sexta-feira, julho 04, 2008
interior do país
Fico deveras sensibilizado com o alerta lançado por Cavaco Silva na sua visita ao norte alentejano. É que a razão está completamente do seu lado, visto sermos um país que reflecte desastradamente parâmetros de desigualdades sociais atrozes. E quando o Presidente da República compara as reivindicações desta gente (por exemplo, a Assembleia Municipal de Portalegre fez chegar a Belém uma nota de descontentamento relativamente às vias rodoviárias da zona) com as obras faraónicas que por aí se anunciam (todos seguindo uma idiossincrasia bem definida que passa por uma cada vez maior "litoralização" do país), o absurdo que tem sido a perda continuada de verdadeiras oportunidades de desenvolvimento homogéneo do país torna-se, factualmente, vergonhoso. De facto, nunca soubemos interpretar o verdadeiro desígnio do 25 de Abril, nem das ajudas monetárias que têm vindo a ser desenvolvidas pela União Europeia. Pelo contrário, estes anos de "democracia europeia" tornaram Portugal no que sempre foi: desigual.
quinta-feira, julho 03, 2008
o tratado que todos queriam
Afinal, bastou o voto dos irlandeses contra esta imposição que se chama Tratado de Lisboa para que alguns dos senhores que pernoitaram na capital portuguesa para assinar o documento passassem, agora, ao ataque em desfavor do dito. Por isso, as perguntas que se devem fazer aos senhores Lech Kaczynski e Vaclav Klaus são as seguintes: por que é que alinharam, com tanta pompa, em Lisboa, ao lado dos outros ministros e presidentes da república? Afinal, só agora é que notaram que a rebaptizada Constituição Europeia é prejudicial no que concerne à autonomia de cada estado em tomadas individuais de decisão, como lembra o presidente checo?
De facto, estes senhores são exímios representantes das convicções políticas que pairam por essa Europa fora.
De facto, estes senhores são exímios representantes das convicções políticas que pairam por essa Europa fora.
ministra junta ex-ministros
Confesso a minha admiração por aqueles que tutelaram a pasta da educação nos últimos trinta e tal anos e que aceitaram o convite de Maria de Lurdes Rodrigues na inauguração de uma galeria em honra de todos que, desde 1870 (segundo a TSF), tiveram o privilégio de chefiar este ministério. Este meu tributo deve ser entendido, obviamente, de forma irónica. Na verdade, o que verdadeiramente sinto é que todos eles - principalmente os dos últimos dois decénios, revelam um despudor extraordinário. É que o estado a que isto chegou não se coaduna com homenagens deste teor. Também ficámos a saber, neste encontro, por intermédio da ministra, uma daquelas pacovices que se costumam evocar nestes encontros (principalmente por pessoas que muito pouco têm a transmitir), mas que nos permite aferir alguma coisa sobre os limites cognitivos da personagem. De facto, Maria de Lurdes Rodrigues "confidenciou que costuma aconselhar-se junto de antigos ministros da pasta, a quem costuma telefonar muitas vezes para ouvir as suas opiniões, porque há problemas que não são novos". Só não disse a quem é que costuma telefonar mais vezes, ou se existe mesmo alguém a quem nunca lhe foi dada essa honra receptadora. De qualquer maneira, estes senhores que por lá pairaram na inauguração de si próprios também não nos oferecem grande capacidade de escolha. Lembrei-me agora de Manuela Ferreira Leite, a actual líder do PSD e que também foi ministra da educação. Será que foi convidada? Será que atende o telefone?
Uma nota última: isto foi uma desconsideração para os secretários de estado. Também os houve de grande gabarito. Os últimos que temos não descuram o género.
Uma nota última: isto foi uma desconsideração para os secretários de estado. Também os houve de grande gabarito. Os últimos que temos não descuram o género.
quarta-feira, julho 02, 2008
a entrevista de sócrates vista pelos comentadores
Tenho-me insurgido relativamente aos comentadores desportivos, um espécime de homus mediaticus que têm vindo a proliferar nos canais de televisão e que são caracterizados, essencialmente, pela extraordinária capacidade de comunicarem, unidireccionalmente, durante horas sem nada dizerem.
Pelos vistos, esta tendência arrasta-se a outras áreas do comentário televisivo, como é o caso do político. Tudo a propósito das declarações dos comentadores a respeito da entrevista de José Sócrates à RTP. Com efeito, o acessório foi o que mais abundou nas justificações destes profissionais. Neste pressuposto, não podia deixar de vir o estafado raciocínio de que "José Sócrates começou hoje a campanha eleitoral", o "tabu" do primeiro-ministro (se se candidata ou não em 2009), a "segurança nos argumentos", etc. Nada de relevante estes senhores disseram sobre a entrevista. Aliás, estou em crer que todos nós já esquecemos o que é uma boa entrevista televisiva.
