segunda-feira, outubro 13, 2008
a crise
Não se ouve, por parte dos ministros das finanças ou dos primeiros-ministros dos diferentes países europeus, uma palavra que oriente o sistema capitalista - o que precisamente originou esta paisagem cadavérica e que já se alastrou para a economia - para a mudança. Pelo contrário, o que as sucessivas e quase alucinantes reuniões (que se desenrolam a um ritmo verdadeiramente vertiginoso) evocam resume-se, basicamente, a um apoio unidireccional à banca, na esperança que esta consiga, finalmente, sair duma falência irrevogável. Quanto à ética, à moral que devem reger o capitalismo financeiro, nem uma palavra. É certo que as crises parecem cíclicas, mas também é certo que, agora, o cíclico económico deixou de o ser, originando uma continuidade que, naturalmente, há de chegar a um fim.
domingo, outubro 12, 2008
A erc e as televisões
Antigamente, chamava-se Alta Autoridade para a Comunicação Social, sem dúvida um nome pomposo; agora, mais modesto, denomina-se Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC). Os portugueses em geral, nos quais eu me incluo, não davam pela existência de tão nobre e útil entidade, não fora algumas fugazes aparições noticiosas envolvendo, invariavelmente, os responsáveis da instituição. A última diz respeito ao chamado "dossiê Sócrates", em que o primeiro-ministro aparece como autor de uma frase, considerada - e bem! - como uma forma de pressão ilegítima sobre o livre e democrático funcionamento dum jornal, neste caso específico, o Público. Sócrates teria proferido, assim, seca e atabalhoadamente, digna de um filme de "mafiosos convictos" de classe B, a seguinte frase ao director do jornal, José Manuel Fernandes: "Fiquei com uma boa relação com o seu accionista [Paulo Azevedo, presidente do grupo Sonae, proprietário do periódico] e vamos ver se isso não se altera". Ora, conforme posteriormente se veio provar, nem o director do Público relatou esta extraordinária frase aos inquiridores da ERC, nem o primeiro-ministro a pronunciou. Tudo não passou de um lamentável erro, "de uma troca", segundo disse a Entidade Reguladora. Mais: Azeredo Lopes, que é o presidente da coisa, foi espevito a apontar o dedo arguidor a um pobre funcionário, que se "esqueceu de gravar o depoimento" de José Manuel Fernandes. Tudo isto está, obviamente, mal contado. E o que torna também esta miscelânea interessante é o facto de nenhum partido com assento parlamentar não ter exigido um célere e sério processo de investigação em torno do que, de facto, aconteceu. Limitaram-se a lamentar o sucedido, como aliás, fez, Azeredo Lopes.
Ora, o que eu verdadeiramente penso, não a respeito desta trapalhada, mas antes a respeito da ERC, é que ela não serve para nada. De facto, se tivermos em consideração que o objectivo primeiro da instituição é a "regulação e supervisão de todas as entidades que prossigam actividades de comunicação social em Portugal", não é difícil chegar à conclusão que a ERC é um vazio desalentado na regulação das "actividades de comunicação". Basta perdermos dois ou três dias e analisar as televisões. Na verdade, medidas tão simples como as regulações da publicidade entre os filmes (é praticamente impossível ver um filme numa das três televisões de canal aberto, em Portugal), das grelhas muitas vezes descabidas dos telejornais (quando abrem, por exemplo, com os 150 milhões de euros do Cristiano Ronaldo, deixando quase como nota de rodapé, um atentado no Iraque que causou dezenas de mortos) e/ou as durações demasiado excessivas dos mesmos, com publicidade (muitas das vezes desesperantemente longas) em simultâneo nos três canais, contribuiria para que se fundamentasse o propósito fundador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Até porque estas medidas não faziam mais do que obrigar as televisões a respeitar, antes de tudo, o consumidor, isto é, o público. Mantendo-se o caos televisivo, um simples agendamento de um qualquer programa, um filme, por exemplo, revela-se uma tarefa impossível em qualquer lar do país. A não ser que se tenha acesso aos canais por cabo.
Ora, o que eu verdadeiramente penso, não a respeito desta trapalhada, mas antes a respeito da ERC, é que ela não serve para nada. De facto, se tivermos em consideração que o objectivo primeiro da instituição é a "regulação e supervisão de todas as entidades que prossigam actividades de comunicação social em Portugal", não é difícil chegar à conclusão que a ERC é um vazio desalentado na regulação das "actividades de comunicação". Basta perdermos dois ou três dias e analisar as televisões. Na verdade, medidas tão simples como as regulações da publicidade entre os filmes (é praticamente impossível ver um filme numa das três televisões de canal aberto, em Portugal), das grelhas muitas vezes descabidas dos telejornais (quando abrem, por exemplo, com os 150 milhões de euros do Cristiano Ronaldo, deixando quase como nota de rodapé, um atentado no Iraque que causou dezenas de mortos) e/ou as durações demasiado excessivas dos mesmos, com publicidade (muitas das vezes desesperantemente longas) em simultâneo nos três canais, contribuiria para que se fundamentasse o propósito fundador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Até porque estas medidas não faziam mais do que obrigar as televisões a respeitar, antes de tudo, o consumidor, isto é, o público. Mantendo-se o caos televisivo, um simples agendamento de um qualquer programa, um filme, por exemplo, revela-se uma tarefa impossível em qualquer lar do país. A não ser que se tenha acesso aos canais por cabo.
