quarta-feira, dezembro 31, 2008

os bancos

Recebi, como é normal todos os meses, uma carta do banco com o extracto mensal dos débitos e dos créditos. Só que, desta vez, o quadro contabilístico vinha acompanhado com uma espécie de comunicado, avisando com seriedade o cliente que, a partir de agora, uma conta a descoberto vai ser taxada com uma multa diária à ordem de vinte euros por dia. Todo o teor da carta era mais ou menos assim, notando-se, em cada palavra, em cada linha, em cada letra impressa um ajuste de contas com a vida. Tenho pena de a ter remetido para o lixo, apesar de ser o lugar onde melhor se enquadra. Mas tenho a certeza que no próximo mês os mesmos caracteres aparecerão, circunspectos, na minha caixa de correio. O que verdeiramente me espanta é o meu espanto na leitura da missiva. Pensava que os senhores dos bancos tinham ainda um pouco de vergonha na cara. Ou nas montras.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

o não caos nos hospitais

A ministra Ana Jorge rejeitou a ideia que se viveu, em alguns hospitais, um caos. Refere mesmo, desassombrada, que "houve uma excelente resposta de todos os serviços de saúde". Confesso que nunca esperei doze horas numa urgência para ser atendido. Mas a ideia que eu tenho de entropia não anda muito longe do que milhares de pessoas viveram nestes últimos dias em redor de (algum) sistema hospitalar português.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

um pouco de ideologia (actualizado)

José Sócrates falou de improviso num seminário promovido pelo Diário Económico que tinha como tema "Como crescer em tempo de crise". Foi, talvez, uma das peças de cariz mais ideológico do primeiro-ministro. Na verdade, essa marca ficou desde logo patente no início da sua intervenção quando, desassombradamente, referiu que "é preciso agir sem ortodoxia e sem ideias feitas", adiantando que "é preciso estar com a mente aberta para responder aos problemas e não para responder às necessidades da nossa ideologia. Precisamos de ter mente aberta e não ficarmos reféns da ideologia ou das respostas clássicas, porque problemas novos exigem respostas novas". Acusou ainda, de modo implícito, todos os outros – os que são incapazes de mergulhar nesta sua visão – de estarem presos a amarras do passado, que mais não são do que teias de aranha condicionadas por sistemas ortodoxos do pensamento.
Esta reflexão um tanto silogística do primeiro-ministro revela, mais do que tudo, um tipo de político que tem grassado nos últimos anos na atmosfera da realpolitik europeia. Com efeito, é este tipo de "homem novo" (hodierno) que faz com que olhemos, por exemplo, para José Sócrates e Durão Barroso e não consigamos vislumbrar uma qualquer linha de orientação diferenciadora, pois é como se os dois tivessem saído da mesma linha de montagem. É também esta idiossincrasia que apazigua certos paradoxos discursivos e decisões contraditórias. No caso de Barroso, o facto de ter “dado à sola” dois anos após ter sido mandatado pelo povo português para liderar um governo revela, antes de tudo, o quanto é que o cargo representava para o actual presidente da Comissão Europeia. No que diz respeito a José Sócrates, absovem-se-lhe certos dislates dedutivos, como quando referiu, em início de Dezembro, que 2009 será um bom ano para os portugueses (“vão ganhar poder de compra como não ganhavam há muitos anos”) e, passados quinze dias, sublinhou que, afinal, 2009 vai ser “o Cabo das Tormentas, um ano difícil e exigente”. É, pois, esta casta de políticos, que foge de um qualquer assomo de ideologia política como o diabo foge da cruz. Tudo em nome do chamado pragmatismo político, da acção, que mais não é, afinal, do que uma certa hipocrisia que tem como base a sustentação no poder a todo o custo, ou, até ver, até onde o sistema democrático o permitir. Mas é esta mesma filosofia que, paradoxalmente, torna incapaz o governo de protagonizar acordos interpartidários (em comissões parlamentares, por exemplo) a respeito de causas tão prolongadas no tempo como a educação (serve, igualmente, de exemplo). Tudo em nome, afinal, do tal pragmatismo, da não entronização das “respostas clássicas” que frisava José Sócrates. Mas não contemplo, em matéria política, nada mais “clássico” do que este tipo de procedimento.
E é esta plataforma humana que liderou os destinos da humanidade nos últimos decénios. São os mesmos, agora, que são incapazes de alinhavar um entendimento diacrónico do percurso avassalador duma economia de costas voltada para o ser humano. Por isso, andam agora perdidos. E, à míngua de ideologia, querem respostas para amanhã. E nisso eles são bons. O amanhã que se recria constantemente. Até um dia.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes em 01/01/09)

terça-feira, dezembro 16, 2008

santana candidato

Ser Santana Lopes o candidato de Manuela Ferreira Leite para a Câmara de Lisboa merece comentário. Confesso que sempre pensei que a líder do PSD aguentasse este ímpeto vertiginoso. Mas enganei-me. Santana, claro, começou logo por nos brindar com declarações destas: "É um desafio que abraçarei com todas as energias. É uma honra que aceito com todo o empenho e um combate que farei com toda a determinação, lutando pela vitória nas eleições, mas falarei sobre o assunto quando entender que é a altura certa". Quinta-feira serei um dos espectadores atentos da Quadratura.