Pelos vistos, esta tendência arrasta-se a outras áreas do comentário televisivo, como é o caso do político. Tudo a propósito das declarações dos comentadores a respeito da entrevista de José Sócrates à RTP. Com efeito, o acessório foi o que mais abundou nas justificações destes profissionais. Neste pressuposto, não podia deixar de vir o estafado raciocínio de que "José Sócrates começou hoje a campanha eleitoral", o "tabu" do primeiro-ministro (se se candidata ou não em 2009), a "segurança nos argumentos", etc. Nada de relevante estes senhores disseram sobre a entrevista. Aliás, estou em crer que todos nós já esquecemos o que é uma boa entrevista televisiva.
o milagre de Vitorino de Piães
Todos nos lembramos daquela funcionária que há uns meses percorreu o país, através dos telejornais, relatando, na primeira pessoa, a desumanidade do mundo, do governo, da junta médica. Teve o apoio incondicional da Junta de Freguesia e - estou em crer - da maioria dos portugueses. A história conta-se numa frase: Ana Maria Brandão alegava incapacidade para o trabalho (vivia presa a uma cadeira de rodas, por instabilidade física).
Acontece que, numa visita a Braga, ao Bom Jesus, a senhora alega ter sido embebida por um milagre, ao ponto das mazelas terem desaparecido completamente, configurando, de imediato, a possibilidade de regressar ao trabalho. No entanto, parece que ninguém acredita, desgraçadamente, na funcionária da junta de Freguesia de Vitorino de Piães
Confesso que não entendo muito de milagres, mas também gostava de saber por que raio esta senhora não pôde ter sido vítima de um milagre? Não são assim que eles se fazem?!...
Acontece que, numa visita a Braga, ao Bom Jesus, a senhora alega ter sido embebida por um milagre, ao ponto das mazelas terem desaparecido completamente, configurando, de imediato, a possibilidade de regressar ao trabalho. No entanto, parece que ninguém acredita, desgraçadamente, na funcionária da junta de Freguesia de Vitorino de Piães
Confesso que não entendo muito de milagres, mas também gostava de saber por que raio esta senhora não pôde ter sido vítima de um milagre? Não são assim que eles se fazem?!...
terça-feira, julho 01, 2008
A4 e barragem do sabor: dois símbolos antagónicos
Não há governo que resista a umas boas obras de regime. Daí que o actual governo liderado por José Sócrates se apresente, neste pressuposto, igual aos restantes. Acontece que, muitas vezes, a cegueira conduz, de forma irreversível, a disparates. Entendo, no entanto, que existem explicações para todos os gostos. Há mesmo partidos – como é o caso do PSD – que têm uma capacidade extraordinária de transfiguração ideotemática, ao defenderem determinadas orientações programáticas quando se encontram a governar, e outras – muitas vezes opostas – quando estão na oposição. O exemplo do aeroporto revela-se, neste sentido, paradigmático (nunca se entendeu muito bem qual a posição deste partido sobre este assunto). Mas muitos outros se podiam inventariar, como por exemplo, a surpreendente colagem de Manuela Ferreira Leite a preocupações que lhe estiveram sempre (aparentemente?) distantes, como é o caso dos mais desfavorecidos da nossa sociedade. É claro que ela tem o direito de uma reorientação na sua forma de estar na vida política. Mas não deixa de soar a uma certa hipocrisia que, a pouco mais de um ano das eleições legislativas e com uma classe média cada vez mais pobre e com os pobres cada vez mais pobres, a líder do principal partido da oposição se remeta a uma posição que ninguém – nem mesmo os seus correligionários políticos – lhe estava habituado a ver.
Esta espécie de fusão ideológica apresenta-se na sua plenitude quando se trata de obras públicas, tornando-se muito difícil fazer uma distinção entre PS e PSD. Como sabemos, o governo apresentou, para Trás-os-Montes, duas obras emblemáticas: a continuação da auto-estrada Porto-Amarante até Bragança e a Barragem do Sabor. Ambientalistas à parte (não é que devam estar à parte, mas confesso que me é difícil entender esta gente, principalmente quando os argumentos evocados começam a entrar numa fase de delírio), no meu entender bastaria o argumento da água para que esta obra se apresente quase como uma espécie de manau dos deuses. Convém não esquecer que toda a área geográfica em que se insere a barragem é, tradicionalmente, uma das que maior sofrimento teve ao longo décadas de seca. Há uns anos não muito distantes, a água que corria nas torneiras só durava duas ou três horas e, durante esse escasso período de tempo, era um ver se te avias no enchimento de tachos, panelas e alguidares. Por outro lado, há que considerar o aproveitamento das energias alternativas, com muito bem justificou José Sócrates. Na verdade, não podemos estar num permanente sobressalto em relação à nossa própria independência, pois nos dias que correm, o perigo deixa de ser bélico (ninguém acredita que a Espanha comece a entrar por aí adentro com tropas e viaturas blindadas) para passar a ser económico (como se viu com a recente greve dos camionistas em que nos vimos, de um dia para o outro, completamente desaustinados, sem gasolina e gasóleo).
