quarta-feira, setembro 03, 2008

a indemnização de pedroso

Em primeiro lugar, concordo com Paulo Pedroso quando afirma que era um imperativo ético processar o Estado por danos patrimoniais e morais relativamente ao processo que contra ele se ergueu no denominado caso Casa Pia. De qualquer modo, a minha posição, aqui expressa, mantém-se. Ou seja: não devemos esquecer que este mesmo Estado processado acomodou, condignamente, o antigo deputado do PS na Roménia. Já que falamos em valores e em ética, exemplar seria Pedroso ter recusado a oferta do governo enquanto o seu estatuto acusatório não terminasse.

madail mandatado para escolher futuro presidente do CJ

Este é um dos posts em que o título se revela suficientemente esclarecedor e também suficientemente hilariante. E eu pensava que Gilberto Madaíl já não era presidente da Federação Portuguesa de Futebol!

terça-feira, setembro 02, 2008

josé sócrates e a arte na reconstrução de escolas

Não pude deixar de esboçar um sorriso malicioso quando ouvi o nosso primeiro-ministro abordar, categórico, o estado calamitoso de muitas das nossas escolas. Ele tem razão. O parque escolar é, na generalidade, vergonhoso. Mas o meu esgar de encantamento não se deveu à prolixidade expressa por Sócrates. Na verdade, quando referiu que a ideia da requalificação destas escolas não é apenas tapar buracos, "mas sim reconstruir as escolas, o que exige talento e génio porque não se trata de fazer uma escola nova trata-se de reconstruir uma escola" e que as instituições de ensino "têm uma cultura, um espírito que é preciso respeitar e uma identidade e uma natureza", lembrei-me das casas que ele projectou lá para a Covilhã. De facto, o engenheiro José Sócrates tem em muito boa conta a cultura e o espírito beirão.

josé sócrates e a educação

"Muitos gostariam que o Estado contratasse mesmo que não precisasse deles, mas não é essa a nossa visão. O tempo da facilidade acabou."
Penso que deveria acabar esta frase, proferida hoje pelo primeiro-ministro num contexto claramente educativo, com um ponto de exclamação, tal foi o ímpeto coloridamente tonitruante com que José Sócrates a apresentou, perante as câmaras das televisões (sem casaco, ainda por cima). Eu, que observei toda a pantomina, fiquei muito triste e perplexo ao ouvir o primeiro-ministro (e a desesperante e ofegada ministra da educação) falar assim dos professores que não conseguiram colocação e da educação em geral. Nem a Manuela Ferreira Leite faria melhor. Ou estarei enganado? É que este tipo de registo discursivo está ao nível do que a líder do PSD disse sobre o casamento e a procriação e que José Sócrates, ressabiado, tanto criticou, isto é, ambas as declarações encerram um conservadorismo nefando.
Quero acreditar que há mais vida para além destes dois.

(publicado no jornal Público em 9-9-2008)

futebol

A ser verdade a notícia que o Manchester City oferece 165 milhões de euros por um jogador, que por acaso é o Cristiano Ronaldo, é mais um passo para a desacreditação do futebol. Explicando: um milionário muito milionário determina que a melhor maneira de passar os seu entediantes dias é comprar um clube de futebol. Como tem muito dinheiro, resolve fazer uma equipa: contrata alguém que contrate um treinador para este escolher vinte e tal jogadores. Mas como o milionário gosta de diversão e tem vontade de protagonismo pensa que os holofotes só lhe podem cair em cima se contratar os artistas. E ele, como gosta daquelas fintas e malabarismos que o Cristiano prodigiosamente desenha, opta por comprá-lo. E pronto. Ficamos todos muito felizes. Os senhores da televisão, que têm mais um herói, os adeptos do clube (somos os maiores!), e o Cristiano, que ainda não deve saber por que é que é considerado o melhor jogador do mundo (haverá galardão mais incoerente do que este, o de ser considerado o melhor jogador do mundo?).

em que é que ficamos, marcelo?

Acabadinho de aterrar de férias, Marcelo Rebelo de Sousa atira-se a Manuela Ferreira Leite, afirmando que "não está a mobilizar o partido” e que “mostra pouca ambição”. Mas, passadas mais ou menos 24 horas, arrependeu-se. E deu uma pequena volta ao sublinhar que o afamado silêncio da líder do seu partido "tem mais vantagens que inconvenientes". Confesso que já não entendo nem o Marcelo, nem a Manuela, e muito menos o Borges que falou hoje na Universidade do Verão do PSD. Estou mesmo propenso a crer que o único português que entende esta salsada é o Vasco Graça Moura (e o Pacheco Pereira, um bocadinho).

