que disse há quatro ou cinco anos, quando afirmou que este seria o seu último mandato, Ilda Figueiredo respondeu que o importante são as eleições de 7 de Junho e que não se lembra de ter dito tal coisa (um disparate, presume-se nas suas palavras), mas que "a vida é assim, é uma dinâmica". Uma dinâmica! Curioso o uso deste vocábulo num partido como o PCP, que é, indubitavelmente, o partido mais preso a concepções passadistas. Na verdade, Ilda Figueiredo não podia ser menos dinâmica (no sentido psicologista do termo) com esta sua asserção, a qual denota uma concepção ideológico-discursiva ultrapassada.
O segundo exemplo que quero abordar diz respeito à extraordinária ideia de uma petição que defende uma "convergência de esquerda nas eleições para Lisboa", que não é mais do que uma frente anti-Santana Lopes. Parece que os inspiradores da coisa foram Jorge Sampaio e José Saramago. Sinceramente, não consigo entender a lógica de tal extravagante ideia, ainda para mais quando, a haver uma coligação, o candidato primeiro seria António Costa, que já provou que não tem jeitinho nenhum para autarca. Por que não Ruben de Carvalho, que já é, aliás, o candidato apurado pela CDU? Não entendem os promotores desta coligação estapafúrdia que com este tipo de iniciativas, só estão a dar mais força de vitória a Santana Lopes?
De qualquer modo, realça-se, nestes dois exemplos, que afinal não é só a direita portuguesa que anda em crise de identidade. Quanto a Ilda Figueiredo, estamos conversados. Em relação à petição, ela evoca o reconhecimento de uma não-aceitação natural em torno do actual presidente da Câmara de Lisboa. É que, se assim não fosse, não seriam necessários estes tipos de iniciativas.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes, em 16/04/2009)

domingo, abril 05, 2009

a visita de obama à europa

Acompanho com relativo distanciamento a visita de Obama à Europa. Daí que uma das coisas que me proporciona maior curiosidade tem a ver com o total apagamento da União Europeia. Alguém tem visto Durão Barroso, legítimo representante da instituição? Pelo contrário, o que se tem visto, com maior intensidade mediática, tem sido precisamente líderes dos respectivos países, sempre com os inevitáveis Sarkosy e Merkel à cabeça de uma suposta Europa unida. Será que foi para isto que Barroso mereceu, por parte desta gente, uma confiança renovada para um novo mandato?

quinta-feira, abril 02, 2009

(Vou fazer um intervalo aqui no blogue durante mais ou menos quinze dias. De qualquer modo, sempre que puder dar umas salpicadas, não vou deixar de o fazer. Até lá.)

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...