quinta-feira, setembro 25, 2008
o casamento homossexual
Desde que Manuela Ferreira Leite discorreu sobre a sua teoria na qual afirma que todo o casamento visa a procriação, este tema (com as suas variantes) tem se tornado um ponto de discussão incontornável. Daí que, em volta do casamento entre pessoas do mesmo sexo se tenha ouvido, por parte de todos os partidos, com a esperada excepção do Bloco de Esquerda, as mais variadas orientações. Uma delas é a aceitação do pressuposto matrimonial, mas sem a possibilidade do casal adoptar uma criança. No entanto, parece-me evidente que este juízo carece de bom senso, senão mesmo de constitucionalidade. É que todo o casal tem o direito da adopção. Daí que não podemos ser modernos (seja lá o que isso represente) para aceitarmos que dois homens ou duas mulheres jurem, sob a alçada da lei matrimonial, amarem-se para sempre e, por outro lado, retirar uma dos mais nobres direitos que a própria lei confere a um casal: a educação de uma criança.
quarta-feira, setembro 24, 2008
o motivo afectivo de sócrates
Ficámos a saber que a cidade de Guimarães foi escolhida para a "reentrée" política do PS por motivos afectivos relacionados com o primeiro-ministro, visto que foi pelo círculo de Braga que foi eleito, pela primeira vez, deputado. Nada de relevante a dizer sobre este facto se tal não implicasse uma linha apoteótica de deificação do líder e, consequentemente, a construção paulatina de um apaziguamento partidário.
terça-feira, setembro 23, 2008
o discurso de josé sócrates em guimarães
Muito se falou do discurso que marcou a “reentré” política do Partido Socialista, em Guimarães, e que teve como principal figura José Sócrates. Eu disse principal figura? Na verdade, o primeiro-ministro lembrou-se de levar para o púlpito socialista (onde milhares de pessoas, vindas de autocarro de todo o país, aguardavam, ansiosamente, a mensagem ministerial) a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, como símbolo maior destes quase quatro anos de governação maioritária. Para mim, foi este o facto de maior relevância no assomo socrático. O resto, foi um enchimento retórico, sem qualidade conteudística de alguma espécie, destinada a um bater de palmas quase programado, seguido, aqui e além, de uns ululantes e estridentes assobios.
À direita e à esquerda, Sócrates não deixou de espicaçar os adversários, com particular destaque para as questões sociais, designadamente o PSD que, com a sua tendência genética (ainda mais) liberal, poderá colocar em causa uma vitória nas próximas eleições. Daí as frases, venenosas: “queremos uma segurança social pública. É aqui que está a fronteira entre a esquerda e a direita, uma diferença social”! E quanto aos partidos de esquerda, que acusam José Sócrates de conduzir o país precisamente através da cartilha neoliberal (o que cola, inevitavelmente, o PS ao PSD), o orador não perdeu muito tempo, tudo em nome da modernidade, isto é, da esquerda moderna com que saiu vitorioso em 2005.
Só que foi muito mal aconselhado quando lhe disseram que a melhor companhia ministerial que podia ter em palco era Maria de Lurdes Rodrigues. Porquê? Tão simples quanto isso: a ministra da Educação espelha o que de pior tem vindo a ser feito, ao longo destes anos, na área educativa (sinceramente, pensava que tal não fosse possível). Mais: falando de uma esquerda social, José Sócrates levou para Guimarães uma ministra que tem demonstrado um longo e horripilante autismo nesta área. Basta lembramo-nos o que têm sido as suas declarações aos vários protestos dos professores a respeito, por exemplo, da questão da avaliação e da divisão absurda que foi a invenção de patamares profissionais. Ou o modo como aborda a questão dos professores contratados há longos e desesperantes anos. Por isso, as palavras laudatórias e tontas de José Sócrates à ministra, nas quais chega mesmo ao ridículo de sublinhar que “sem a determinação e coragem da ministra, não teríamos os resultados que podemos apresentar” e que “nós, socialistas, é que temos orgulho em tê-la como nossa ministra”, são reveladoras que entre a esquerda retórica (que ele, paradoxalmente, satiriza) e a “esquerda de acção” (auto-elogio socrático) vai, de facto, um grande e descomplexado passo.
À direita e à esquerda, Sócrates não deixou de espicaçar os adversários, com particular destaque para as questões sociais, designadamente o PSD que, com a sua tendência genética (ainda mais) liberal, poderá colocar em causa uma vitória nas próximas eleições. Daí as frases, venenosas: “queremos uma segurança social pública. É aqui que está a fronteira entre a esquerda e a direita, uma diferença social”! E quanto aos partidos de esquerda, que acusam José Sócrates de conduzir o país precisamente através da cartilha neoliberal (o que cola, inevitavelmente, o PS ao PSD), o orador não perdeu muito tempo, tudo em nome da modernidade, isto é, da esquerda moderna com que saiu vitorioso em 2005.
Só que foi muito mal aconselhado quando lhe disseram que a melhor companhia ministerial que podia ter em palco era Maria de Lurdes Rodrigues. Porquê? Tão simples quanto isso: a ministra da Educação espelha o que de pior tem vindo a ser feito, ao longo destes anos, na área educativa (sinceramente, pensava que tal não fosse possível). Mais: falando de uma esquerda social, José Sócrates levou para Guimarães uma ministra que tem demonstrado um longo e horripilante autismo nesta área. Basta lembramo-nos o que têm sido as suas declarações aos vários protestos dos professores a respeito, por exemplo, da questão da avaliação e da divisão absurda que foi a invenção de patamares profissionais. Ou o modo como aborda a questão dos professores contratados há longos e desesperantes anos. Por isso, as palavras laudatórias e tontas de José Sócrates à ministra, nas quais chega mesmo ao ridículo de sublinhar que “sem a determinação e coragem da ministra, não teríamos os resultados que podemos apresentar” e que “nós, socialistas, é que temos orgulho em tê-la como nossa ministra”, são reveladoras que entre a esquerda retórica (que ele, paradoxalmente, satiriza) e a “esquerda de acção” (auto-elogio socrático) vai, de facto, um grande e descomplexado passo.