No entanto, este mesmo pressuposto desenvolvimentista já não se adequa relativamente à auto-estrada até Bragança, com a construção de um túnel de seis quilómetros de extensão – o maior do país e um dos maiores da Europa (como aliás, convém ao nosso ego). Ficamos, pois todos contentes, a começar pelo governo e acabando, evidentemente, nos autarcas que, muitos deles, têm uma visão de desenvolvimento homogéneo que deixa muito a desejar. A pergunta que se coloca é, quanto a mim, pertinente: para quê uma auto-estrada até Bragança? Com efeito, o fluxo de trânsito na IP4 não justifica de todo a transformação desta via numa auto-estrada. Não seria melhor canalizar estes 350 milhões de euros para um melhoramento da rede rodoviária (incluindo, naturalmente a IP4, com o seu alargamento em toda a extensão) e ferroviária (que praticamente deixou de existir) do distrito de Bragança? É que Trás-os-Montes não é só o eixo Vila Real-Bragança. De facto, continua a ser uma vergonha as acessibilidades que o interior transmontano apresenta. Só que enquanto existirem autarcas que criticam a centralização quando não lhes convém e aplaudem-na quando lhes é favorável, o país continuará a existir como um dos mais desiguais da Europa.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes no dia 3/07/2008)
Esta espécie de fusão ideológica apresenta-se na sua plenitude quando se trata de obras públicas, tornando-se muito difícil fazer uma distinção entre PS e PSD. Como sabemos, o governo apresentou, para Trás-os-Montes, duas obras emblemáticas: a continuação da auto-estrada Porto-Amarante até Bragança e a Barragem do Sabor. Ambientalistas à parte (não é que devam estar à parte, mas confesso que me é difícil entender esta gente, principalmente quando os argumentos evocados começam a entrar numa fase de delírio), no meu entender bastaria o argumento da água para que esta obra se apresente quase como uma espécie de manau dos deuses. Convém não esquecer que toda a área geográfica em que se insere a barragem é, tradicionalmente, uma das que maior sofrimento teve ao longo décadas de seca. Há uns anos não muito distantes, a água que corria nas torneiras só durava duas ou três horas e, durante esse escasso período de tempo, era um ver se te avias no enchimento de tachos, panelas e alguidares. Por outro lado, há que considerar o aproveitamento das energias alternativas, com muito bem justificou José Sócrates. Na verdade, não podemos estar num permanente sobressalto em relação à nossa própria independência, pois nos dias que correm, o perigo deixa de ser bélico (ninguém acredita que a Espanha comece a entrar por aí adentro com tropas e viaturas blindadas) para passar a ser económico (como se viu com a recente greve dos camionistas em que nos vimos, de um dia para o outro, completamente desaustinados, sem gasolina e gasóleo).
No entanto, este mesmo pressuposto desenvolvimentista já não se adequa relativamente à auto-estrada até Bragança, com a construção de um túnel de seis quilómetros de extensão – o maior do país e um dos maiores da Europa (como aliás, convém ao nosso ego). Ficamos, pois todos contentes, a começar pelo governo e acabando, evidentemente, nos autarcas que, muitos deles, têm uma visão de desenvolvimento homogéneo que deixa muito a desejar. A pergunta que se coloca é, quanto a mim, pertinente: para quê uma auto-estrada até Bragança? Com efeito, o fluxo de trânsito na IP4 não justifica de todo a transformação desta via numa auto-estrada. Não seria melhor canalizar estes 350 milhões de euros para um melhoramento da rede rodoviária (incluindo, naturalmente a IP4, com o seu alargamento em toda a extensão) e ferroviária (que praticamente deixou de existir) do distrito de Bragança? É que Trás-os-Montes não é só o eixo Vila Real-Bragança. De facto, continua a ser uma vergonha as acessibilidades que o interior transmontano apresenta. Só que enquanto existirem autarcas que criticam a centralização quando não lhes convém e aplaudem-na quando lhes é favorável, o país continuará a existir como um dos mais desiguais da Europa.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes no dia 3/07/2008)
recusa do presidente polaco
A coincidência é desconcertante: no dia em que a França assume a presidência da União Europeia, o presidente polaco, Lech Kaczynski, recusa assinar o Tratado de Lisboa, o qual já tinha sido ratificado pelo parlamento polaco. Advoga Kaczynski, estranhamente, que o documento assinado na capital portuguesa se encontra, agora, sem substância. Por outro lado, Sarkozy já afirmou que pretende circunscrever o problema da ratificação à Irlanda, secundarizando, portanto, a recusa do presidente da Polónia (Durão Barroso tinha, a seu tempo, felicitado as forças políticas deste país aquando da ratificação do tratado).
O que também não deixa de ser curioso é que o olhar negativo relativamente ao Tratado de Lisboa se posiciona, politicamente, numa espécie de paradoxo: de um lado, os conservadores (por vezes com deslizamentos para a extrema direita); do outro, os que estão mais à esquerda da esquerda política.
O que também não deixa de ser curioso é que o olhar negativo relativamente ao Tratado de Lisboa se posiciona, politicamente, numa espécie de paradoxo: de um lado, os conservadores (por vezes com deslizamentos para a extrema direita); do outro, os que estão mais à esquerda da esquerda política.
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