a prisão de mário soares

Sei que Mário Soares não é dado a pessimismos crónicos. Sei também que deu uma grande lição de humildade quando se candidatou às últimas eleições presidenciais e perdeu. O que não entendo é como, num dia, avisa os críticos (internos) de José Sócrates, salientando a vacuidade dos seus reparos para, logo no dia seguinte, escrever isto: "a crise aprofunda-se e generaliza-se. Os Estados desviam milhões, que vêm directamente dos bolsos dos contribuintes, para evitar as falências de bancos mal geridos ou que se meteram em escandalosas negociatas. Será necessário. Mas o povo pergunta: e as roubalheiras, ficam impunes? E o sistema que as permitiu – os paraísos fiscais –, os chorudos vencimentos (multimilionários) de gestores incompetentes e pouco sérios, ficam na mesma? E os auditores que fecharam os olhos – ou não os abriram suficientemente – e os dirigentes políticos que se acomodaram ao sistema, não agiram e nem sequer alertaram, continuam nos mesmos lugares cimeiros, limitando-se a pedir, agora, mais intervenções do Estado, com a mesma desfaçatez com que antes reclamavam "menos Estado" e mais e mais privatizações?"
Será que o ex-presidente da República não entende que esta sua linha de pensamento vai ao encontro do que foi, por exemplo, o paradigma analítico que constituiu o recente fórum da esquerda, em que Manuel Alegre marcou uma presença assinalada?
Parece que Mário Soares se encontra numa espécie de prisioneiro da sua própria deliberação, a partir do momento em que aceitou ser candidato presidencial pelo Partido Socialista. Neste sentido, José Sócrates jogou e ganhou, ao agrilhoar o expansionismo crítico do fundador do Partido Socialista.
Neste sentido, só nos resta esperar que Mário Soares, objectivamente, se decida. É que não chega proclamar – e bem! – uma maior justiça social (a todos os níveis) para depois se colocar ao lado de um governo que pouco ou nada tem a ver com isso. Aliás, o fórum das esquerdas surgiu num governo de esquerda. Não é sintomático?

mais uma oportunidade perdida

Esta crise deveria ser aproveitada para um desenvolvimento sustentado do país. No entanto, não me parece que a aposta do governo vá ao encontro desta perspectiva. Faz parte da nossa idiossincrasia, enquanto nação, o não aproveitarmos certas conjunturas económicas. Foi assim com os Descobrimentos, o ouro do Brasil e, na nossa contemporaneidade, a entrada na CEE. Agora o dinheiro escasseia, como é óbvio, mas um conjunto de empreendimentos se anuncia. Porém, não se trata de um conjunto de empreendimentos. Deveria antes ter escrito: um punhado de grandes obras públicas. O adjectivo torna-se, pois, necessário para caracterizar a aposta do governo no relançamento da economia. Não quero aqui esboçar uma crítica ao paradigma de sustentação económica. O mundo ocidental encontra-se nele mergulhado, como se mais nenhuma alternativa houvesse. Na verdade, o que aqui merece comentário crítico tem a ver, essencialmente, com uma gestão preconceituosa dos dinheiros públicos, os quais deveriam existir enquanto verdadeiros fundos de coesão nacional. Por que razão a aposta não é, definitivamente, na homogeneização do território nacional, enquanto país com índices de desenvolvimento desiguais? Mantinha-se o tradicional desígnio nacional das obras públicas, só que com uma grande diferença: deixava-se a fobia do TGV, do aeroporto, da "auto-estrada da justiça", para apostarmos em salas de aulas adequadas, em hospitais condignos, em tribunais remodelados, em passeios aprimorados, em estradas aperfeiçoadas, em caminhos-de-ferro relançados, em cidades equilibradas, etc.
Mas os nossos governantes nunca gostaram de micro-empreendimentos. Pensam tudo em grande. Gostam de deixar assinatura. É por isso que sabemos que foi D. João V que mandou construir o Convento de Mafra, D. Manuel I o Mosteiro dos Jerónimos, o Mosteiro da Batalha por D. João I (com a ajuda divina da Batalha de Aljubarrota), a Ponte 25 de Abril, outrora Salazar, por...Salazar, o Centro Cultural de Belém por Cavaco Silva, e por aí adiante. Aliás, não é menos verdade que muitas vezes uma espécie de cognome se cola aos responsáveis maiores de um período histórico específico (muitas vezes também num processo identitário de auto-designação): o das auto-estradas, o do túnel, etc.
No entanto, é curioso verificar como se ganham eleições com este tipo de (des)sustentação económica. Daí a questão: será que não merecemos este tipo de políticos?

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes em 24/12/2008)

terça-feira, dezembro 09, 2008

a proposta de guilherme silva

Li por acaso a extraordinária proposta do não menos extraordinário deputado do PSD (eleito pelo círculo eleitoral da Madeira), que consiste em acabar com as sessões plenárias às sextas-feiras. Há coisas que não se devem dizer, principalmente numa altura destas. Guilherme Silva não tem, pois, nenhum tacto político. Vejamos a justificação dada: "é preciso perceber que o Parlamento tem uma representação de deputados de todo o país [e que] a deslocação dos deputados para regressarem aos fins-de-semana às suas famílias tem uma componente humana que também é respeitável". Eu aplaudo, desde já, Guilherme Silva. Não sei bem porquê, mas tem o meu mais comovido aplauso.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...