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sexta-feira, setembro 19, 2008
pcp e constança cunha e sá
Constança Cunha e Sá traça, no Público de ontem uma panorâmica do Partido Comunista que reflecte bem a posição da autora relativamente a este partido. Diz ela que "Jerónimo de Sousa reduziu o debate ideológico aos problemas concretos dos portugueses", para, de certo modo, "provar" o crescente aumento eleitoral do PCP. Mas depois remata com o seguinte: "Pode-se dizer que a necessidade de controlar o défice, o arranque de algumas reformas e o progressivo esvaziamento dos direitos adquiridos é um terreno fértil ao crescimento do PCP e à demagogia de grande parte das suas propostas".
Anoto o "grande parte das suas propostas", pressupondo que a autora aceita que outra "grande parte" não esteja marcada de pecadilhos demagógicos. Ora, não sei muito bem o que Constança Cunha e Sá entende por ideologia. Para mim, o PCP tem mantido uma coerência ideológica ao longo dos anos. Porventura, é essa visão um tanto estática que faz com que nunca tivesse estado (tirando os efémeros anos pós-revolucionários), verdadeiramente, no poder. Para além disso, quando a jornalista se refere aos problemas concretos dos portugueses que o Partido Comunista aponta (código de trabalho, insegurança, precariedade laboral, etc.) não estará a sobrelevar a ideologia do próprio partido?
Anoto o "grande parte das suas propostas", pressupondo que a autora aceita que outra "grande parte" não esteja marcada de pecadilhos demagógicos. Ora, não sei muito bem o que Constança Cunha e Sá entende por ideologia. Para mim, o PCP tem mantido uma coerência ideológica ao longo dos anos. Porventura, é essa visão um tanto estática que faz com que nunca tivesse estado (tirando os efémeros anos pós-revolucionários), verdadeiramente, no poder. Para além disso, quando a jornalista se refere aos problemas concretos dos portugueses que o Partido Comunista aponta (código de trabalho, insegurança, precariedade laboral, etc.) não estará a sobrelevar a ideologia do próprio partido?
quarta-feira, setembro 17, 2008
o estranho caso da mulher de gonçalo amaral
Veio-me parar às mãos que teclam neste computador o escrito que a Sr.ª D.ª Sofia Leal, que é mulher do ex-inspector da judiciária que tutelou o caso da menina inglesa desaparecida, escreveu nas páginas do Correio da Manhã. Na verdade, não é muito comum este tipo de achados. Um pouco (um naco, como diria António Barreto) dessa prosa: "As nossas filhas nunca compreenderam – e nós nunca conseguimos explicar-lhes que ‘motivos tão óbvios’ seriam esses que assim [com um afastamento imediato da investigação do caso Maddie] premiavam um pai que deixava as suas filhas para procurar uma criança que nem sequer conhecia e cujos pais a tinham negligenciado. Pena foi que a minha cara amiga Srª Dª Kate, já cá não estivesse à data, porque até poderia ter-nos sido de grande utilidade na tentativa de explicação dos ‘motivos óbvios’ da demissão do pai às nossas filhas..."
Bem, tanta piroseira e falta de bom-senso não merece grande contraditório. Seria o mesmo que questionar a Sr.ª D. Sofia por que razão os professores aturam as suas filhas e deixam os seus próprios filhos em casa, por vezes uma ou duas semanas. Ou os médicos. Ou os trolhas. Ou os juízes. Ou... Será mesmo verdade que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher?..
Bem, tanta piroseira e falta de bom-senso não merece grande contraditório. Seria o mesmo que questionar a Sr.ª D. Sofia por que razão os professores aturam as suas filhas e deixam os seus próprios filhos em casa, por vezes uma ou duas semanas. Ou os médicos. Ou os trolhas. Ou os juízes. Ou... Será mesmo verdade que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher?..
um pouco de ética republicana
Peço emprestado (sem autorização) o texto de Baptista-Bastos hoje no DN na reflexão que construiu a respeito da recusa do ex-presidente da República Ramalho Eanes em receber os retroactivos (mais de um milhão de euros) a que tinha direito respeitantes à sua reforma como general.
a esquerda bloquista
É por estas e por outras que olhamos para o Bloco de Esquerda e vemos cada vez mais um agrupamento que se define de esquerda porque sim. Vem isto a propósito das declarações de João Semedo, deputado do partido, ao criticar o PCP por seguir uma política de extrema-direita. Tudo porque os comunistas, através do seu líder Jerónimo de Sousa, ousaram (o verbo encaixa aqui na perfeição tendo em conta as particularidades encefálicas do senhor deputado) esgrimir, no comício de encerramento da festa do Avante, um argumentário dedicado à questão da insegurança. Ora, como na cabecinha dos bloquistas (jovens e velhos) insegurança, polícias, criminalidade e outros temas afins são de direita, o tom comunista constitui, para a trupe, um verdadeiro sacrilégio. Eu sei que o Bloco foi constituído como um partido de ideias, conscientemente fora do arco governativo. Mas esta idiossincrasia não deve ser tubular. Um partido político deve ser, por definição, aberto, transparente, anti-tabus. Com certificadas paredes de vidro.
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