Não sei se o homem trabalha somente para as estatísticas ou se é um especialista em propaganda. O que eu sei é que, por vezes, parece que exagera na sua própria orientação comunicacional (própria ou de alguma agência de comunicação). Vem isto a propósito das recentes declarações que o primeiro-ministro esboçou a propósito da diminuição das retenções nas escolas públicas. Assim, José Sócrates disparou, empolgado: "ao logo destes anos, fizemos mudanças nem sempre bem compreendidas, mas que hoje permitem que aos olhos da opinião pública os professores e a escola sejam mais bem vistos".
Ora, é este sentido obscuro e patético de missão inicialmente "mal compreendida", como se a verdade absoluta residisse nos gabinetes da 5 de Outubro (ideia que, por si só, dá vontade de rir), que faz com que Sócrates resvale, amiudadas vezes, para o ridículo. Na verdade, se existe profissão que desde sempre foi "bem vista" pelos portugueses é precisamente a dos professores. Do mesmo modo, falar desprendidamente de "opinião pública" é simplesmente irrelevante. Por outro lado, podíamos aventar aqui um número considerável de profissões que são "mal vistas pela opinião pública" e que, se nos guiarmos por este paradigma, revela-se mais fácil responsabilizar, negativamente, o governo. No fundo, chama-se a isto brincar com a educação.
(publicado no Público em 11-9-2008)
quarta-feira, setembro 10, 2008
terça-feira, setembro 09, 2008
o futebol
O estado patológico que se desenvolve hilariantemente em torno do futebol português é deveras interessante. Eu propunha, desde já, um estudo de psicologia clínica em torno destas pessoas: dirigentes, jogadores (os mais acertados no meio de tudo isto), jornalistas e... comentadores. O jornal de hoje da SIC (presumo que o mesmo se passou nas outras estações) noticiou um furo jornalístico que foi a suposta agressão do jogador Dominguez do Futebol Clube do Porto ao Nuno Gomes, do Benfica. Seguidamente, repôs na emissão do telejornal o debate que aqueles três senhores (um do Porto, chamado Aguiar, outro do Sporting, que parece que é irmão da líder do PSD, e outro do Benfica, que é marido da jornalista Judite de Sousa) empreenderam em torno desta questão. Eu, que não sou cego, vi as imagens e só quem não percebe nada de desporto é que consegue vislumbrar uma agressão mútua entre os jogadores. Mas também não é isso que verdadeiramente me interessa. O que acho lamentável é o tempo que o futebol ocupa nas nossas vidas e que estes senhores (doutores, como convém) sejam pagos para dizer banalidades. Mas a maior insensatez de todas manifesta-se mesmo naquela massa de pessoas que os escuta.
respublica
Por pouco não roubavam o nome a este blogue. De qualquer maneira, Manuel Alegre já tem onde afundar as mágoas. Pelo menos, ninguém pode acusar o PS de não dar voz aos críticos. Têm é que o fazer nos locais próprios!... Que maçada!...
o Estado a dar a mão
Começa a ser uma espécie de inevitabilidade a caridade que o Estado tem demonstrado a gigantes económicos nos mais diversos sectores. Desta vez foram as imobiliárias Fannie Mae e Freddie Mac, nos Estados Unidos. Teorias não faltam. Há quem defenda, no meio de tudo isto, mais mercado e mais liberdade económica. Será mesmo?... Eu acho que não. Por mais que a ideia custe aos propagandistas deste capitalismo desregrado, o que faz falta, a estes senhores, é justamente a mão do Estado... antes da asneira feita.
