Eu sei que Alberto Martins, quando abre a boca politicamente, fá-lo, normativamente, de forma evasiva e pouco clara a entendimentos directos, o que resulta, na maior parte da vezes, numa inocuidade de sentido verdadeiramente perversa. "É um político", dirão alguns, resignados com este tipo de procedimento, habituados a escutar o acostumado e oportuno laconismo desta classe profissional nas diversas comunicações ao povo português, seja através de conferências de imprensa, seja no Parlamento ou mesmo (principalmente) em entrevistas de maior ou menor extensão.
Todavia, retirar da entrevista que o líder da bancada parlamentar do Partido Socialista concedeu ao programa Diga lá Excelência (Rádio Renascença e Público) uma espécie de furo jornalístico que a imprensa titula de alterações políticas (com maior ou menor grau de variabilidade enfática) entre Cavaco Silva e a maioria socialista é um passo que só um jornalismo pouco sério consegue empreender. É que as alterações políticas resumem-se, tão somente, a dois vetos presidenciais, de manifesta importância, os quais têm que ver com variantes marcadamente (in)constitucionais e de correlação entre diversos órgãos de soberania (Estatuto dos Açores) e também com outro tipo de agendamento político - este de feição mais social (embora de importância constitucional igualmente relevante) - que é a Lei do Divórcio, cujo delineamento preconiza mudanças que, não sendo radicais, implementariam um novo paradigma nas relações matrimoniais que avistam, na sua forma litigiosa, o seu término.
Na verdade, o que Alberto Martins reflectiu na entrevista foi que a relação constitucional funciona de "forma harmónica, equilibrada" e que houve divergências políticas entre Governo e Presidência a respeito destes dois casos. Ora, cada veto presidencial corresponde, naturalmente, a uma divergência política. Daí que se chame veto, isto é, proibição, recusa, suspensão (de uma lei) e que o mesmo seja uma prerrogativa constitucional do Presidente da República enquanto órgão de soberania último da autonomia nacional, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República. Assim, se nos orientarmos por este tipo de sofreguidão jornalística, nomeadamente no que aos títulos da imprensa escrita e abertura de telejornais diz respeito, não fazíamos mais nada do que analisar, de forma deprimente, as "alterações políticas" entre as duas maiorias eleitas pelo povo português. É que Cavaco Silva já utilizou a arma da não promulgação e devolução dos diplomas ao Parlamento (o veto político) noutras questões socialmente relevantes. Só em Agosto do ano passado, Cavaco vetou por três vezes igual número de diplomas governamentais: a lei orgânica da GNR, o estatuto dos jornalistas e o diploma sobre a responsabilidade civil extracontratual do Estado. Não se falou, na altura, de alterações institucionais "delicadas" entre governo e presidência. No entanto, a pouco mais de meio ano de eleições legislativas, autárquicas e europeias, tudo serve para perscrutar sinais de divergências. Tudo isto não passaria de relevâncias fugazes se não se iniciasse, a partir de agora e até Junho ou Julho, um acompanhamento delirante de todas as mensagens políticas originárias de ambas as partes. Infelizmente ou não (os jornalistas encontram-se, sem sombra de dúvida, nesta última hipótese), não falta ao governo porta-vozes do disparate. Pelo outro lado - o lado presidencial - a companhia também não é famosa, se tivermos em conta as vozes que se alevantam sistematicamente de forma contraditória, em que Manuela Ferreira Leite, no seu perfil cavaquista, se empenha em não criar ondas de choque com o seu presidente. Resta-nos a nossa própria capacidade de discernir o que é ou não relevante na mensagem política sabendo que, muitas vezes, políticos e jornalistas andam, ardilosamente, de braço dado.
domingo, setembro 28, 2008
sábado, setembro 27, 2008
as casas da sorte em lisboa
Parece-me evidente que a recente polémica da atribuição de casas (pertencentes à Câmara Municipal de Lisboa) a tudo quanto é cunha está para durar. Pelo que leio, pelo menos desde há 20 anos existe uma espécie de tradição, a qual se resume à distribuição de casas inseridas no estranhamente chamado "Património Disperso" da autarquia. Estas habitações, que vão desde palácios (?!), vivendas (!), apartamentos, lojas e armazéns, estavam, no que às habitações diz respeito, destinadas a motoristas, directores e outros empregados da Câmara. A média da renda mensal é de 35 euros. Sendo um esquema assim tão simples, ainda para mais à luz da lei, não é de estranhar que estas abençoadas regalias ultrapassassem, em muito, o fim para que estavam destinadas e passassem a abranger uma espécie de hereditariedade auto-proclamada por quem usufruía das casas. Para além disso, não entendo como é que, por exemplo, um indivíduo que desempenha o decerto estimulante cargo de Director do Departamento de Apoio aos Órgãos Municipais necessita deste estímulo camarário. Possivelmente, o senhor director até vive numa outra casa em Lisboa, não necessitando da que lhe foi ofertada através duma módica quantia mensal. Por isso, como a renda é tão simbólica para os seus bolsos, e como tem um filhote em idade emancipadora, nada mais natural que atribuir a casa que lhe foi atribuída ao seu já crescido rebento. Isto e outras particularidades afins, duram há décadas, em Lisboa.
