terça-feira, dezembro 09, 2008

o ordenado de vítor constâncio e os outros

Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal, pode, orgulhosamente, colocar-se sem ser em bicos de pés ao lado dos seus homólogos europeus. De facto, o seu ordenado em nada fica atrás aos deles, ultrapassando mesmo alguns presidentes de bancos centrais, com um nível de vida objectivamente superior ao nosso. E é precisamente neste ponto que importa reflectir. Na verdade, os ordenados dos chamados dirigentes de topo das empresas públicas (directores gerais, etc.) - e mesmo da classe política - não ficam nada a dever aos seus congéneres europeus. O que realmente se encontra a léguas dos países mais desenvolvidos da União é o ordenado médio e... mínimo. Basta comparar.

a auto-estrada da justiça

Auto-estrada da justiça é a denominação que José Sócrates aprontou para a auto-estrada que vai ligar Amarante a Bragança. Este tipo de nomenclatura diz muito mais a respeito do homem do que da obra. De facto, José Sócrates já nos habituou a estes desvarios próprios de um qualquer empresa de publicidade ou, no mínimo, de um qualquer técnico de marketing. Talvez seja o relacionamento profundo e prolífico com as chamadas agências de comunicação o principal culpado destes devaneios simbólicos.
No seguimento da imagística metafórica criada pelo primeiro-ministro, li outro dia, no Diário de Notícias, um excelente artigo (não sei o nome da autora nem o dia da edição), em que se faz uma oportuna reflexão sobre o nosso mapa de estradas e auto-estradas. A autora chega à conclusão que há, em Portugal, auto-estradas em excesso. De facto, basta um olhar atento para o recorte de um mapa de estradas actualizado e verificamos que muitas das auto-estradas não são mais do que acumulações de erros de planeamento. Dou uma ajuda: na zona do Oeste podemos encontrar as seguintes auto-estradas: A1, A25, A13, A10, A15, A23. Tudo numa extensão geográfica diminuta. Agora, chega finalmente a Trás-os-Montes, para gáudio daqueles autarcas sonhadores, a esperança dum caminho mais célere e vistoso para Lisboa.
Porém, estas idealidades, implausíveis, fazem com que sejamos, ao nível da União Europeia, um dos países com maior número de auto-estradas. Vejamos alguns dados, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico:
Na UE a 25, Portugal tem uma média de auto-estradas por rede viária de 2,3% – muito acima dos 1,2% da média (é o terceiro valor mais elevado, depois da Espanha e Luxemburgo); a União Europeia tem 13 km de auto-estradas por 100 mil habitantes, quando Portugal tem 17 km; por cá existem 20 km de auto-estrada por 1000 km2 do país, enquanto a média da UE são 15 km; Portugal foi o segundo país que desde 1990 e até 2006 registou a maior expansão na rede; é também o segundo país com mais quilómetros (8,3 km) por mil milhões de dólares de PIB, apenas ultrapassado pelo Canadá.
Tudo isto faz-nos naturalmente reflectir sobre o país que temos e que queremos. Tudo isto coexiste com – pasme-se! – o mau estado das estradas (nos gastos com manutenção, caímos para 10.º lugar, com 177 milhões de euros!...), com salas de aulas apinhadas de alunos, com escolas sem condições didácticas plenas, com salas de espera de hospitais miseráveis, com deputados que faltam muito às sextas feiras, etc. etc. etc.
Deste modo, o que se prevê, na aspiração legítima da superação da crise económica que já grassa entre nós, é mais uma oportunidade perdida. Não que a receita (previsível, aliás) em obras públicas esteja errada. O que me parece desacertado é não se aproveitar todas as sinergias para modernizar efectivamente o país. E esta modernização dever-se-ia enquadrar não nos vistosos TGV’s e aeroportos, mas antes nas pequenas empreitadas que alinhariam Portugal nos países verdadeiramente civilizados.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes em 18/12/2008)

segunda-feira, dezembro 08, 2008

a honradez do cargo de deputado

Registo somente o parecer de Regina Bastos, vice-presidente da bancada do PSD. Afirma a deputada que o papel de deputado não se compadece com sanções pecuniárias", face à horadez e dignidade do cargo.
Naturalmente que sim, pois os deputados representam, na chamada "casa da democracia", o povo português e, só esse facto, lhes confere uma dignidade sem paralelo relativamente a outros cargos representativos. Acontece que estão mal habituados. E o que se passou recentemente com as faltas dos deputados do PSD em número suficiente para fazer passar uma lei votada no Parlamento (a suspensão dos professores, imagine-se!), revela bem o nível dos nossos representantes. É que estes senhores,segundo rezam as crónicas internas do PSD, foram previamente avisados da importância da votação. Mesmo assim, preferiram baldar-se, esquecendo-se que também representam muitos milhares de professores que acreditaram nas suas representações.

