Diz-se que José Sócrates não tem culpa da família que tem. E é verdade. Nem Sócrates nem ninguém devem responder por actos menos próprios ou criminosos de familiares. É claro que esta tese, óbvia no seu articulado, vai ao encontro de uma tentativa de desresponsabilização do primeiro-ministro no caso Freeport. A questão coloca-se, também, em relação aos amigos que temos.Neste sentido, Cavaco Silva também não tem culpa dos amigos que tem. Fica-lhe, aliás, bem, defender Dias Loureiro no caso BPN. Acontece que Dias Loureiro não é só amigo de Cavaco Silva. É também Conselheiro de Estado. Ademais, o ex-ministro da Administração Interna foi nomeado, legitimamente, para este órgão político por Cavaco Silva, seu antigo chefe de governo. Sendo o Conselho de Estado um órgão de consulta política do Presidente da República, não vejo, sinceramente, condições para que Dias Loureiro seja sua parte integrante. Imaginemos que Cavaco Silva reúne o Conselho de Estado por motivos que estejam ligados à actual crise económica em Portugal. Ora, a inevitabilidade de se falar da nacionalização do BPN, das ajudas ao BPP e à banca em geral, é apenas um exemplo da incoerência que se atesta na permanência de Dias Loureiro neste órgão. Para além disso, as últimas notícias sobre o BPN são graves, pois configuram falsas declarações numa comissão de inquérito da Assembleia da República. E mesmo a resposta à confrontação das notícias publicadas este fim-de-semana pelo Expresso, não abonam em nada Dias Loureiro. Ele diz (agora) cândida e alheadamente, isto: "não me lembro dos contratos, posso ter assinado, se vocês o dizem, mas não tenho memória. Foram dois actos isolados".
De facto, Cavaco Silva fica também muito mal na fotografia. Se juntarmos a isto o ex-presidente do BPN, Oliveira e Costa, homem outrora da confiança do presidente, Cavaco fica não só muito mal, com se arrisca a ser o primeiro presidente da terceira República a não ser reeleito.
(publicado no Público, em 17/02/09)
sábado, fevereiro 14, 2009
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
bpn
Sou sincero: ainda não consegui ouvir uma explicação clara, inequívoca, transparente, do governo sobre a razão por que não deixou falir o BPN. Ou melhor: que mal viria ao mundo ou a Portugal se o banco falisse? Objectivamente, não ficaria mais barato a todos nós?
Uma outra questão relacionada com a banca: será que vamos continuar a ver, por parte da hipócrita banca portuguesa, contratos publicitários milionários a jogadores e treinadores de futebol? Será que isto não é parte integrante do descalabro? Ou, por outras palavras, a moral, a ética - ou falta delas - não é também isto?
Uma outra questão relacionada com a banca: será que vamos continuar a ver, por parte da hipócrita banca portuguesa, contratos publicitários milionários a jogadores e treinadores de futebol? Será que isto não é parte integrante do descalabro? Ou, por outras palavras, a moral, a ética - ou falta delas - não é também isto?
sócrates e o debate parlamentar
José Sócrates não pode, sistematicamente, comportar-se como uma virgem ofendida e pretensamente pudibunda sempre que lhe são colocadas questões objectivamente embaraçosas. Ainda para mais quando a esfera do político não é, nitidamente, ultrapassada.
a negociação
O secretário-geral da Fenprof, à saída de uma reunião com Jorge Pedreira, Secretário de Estado da Educação, proferiu a seguinte frase: "o Ministério pode admitir retirar a designação das categorias [de professor e professor titular], mas acabar com elas não está em cima da mesa". Será verdade? "Admitir retirar a designação das categorias..." Mas o que verdadeiramente quer isso dizer? Dar-lhes outra nomenclatura? É assim que esta gente pensa a educação?
terça-feira, fevereiro 10, 2009
a insustentável leveza do paradoxo
Já deu para perceber há muito que a equipa ministerial que tutela a educação no país anda numa espécie de rodopio argumentativo. De facto, são muitos e bons os exemplos: o Estatuto da Carreira Docente, a artificialíssima divisão dos professores em titulares e não titulares, o Estatuto do aluno, a incongruente avaliação dos professores, os sintomas de inconstitucionalidades de muitas medidas, as provas de ingresso para a carreira docente. É, pois, neste último aspecto que tenciono imobilizar-me.
Como se sabe, está projectado uma prova de ingresso para quem quer seguir a carreira docente. Neste sentido, passará a não ser suficiente o curso profissionalizante (via ensino, portanto) que os recém-licenciados - presume-se com sacrifício -, conquistaram. Estas pessoas passarão, assim, a candidatos a candidatos, pois terão que tirar uma nota não inferior a 14 valores para se candidatarem à carreira. Obviamente, este ponto revela, simplesmente, uma desconfiança verdadeiramente perversa das instituições de ensino superior. Daí que não possa concordar totalmente com Carlos Reis (o coordenador utópico dos novos programas do Ensino Básico de Língua Portuguesa), quando advoga a falta de qualidade de muitos professores, direccionando a culpa para algumas escolas superiores. Na verdade, se existem (e estou em crer que sim), essas escolas devem ser, pura e simplesmente, fechadas. Agora, obrigar licenciados a fazer uma espécie de prova de vida (é da vidinha que se trata...) revela-se, no mínimo, insensível. Mas vamos ao ponto que quero focar.