Mas como os estudos e as investigações encaixam bem nestas coisas, Manuel Damásio, professor da Universidade Lusófona, efectuou um "levantamento exaustivo (Expresso) do património disperso da Câmara Municipal de Lisboa. A conclusão não podia ser mais cómico-trágica: a Câmara não sabe do que é dona.
Perante isto, será legítimo apontar acusatoriamente o dedo a alguém? Provavelmente sim. Vamos ver.
Mas como os estudos e as investigações encaixam bem nestas coisas, Manuel Damásio, professor da Universidade Lusófona, efectuou um "levantamento exaustivo (Expresso) do património disperso da Câmara Municipal de Lisboa. A conclusão não podia ser mais cómico-trágica: a Câmara não sabe do que é dona.
Perante isto, será legítimo apontar acusatoriamente o dedo a alguém? Provavelmente sim. Vamos ver.
a aparição de Sarah Palin numa cerimónia religiosa
É por estas coisas que os media e alguns comentadores encartados se pelam. Anda a circular no espaço internauta um vídeo em que se vê a candidata a vice-presidente dos EUA numa cerimónia religiosa. Ao que parece, o momento religioso é muito específico: uma espécie de exorcização fantasmagórica em que a comunidade cristã do Pentecostes é fértil. A minha questão, neste âmbito crítico, é simples: qual o problema? Por acaso alguém se revolta quando vemos ritualizações de outros cultos (por exemplo, da igreja católica)? Isto de olharmos umbilicalmente nunca fez bem a ninguém. Se a senhora Palin, no direito que lhe assiste de praticar um determinado culto religioso, se depara com um qualquer e significativo ritual, o que tem a fazer é cumpri-lo, se eventualmente essa ritualização lhe espairecer a alma. É que nestas coisas de Pai, Filho e Espírito Santo não pode haver uns melhores que outros.
quinta-feira, setembro 25, 2008
mudar de vida, segundo marques mendes
Não sei se Marques Mendes, o ex e efémero líder do PSD, mudou de vida. Provavelmente sim. O que eu sei é que nada como sair da política para se ser ouvido e respeitado... politicamente. Mesmo que esse regresso esteja nebulosamente imbuído de banalidades como quando afirmou, na apresentação do livro repleta de "altas" personalidades, que "o debate político em Portugal é bastante pobre, é muito táctico, muito conjuntural, muito imediatista". Como é que Marques Mendes, num ano de retiro empresarial, aprendeu tanto?
o casamento homossexual
Desde que Manuela Ferreira Leite discorreu sobre a sua teoria na qual afirma que todo o casamento visa a procriação, este tema (com as suas variantes) tem se tornado um ponto de discussão incontornável. Daí que, em volta do casamento entre pessoas do mesmo sexo se tenha ouvido, por parte de todos os partidos, com a esperada excepção do Bloco de Esquerda, as mais variadas orientações. Uma delas é a aceitação do pressuposto matrimonial, mas sem a possibilidade do casal adoptar uma criança. No entanto, parece-me evidente que este juízo carece de bom senso, senão mesmo de constitucionalidade. É que todo o casal tem o direito da adopção. Daí que não podemos ser modernos (seja lá o que isso represente) para aceitarmos que dois homens ou duas mulheres jurem, sob a alçada da lei matrimonial, amarem-se para sempre e, por outro lado, retirar uma dos mais nobres direitos que a própria lei confere a um casal: a educação de uma criança.
quarta-feira, setembro 24, 2008
o motivo afectivo de sócrates
Ficámos a saber que a cidade de Guimarães foi escolhida para a "reentrée" política do PS por motivos afectivos relacionados com o primeiro-ministro, visto que foi pelo círculo de Braga que foi eleito, pela primeira vez, deputado. Nada de relevante a dizer sobre este facto se tal não implicasse uma linha apoteótica de deificação do líder e, consequentemente, a construção paulatina de um apaziguamento partidário.