a raça
Mais um contributo de Cavaco Silva, desta vez em Aljubarrota, para a evocação da "raça portuguesa": "soubemos vencer. É com esse espírito que temos de enfrentar as adversidades da hora presente". No ano de 1139, em Ourique, foi, segundo diz a lenda, a ajuda divina que fez com que Afonso Henriques se tornasse, efectivamente, rei de Portugal. Só espero que o nosso presidente, aquando de uma inauguração qualquer para essas bandas, não se lembre de evocar a predestinação (sacrossanta) de Portugal.
sábado, outubro 11, 2008
a crise e os culpados
Ainda em relação ao post anterior, eu não defendo a liberalização total dos mercados, como pode parecer, quando afirmo que se deve deixar afundar quem tem de se afundar (salvaguardando, naturalmente, os trabalhadores, principalmente aqueles que não têm culpa no cartório). Isso é conversa para o Pedro Passos Coelho e o António Borges do PSD, os quais ainda não perceberam que esta coisa da economia (que no entender deles é igual a mercado) à frente da política só pode resultar naquilo que se está vendo. O que eu singelamente proponho é que se imputem as culpas aos verdadeiros responsáveis. E estes, felizmente, não se escondem (honra lhes seja feita), como se verifica nas celebrações de desagravo que por essa Europa fora têm vindo a ser efectuadas. A última teve lugar num dos melhores restaurantes do Mónaco (o restaurante do Hotel Paris-Monte Carlo, o Louis XV) e teve a cargo dos executivos da divisão de seguros do banco Fortis. Parece que a jantarada custou mais ou menos 150 mil euros.
sexta-feira, outubro 10, 2008
a crise e os planos
Pelo andar da carruagem, não há planos salvíficos que orientem o mercado financeiro para o paraíso ou, na melhor das hipóteses, na direcção da retoma, seja lá o que isso verdadeiramente for. Daí que o meu humilde conselho se baseie no seguinte: ou nacionalizam tudo ou deixam afundar quem tem de se afundar. Afinal, sabemos todos quem são os culpados. Agora andar a esmolar aqui e ali, recebendo milhares de milhões de euros (a nacionalização dos prejuízos que falava Mário Soares) para ver se a coisa se endireita não é, a meu ver, solução para nada. É que estas pessoas da alta finança não conseguem aprender, como se viu com a ajuda que a seguradora AIG recebeu. Com efeito, os executivos da empresa resolveram comemorar a fuga à falência com um fim-de-semana de luxo (spa's, resort's, etc.) no qual gastaram qualquer coisa como 440 mil dólares. É sempre bom que a orquestra continue a tocar, pensarão alguns.
a crise e as opções do governo
Afinal, ao contrário que o Governo advoga, a crise financeira e económica origina alguns adiamentos programáticos. É o caso, por exemplo, da 4º fase da privatização da GALP. No entanto, quando o que está em cima da mesa são as obras públicas, o discurso é visto por outro prisma, isto é, o da campanha eleitoral do próximo ano.
quarta-feira, outubro 08, 2008
acabou o tempo da prosperidade
Não posso deixar de sublinhar a melhor intervenção de hoje no Parlamento e que teve a cargo de Jerónimo de Sousa. Tudo a propósito das infelizes e decorrentes (decorrentes na infelicidade) declarações de Manuel Pinho, que é ministro da economia de Portugal. Manuel Pinho, reflectido, afirmou há dias que o tempo da prosperidade acabou. Já ouvimos muitas variantes frásicas do verbo acabar, desde Santana Lopes (a crise acabou) até ao próprio Sócrates (a crise acabou, ou a brincadeira acabou, referindo-se à educação...). Mas o que nunca tínhamos ouvido foi este arrastamento do pobre verbo para uma dupla negação, isto é, o tempo da prosperidade deixou de existir. Mas o que disse Jerónimo de Sousa? Apenas se interrogou: mas a prosperidade acabou para quem? Quem é que, ao longo destes anos prosperou? Sócrates, o visado, não respondeu.
(publicado no jornal Público em 11/10/2008)
(publicado no jornal Público em 11/10/2008)
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