sábado, dezembro 06, 2008

a independente elisa ferreira

Elisa Ferreira discursa neste momento na televisão, numa entrevista ao canal 2 e à Rádio Renascença. Confesso que me está a desiludir um pouco. É uma personagem simpática, mas não consegue sair duma certa anemia intelectual. Por exemplo, não conseguiu explicar por que se candidata a deputada ao Parlamento Europeu e a presidente da Câmara do Porto; espalha-se quando disserta sobre o que é ser de esquerda hoje em dia; não entende a educação e esboça umas críticas aos professores grosseiras, do tipo "os professores faltavam e não lhes acontecia nada" (ai o Parlamento Europeu...). Mas o que me espantou verdadeiramente é a capacidade que os independentes têm de se transfigurarem, ao ponto de serem os primeiros a defenderem o partido que não têm. Jorge Coelho nunca gostou de independentes dentro da máquina partidária. Lá tinha as suas razões.

as ausências e paulo rangel

Curiosas são também as declarações de Paulo Rangel, presidente do grupo parlamentar do PSD, ao afirmar que "os números decisivos foram os do PS" e não, como deixou implicitamente sublinhado, as três dezenas de deputados do seu partido que não compareceram à votação. Paulo Rangel defende-se de forma angélica, partindo do pressuposto que se todos os deputados estivessem presentes, o diploma do CDS-PP – pedindo a suspensão do modelo de avaliação dos professores – naturalmente não passaria, visto que a maioria absoluta mora, como sabemos, no lado do Partido Socialista. Acontece que, mesmo com 121 deputados que fazem parte do partido do governo, o PSD ainda conseguiu marcar mais ausências do que o PS: 30 a 13.
Mas o que se torna revelador, no meio disto tudo, é a forma hipócrita como os responsáveis políticos olham para os problemas da população em geral e, neste caso, para a avaliação dos professores. É que eu vi, como todos os portugueses viram, muitos dos principais líderes da oposição, designadamente do PSD, exigirem a suspensão deste processo de avaliação. Ora, quando, finalmente, existe uma proposta partidária – neste caso, do CDS –, a qual, ao nível do Parlamento, podia efectivamente suspender todo este imbróglio, os senhores deputados (que representam o povo português, convém sempre sublinhar esta verdade teórica) não compareceram à votação do diploma. No meio de tudo isto, Manuela Ferreira Leite chamou Paulo Rangel para lhe pedir esclarecimentos, frisando que este triste acontecimento jamais se poderá repetir. Acontece que "este triste acontecimento" não é virgem na história recente do parlamentarismo português. De facto, situações como esta já decorreram por várias vezes e o resultado tem sido, invariavelmente, sempre o mesmo: "isto não pode tornar a acontecer". Mas acontece e acontecerá, enquanto não tivermos, ao nível dos senhores que se sentam naquelas cadeiras da Assembleia da República, um verdadeira representação democrática do povo português.

a suspensão por um fio

Ao que parece, foi mesmo verdade que a suspensão da avaliação dos professores não ocorreu hoje no Parlamento porque faltaram trinta deputados do PSD. Quer isto dizer que também não compareceram não sei quantos do PS. Tudo isto revela a distância entre o ser e o parecer. Afinal, não anda o PSD a proclamar o fim desta pseudo-reforma da educação? E o PS? Não deseja o contrário? E não aparecem à votação?!...

quinta-feira, dezembro 04, 2008

os ajudantes da ministra

Um diz que uma greve de quase 100% de adesão não ultrapassou os 61% e que estes foram, apesar de tudo, significativos; outro interpreta mal as palavras que a ministra proferiu na Assembleia da República, quando esta admitiu um novo modelo de avaliação.
De facto, o clima para os lados do Ministério da Educação adensa-se de forma incontornável. Mas vale a pena colocar uma questão: a quem serve este clima de guerrilha? Resposta provável: a José Sócrates. Lá para Janeiro, com o cheiro das eleições a aflorar, o nosso primeiro vai desbloquear, admiravelmente, a situação.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...