terça-feira, setembro 23, 2008
o discurso de josé sócrates em guimarães
Muito se falou do discurso que marcou a “reentré” política do Partido Socialista, em Guimarães, e que teve como principal figura José Sócrates. Eu disse principal figura? Na verdade, o primeiro-ministro lembrou-se de levar para o púlpito socialista (onde milhares de pessoas, vindas de autocarro de todo o país, aguardavam, ansiosamente, a mensagem ministerial) a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, como símbolo maior destes quase quatro anos de governação maioritária. Para mim, foi este o facto de maior relevância no assomo socrático. O resto, foi um enchimento retórico, sem qualidade conteudística de alguma espécie, destinada a um bater de palmas quase programado, seguido, aqui e além, de uns ululantes e estridentes assobios.
À direita e à esquerda, Sócrates não deixou de espicaçar os adversários, com particular destaque para as questões sociais, designadamente o PSD que, com a sua tendência genética (ainda mais) liberal, poderá colocar em causa uma vitória nas próximas eleições. Daí as frases, venenosas: “queremos uma segurança social pública. É aqui que está a fronteira entre a esquerda e a direita, uma diferença social”! E quanto aos partidos de esquerda, que acusam José Sócrates de conduzir o país precisamente através da cartilha neoliberal (o que cola, inevitavelmente, o PS ao PSD), o orador não perdeu muito tempo, tudo em nome da modernidade, isto é, da esquerda moderna com que saiu vitorioso em 2005.
Só que foi muito mal aconselhado quando lhe disseram que a melhor companhia ministerial que podia ter em palco era Maria de Lurdes Rodrigues. Porquê? Tão simples quanto isso: a ministra da Educação espelha o que de pior tem vindo a ser feito, ao longo destes anos, na área educativa (sinceramente, pensava que tal não fosse possível). Mais: falando de uma esquerda social, José Sócrates levou para Guimarães uma ministra que tem demonstrado um longo e horripilante autismo nesta área. Basta lembramo-nos o que têm sido as suas declarações aos vários protestos dos professores a respeito, por exemplo, da questão da avaliação e da divisão absurda que foi a invenção de patamares profissionais. Ou o modo como aborda a questão dos professores contratados há longos e desesperantes anos. Por isso, as palavras laudatórias e tontas de José Sócrates à ministra, nas quais chega mesmo ao ridículo de sublinhar que “sem a determinação e coragem da ministra, não teríamos os resultados que podemos apresentar” e que “nós, socialistas, é que temos orgulho em tê-la como nossa ministra”, são reveladoras que entre a esquerda retórica (que ele, paradoxalmente, satiriza) e a “esquerda de acção” (auto-elogio socrático) vai, de facto, um grande e descomplexado passo.
À direita e à esquerda, Sócrates não deixou de espicaçar os adversários, com particular destaque para as questões sociais, designadamente o PSD que, com a sua tendência genética (ainda mais) liberal, poderá colocar em causa uma vitória nas próximas eleições. Daí as frases, venenosas: “queremos uma segurança social pública. É aqui que está a fronteira entre a esquerda e a direita, uma diferença social”! E quanto aos partidos de esquerda, que acusam José Sócrates de conduzir o país precisamente através da cartilha neoliberal (o que cola, inevitavelmente, o PS ao PSD), o orador não perdeu muito tempo, tudo em nome da modernidade, isto é, da esquerda moderna com que saiu vitorioso em 2005.
Só que foi muito mal aconselhado quando lhe disseram que a melhor companhia ministerial que podia ter em palco era Maria de Lurdes Rodrigues. Porquê? Tão simples quanto isso: a ministra da Educação espelha o que de pior tem vindo a ser feito, ao longo destes anos, na área educativa (sinceramente, pensava que tal não fosse possível). Mais: falando de uma esquerda social, José Sócrates levou para Guimarães uma ministra que tem demonstrado um longo e horripilante autismo nesta área. Basta lembramo-nos o que têm sido as suas declarações aos vários protestos dos professores a respeito, por exemplo, da questão da avaliação e da divisão absurda que foi a invenção de patamares profissionais. Ou o modo como aborda a questão dos professores contratados há longos e desesperantes anos. Por isso, as palavras laudatórias e tontas de José Sócrates à ministra, nas quais chega mesmo ao ridículo de sublinhar que “sem a determinação e coragem da ministra, não teríamos os resultados que podemos apresentar” e que “nós, socialistas, é que temos orgulho em tê-la como nossa ministra”, são reveladoras que entre a esquerda retórica (que ele, paradoxalmente, satiriza) e a “esquerda de acção” (auto-elogio socrático) vai, de facto, um grande e descomplexado passo.
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