Trata-se do principal requisito para a realização da prova: ter menos de cinco anos de serviço. Muito bem (ou muito mal, depende das situações de cada um). Os outros - os que têm cinco ou mais anos de serviço docente -, estão desobrigados da realização da prova. E porquê? Porque, implicitamente, o ministério admite que estes professores conquistaram já um know how suficientemente ampliado que lhes permite uma capaz laboração docente. É, no fundo, "o saber de experiência feito" que evocou Camões, em oposição com o tópico, também glosado por muitos poetas, da inexperiência ou ingenuidade dos verdes anos.
Todavia, existe aqui matéria para discussão: o que fazer com os professores com cinco, seis, sete, oito, nove, dez... anos de serviço? São já professores ou são ainda candidatos a professores? É que, num sentido lógico-argumentativo (que parece não existir muito para os lados da 5 de outubro), os professores com mais de cinco anos de serviço deveriam estar já integrados na carreira docente. Até porque é o próprio ministério a assumir implicitamente o facto: se estão de fora desta exigência processual é porque já são professores. Ora, como sabemos, isto não se passa. Há professores que são contratados há anos infindáveis. Penso que muitos deles já estarão a fazer as contas à reforma. E não estou a brincar.
Como se sabe, está projectado uma prova de ingresso para quem quer seguir a carreira docente. Neste sentido, passará a não ser suficiente o curso profissionalizante (via ensino, portanto) que os recém-licenciados - presume-se com sacrifício -, conquistaram. Estas pessoas passarão, assim, a candidatos a candidatos, pois terão que tirar uma nota não inferior a 14 valores para se candidatarem à carreira. Obviamente, este ponto revela, simplesmente, uma desconfiança verdadeiramente perversa das instituições de ensino superior. Daí que não possa concordar totalmente com Carlos Reis (o coordenador utópico dos novos programas do Ensino Básico de Língua Portuguesa), quando advoga a falta de qualidade de muitos professores, direccionando a culpa para algumas escolas superiores. Na verdade, se existem (e estou em crer que sim), essas escolas devem ser, pura e simplesmente, fechadas. Agora, obrigar licenciados a fazer uma espécie de prova de vida (é da vidinha que se trata...) revela-se, no mínimo, insensível. Mas vamos ao ponto que quero focar.
Trata-se do principal requisito para a realização da prova: ter menos de cinco anos de serviço. Muito bem (ou muito mal, depende das situações de cada um). Os outros - os que têm cinco ou mais anos de serviço docente -, estão desobrigados da realização da prova. E porquê? Porque, implicitamente, o ministério admite que estes professores conquistaram já um know how suficientemente ampliado que lhes permite uma capaz laboração docente. É, no fundo, "o saber de experiência feito" que evocou Camões, em oposição com o tópico, também glosado por muitos poetas, da inexperiência ou ingenuidade dos verdes anos.
Todavia, existe aqui matéria para discussão: o que fazer com os professores com cinco, seis, sete, oito, nove, dez... anos de serviço? São já professores ou são ainda candidatos a professores? É que, num sentido lógico-argumentativo (que parece não existir muito para os lados da 5 de outubro), os professores com mais de cinco anos de serviço deveriam estar já integrados na carreira docente. Até porque é o próprio ministério a assumir implicitamente o facto: se estão de fora desta exigência processual é porque já são professores. Ora, como sabemos, isto não se passa. Há professores que são contratados há anos infindáveis. Penso que muitos deles já estarão a fazer as contas à reforma. E não estou a brincar.
Uma palavra para os sindicatos. Este tipo de problemas, por configurar aspectos de uma abrangência humana inquestionável (dignidade social e profissional, em suma, humana), deveria estar no topo piramidal das preocupações das associações sindicais. Com efeito, desde há muito que os nossos sindicalistas olham de mais para o umbigo e muito pouco para o que fica de fora dessa relação umbilical. O que não está certo. Mesmo que se defendam no ultrajante e inapropriado argumento da prioridade protestatória.
(publicado no Sol em 14/02/2009 e no Público em 15/02/2009)
domingo, fevereiro 08, 2009
rtp
Os primeiros quinze minutos do Telejornal das 13 horas, na RTP, foram dedicados ao futebol. Depois, vieram os despedimentos na Corticeira Amorim e outros protestos laborais e sociais. A televisão pública não pode - não deve - ser um dos principais promotores de uma imbecilização cada vez mais recorrente. Na verdade, esta imbecilização não se enquadra somente a este tipo de exemplo noticioso. Os restantes programas, designadamente os chamados de entretenimento, parece estarem na incumbência exclusiva de personalidades como João Baião, Malato, e outros que não recordo o nome. Para esta não-existência, vale mais não existir. Verdadeiramente.
sábado, fevereiro 07, 2009
amorim
Só mesmo os mais obstinados crentes do neo-liberalismo não concordarão. Acontece que o homem mais rico de Portugal não pode despedir, neste tempo histórico em que vivemos, 195 trabalhadores das suas empresas de cortiça. É imoral e ultrajante.
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