Gostei de ver e ouvir Lula da Silva, presidente do Brasil, dirigir-se para o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e para o vice-presidente dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, com a seguinte metáfora ferroviária: "locomotivas têm mais responsabilidades que os vagões". Com efeito, dirigindo-se para estes dois líderes ocidentais, com fortes responsabilidades no que o mundo se tornou neste princípio de século, e em português (o que deve ser também considerado de uma grande relevância), Lula da Silva apontou objectivamente o dedo para o modelo de certo modo isolacionista (ou mesmo imperialista) que os Estados Unidos, coadjuvados pelo Reino Unido de Tony Blair, levaram a cabo no Ocidente. O resultado foi, portanto, o que se está a verificar em todo o mundo, com a falência completa de um sistema pretensamente liberal de matriz social. Assim, a importância deste discurso do presidente brasileiro - que correu o mundo - vai ao encontro do que se exige de um líder de um qualquer país sem pretensões hegemónicas. De facto, a ideia, a palavra, tão apregoada em eleições eleitorais, não passa disso mesmo: vãs promessas eleitorais. Alguém viu, por exemplo, Cavaco Silva ou José Sócrates falar assim, tão desassombradamente, em cimeiras internacionais? A resposta só pode ser um rotundo advérbio de negação. Acontece que nos acostumámos consumir um tipo de registo discursivo dos nossos líderes, o qual se liga exclusivamente com uma perspectiva interna. Somos o país que somos, dirão alguns, sem peso no teatro das nações. Nada mais falso. Em primeiro lugar, os países, tal como os homens, não se devem medir aos palmos. Depois, a nossa força deve residir precisamente na palavra, na ideia. Foi, aliás, esta força interior que fez com que Vítor Hugo, em carta ao jornalista do Diário de Notícias Eduardo Coelho, em 1867, elogiasse o povo português pelo pioneirismo demonstrado na abolição da pena de morte. E não foram parcas as suas palavras laudatórias: "Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos". Daí que os políticos que nos regem devam assumir, sem complexos de inferioridade, o que de peito aberto divulgam cá dentro, principalmente em períodos eleitorais. Quando ouvi Lula da Silva falar desse modo em português, senti-me muito mais orgulhosamente português do que quando vejo os nossos legítimos representantes discursar, vaidosa e propagandisticamente, nos mais diversos fóruns internacionais. E se me permitem um conselho, devem, em primeiro lugar, começar pela língua. Só assim é que entendemos que ela é, de facto, a nossa pátria.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes, em 02/04/2009)
domingo, março 29, 2009
sábado, março 28, 2009
uma petição por uma boa ideia
O presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas de Darque iniciou uma petição que visa o seguinte: responsabilizar os encarregados de educação dos alunos em caso de absentismo, abandono escolar e indisciplina. Eu já assinei. É só clicar em www.peticao.com.pt/responsabilizacao.
quinta-feira, março 26, 2009
as sobras
Se a lei o permitia, Isaltino está, quanto a esta acusação, ilibado. Mas é muito interessante debruçarmo-nos um pouco nisto: como foi possível esta abrangência legal, a qual permitia que um candidato autárquico ficasse com os restos dos donativos da campanha eleitoral? No caso de Isaltino Morais são sobras de 400 mil euros que foram colocados num banco suíço. Como Isaltino desavergonhadamente afirma, foi uma prática corrente (porque legal) de muitos candidatos autarcas. O que se faz em nome da legalidade!
quarta-feira, março 25, 2009
o encerramento da linha do corgo
Afigura-se demasiado óbvio que o encerramento supostamente limitado no tempo da linha do Corgo não passa de mais uma manobra de espalhamento retórico de promessas vãs. Trata-se, simplesmente, da continuação de uma desertificação progressiva ao nível do colectivo emocional do interior do país. Começou há muitos anos com o encerramento da linha do Douro até Barca D´Alva e depois até ao Pocinho. Decididamente, falta, por parte de quem nos tem vindo a governar, sentir verdadeira e genuinamente o país. E este mundo não é fácil abrir-se para quem demanda, de forma globalizada, respostas para o que é demasiado localizado.
o jogo, ainda
Ouvi hoje na rádio os últimos (espero) suspiros da final da Taça da Liga. O que se torna mais extraordinário, no meio deste exagero intentado pelo Sporting, é que todas estas exigências (demissões, proibições de apitar jogos, etc.) vem de um clube que há poucas semanas perdeu por 12 a 1 em dois jogos. Que eu saiba, ninguém se demitiu lá para os lados de Alvalade. Ou seja: os dirigentes do Sporting têm precisamente o mesmo comportamento daqueles adeptos que escrevinharam as paredes da academia após a vinda da equipa de futebol de Munique. Só que um dirigente (e, já agora, um ex-conselheiro presidencial, que anda metido, desavergonhadamente, nestas coisas ) não tem que ser igual a um adepto. Se assim fosse na sociedade, voltariam naturalmente as fogueiras, ou, pelo menos, os linchamentos públicos. Tenham vergonha.
segunda-feira, março 23, 2009
ainda o jogo
O jogo de ontem continua hoje. Em Portugal é assim. O Benfica já meteu o FCP ao barulho, afirmando que está de conluio com o Sporting para desacreditar o clube da Luz. Estas pessoas não sabem que todo este barulho à volta deste jogo, à volta de um erro normal de um árbitro (quantos árbitros, nos vários campeonatos do mundo, não tomariam a mesma decisão que Lucílio Baptista) só desacredita o futebol português. É verdadeiramente estonteante ouvir estes senhores, que acham normal, por exemplo (e refiro-me agora ao Sporting) que um jogador atire, já depois de um certo tempo passado, com a medalha para o chão. Isto é tão simples como isto: se por acaso não tivesse havido aquele lance e o jogo terminasse com os penalties, como terminou, todos diriam que o árbitro até fez uma boa exibição. Por outro lado, tudo isto é também revelador da importância pacóvia e deslustrada que os três grandes clubes adquiriram ao longo de décadas de hegemonia. Alguém de bom senso pensa que tudo isto aconteceria com o Estrela da Amadora?
domingo, março 22, 2009
um jogo de futebol
É verdadeira e patologicamente extraordinário, tendo como ponto de partida o grau de sanidade mental de um povo, o que um jogo de futebol representa para essa mesma grande massa populacional. Vi agora uma coisa extraordinária, que deveria envergonhar a estação de televisão SIC. Refiro-me à abertura do Telejornal da estação com uma entrevista com o árbitro que apitou o jogo da final da taça da liga. Como se não bastasse os comentários paranóicos dos dirigentes, jogadores e treinadores (o presidente do Sporting chegou mesmo a afirmar que nunca mais falava com o Lucílio Batista), a mediocridade grassa também nas televisões. E digo televisões porque tenho a certeza que tanto TVI como a RTP se portariam do mesmo modo, se tivessem sido eles a passar o directo do jogo. Nisto tudo, ninguém consegue ver o óbvio: tão grave como a marcação pelo árbitro do jogo de um não penalti é a não marcação de um penalti por um jogador. E eu vi, no final, uma série deles falhados.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