domingo, setembro 07, 2008
o silêncio e o discurso de manuela
Tenho pena de não ter ouvido e visto o discurso de encerramento de Manuela Ferreira Leite na Universidade de Verão do PSD. Porém, li o que a imprensa começou, desde logo, a esboçar. E nisto o que interessa é começar. Aparece um comentador e começa a zurzir na candidata, nomeadamente naquilo que foi o leitmotiv do seu registo discursivo. Depois, há um encadeamento de críticas, as quais não se deslocam dum ponto de vista predeterminado. No caso em questão, não era preciso ser-se bruxo para vislumbrarmos a inevitabilidade das críticas a que a líder do PSD se sujeitou. Mas sejamos justos: a responsabilidade primeira pertence, essencialmente, à própria, principalmente com a criação dessa imagem esfíngica, à Cavaco Silva, imagem essa que acaba sempre por resultar num vazio para quem espera alguma coisa deste tipo de pessoas. Veja-se a desastrosa comunicação de Cavaco Silva ao país sobre os Açores (alguém se lembra do tema?) e o que disseram os opinion makers da nossa praça, excepção feita, é claro, ao interessante sectarismo do Vasco Graça Moura e do Pacheco Pereira. Por isso, Manuela Ferreira Leite não podia escapar ao crivo implacável dos críticos. Neste sentido, a questão que se deve colocar é, pois, a seguinte: foi mau o discurso de Manuela Ferreira Leite? É evidente que não. Mais: o que Manuela Ferreira Leite disse em Castelo de Vide foi precisamente o que todos queriam ouvir, pois foi claramente um discurso de oposição. Abordou a economia, a segurança, a competitividade focalizada essencialmente nas pequenas e médias empresas, o endividamento a prazo do Estado, criticou os políticos que se movem por interesses pessoais em vez de olharem com nobreza para a política como uma causa exclusivamente pública (o que deve ser abertamente combatido através dum tipo de discurso que vá ao encontro das pessoas) e, como não podia deixar de ser, desenvolveu a temática do emprego através de frases tão embusteadas como "é no emprego que a política económica que defendemos melhor mostrará os seus resultados". De qualquer modo, o governo maioritário de José Sócrates consegue o incrível feito de colocar na boca de Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças e ex-ministra da Educação, a dama de ferro portuguesa, as seguintes palavras: “o Governo confunde autoridade com autoritarismo”. Confesso que fiquei confuso e desejei, desde logo, a vitória dessa senhora em Junho ou Julho do próximo ano. Mas depois, mais lúcido, pensei que nestas coisas os melhores discursos são, por norma, os da oposição. E é nesta contextura que gostei também de ouvir Jerónimo de Sousa na festa do Avante.
Por isso, falar de logro político quando se critica a "reentrée" de Manuela Ferreira Leite é desaguar, desavergonhadamente, no espaço do logro jornalístico. O que se passa é que tanto Manuela como Sócrates já não conseguem qualquer tipo de transformação social no país. Nenhum deles é capaz de se deixar de retóricas economicistas (compreendo, finalmente, o desabafo de Clinton "it's the economy, stupid") e pregar simples. É o que, no fundo, todos queremos ouvir: a evidência dum linguajar simples e cintilante. São poucos os que o conseguem.
(publicado em A Voz de Trás-os-Montes em 11-9-2008)
Por isso, falar de logro político quando se critica a "reentrée" de Manuela Ferreira Leite é desaguar, desavergonhadamente, no espaço do logro jornalístico. O que se passa é que tanto Manuela como Sócrates já não conseguem qualquer tipo de transformação social no país. Nenhum deles é capaz de se deixar de retóricas economicistas (compreendo, finalmente, o desabafo de Clinton "it's the economy, stupid") e pregar simples. É o que, no fundo, todos queremos ouvir: a evidência dum linguajar simples e cintilante. São poucos os que o conseguem.
(publicado em A Voz de Trás-os-Montes em 11-9-2008)
sexta-feira, setembro 05, 2008
o regresso de paulo pedroso ao parlamento
Paulo Pedroso tem todo o direito de regressar ao lugar de deputado. Acontece que este regresso tem alguma coisa de forçado. Alguma sede de protagonismo. Não seria mais sensato esperar pela próxima legislatura? Por outro lado, este unanimismo que paira, tonitruante, em redor da sentença que condenou o Estado português a indemnizar o ex-ministro também não em parece normal. Cheira tudo a propaganda. Ou não tivéssemos a ser regidos pelo mestre da coisa. Convém notar que, no fundo, Paulo Pedroso, é um indivíduo com sorte. Quantos Pedrosos não haverá por aí que não têm a fortuna que o deputado do PS, ex-funcionário do governo na Roménia usufruiu?
quarta-feira, setembro 03, 2008
a indemnização de pedroso
Em primeiro lugar, concordo com Paulo Pedroso quando afirma que era um imperativo ético processar o Estado por danos patrimoniais e morais relativamente ao processo que contra ele se ergueu no denominado caso Casa Pia. De qualquer modo, a minha posição, aqui expressa, mantém-se. Ou seja: não devemos esquecer que este mesmo Estado processado acomodou, condignamente, o antigo deputado do PS na Roménia. Já que falamos em valores e em ética, exemplar seria Pedroso ter recusado a oferta do governo enquanto o seu estatuto acusatório não terminasse.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