segunda-feira, setembro 01, 2008

o psd e a sua líder

Não está nada fácil ser-se líder do PSD hoje em dia. Se é verdade que a inédita maioria absoluta do Partido Socialista tem ajudado à desolação do partido fundado por Sá Carneiro, principalmente através dum líder (José Sócrates) que se podia muito bem afirmar como uma espécie de fiel depositário ideológico-político da família social-democrata em Portugal (e não da Europa, por que já se encontra ocupada pelo PS), não é menos verdade que o resultado da debandada egoísta protagonizada por Durão Barroso, quando escolheu os firmamentos mais serenos de Bruxelas para dar continuação à sua projecção enquanto homem politicamente muito ambicioso (foi ele um dia que confessou à Ana Gomes que é o poder que o move), alterou por completo o panorama programático do partido que, em 2004, se encontrava no poder.
Primeiro, entrou quase pela “porta do cavalo” o previsível Santana Lopes (apesar da dose de imprevisibilidade que lhe é, enganadoramente, apontada). Durou pouco, como se sabe, o ministério santanista. Depois, foi o estridente e pouco cimentado Menezes. Os barões e as baronesas não descansaram enquanto não o enviaram, de novo, para Gaia. Finalmente, Manuela Ferreira Leite, a mais temível e esperada candidata a líder, ganhou, em Maio deste ano, as directas, mas apenas com 37, 67% dos votos expressos, o que quer dizer que não convenceu dois terços dos militantes do partido. Foi, portanto, a primeira desilusão (derrota) da líder. Mas o desencanto continuou. A pose demasiado austera, o silêncio sistemático de quem não tem nada de relevante a dizer, a colagem excessiva ao Presidente da República (que, em abono da verdade, é muito por culpa dos jornalistas, que se deliciam com este tipo de “fait divers” e intrigas políticas), as contradições que alguns membros mais chegados da sua equipa (António Borges, Rui Rio, por exemplo) têm vindo a desenvolver relativamente ao pensamento – exiguamente manifesto – de Manuela Ferreira Leite, o disparate que foi afirmar que o fim único do casamento é a procriação, tudo isto faz com que se comece legitimamente a conjecturar se a actual líder do PSD chegará inteira a 2009, isto é, às eleições do próximo ano.
Neste âmbito, podemos juntar a tudo isto a recente tomada de posição de Marcelo Rebelo de Sousa, ao não pactuar, ao contrário do que tem sido norma (através duma conferência), com a chamada reentrée política do PSD, a Universidade de Verão, realizada tradicionalmente em Castelo de Vide. Com efeito, se os remoques um tanto simplórios e recorrentes de Menezes (que disse que se manteria calado até às eleições, estabelecendo assim um perfil comportamental exemplar de um ex-líder) e Santana (que anda há já três ou quatro anos numa choramingueira crónica, do tipo “se fosse comigo o que não seria….”) não alteram grandemente o status quo do partido, o mesmo já não se passa com o actual comentador político (e também, recentemente, futebolístico) e ex-líder do PSD (convém não esquecermos que Marcelo foi um dos sólidos apoiantes de Manuela Ferreira Leite, ao ponto de colocar de lado a hipótese de ele próprio se candidatar a líder). Ainda para mais quando o sentido das suas palavras não permite grandes e variáveis conjecturas: está “muito preocupado com o PSD”, sublinhando que “Manuela Ferreira Leite não está a mobilizar o partido” e que “mostra pouca ambição”.
Ora, e retomando o já longínquo ano de 2004, notamos o tremendo (e já referido) erro de “casting” cozinhado por Jorge Sampaio e Durão Barroso, ao escolherem Santana para suceder na chefia do governo do actual presidente da Comissão Europeia. Como se sabe, o nome de Manuela Ferreira Leite foi várias vezes aventado nessa transferência de poderes ministeriais. Ou por recusa da própria ou por teimosia de alguém, o certo é que Santana alcançou o que, através do voto, nunca conseguiria.
Acontece que tudo isto faz de Manuela Ferreira Leite uma líder anacrónica. Eu explico: se havia altura em que se ajustava, à frente dum governo, uma personalidade como a actual líder do PSD, era precisamente aquando da escapatória de Barroso, até porque tinha já uma imagem paulatinamente construída (e constituída) através da passagem pelos governos de Cavaco Silva. Daí que a natural confusão (e desagrado) que a opção Santana fundamentou não tivesse cabimento no perfil mais competente e sério de Manuela Ferreira Leite (mesmo ente muitos socialistas).
O que se passa, neste momento, é que os portugueses olham para Manuela Ferreira Leite e vêem uma espécie de continuação socrática, alterando, de certo modo, o sentido diacrónico da política (Sócrates é muito mais novo que Ferreira Leite e com menos experiência governativa). Daí o silêncio desesperador da própria. O que (ainda) lhe vai valendo é que muita gente consegue interpretar de forma extraordinariamente divisível o seu pensamento, seja ele qual for.

(publicado na Voz de Trás-os-Montes em 4-9-08)

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...