domingo, junho 15, 2008
os referendos europeus
É curioso verificarmos, nesta Europa construída aos trambolhões através de meia dúzia de luminários, a importância diferenciada que os respectivos referendos tiveram, primeiro na França e Holanda (numa primeira versão do Tratado, na altura chamado de Constituição) e agora na Irlanda. De facto, o não francês fez simplesmente parar todo o processo constitucional. Por outro lado, a mesma orientação de negação ao Tratado por parte da Irlanda - o único país que o referendou - serve apenas, para o resto dos parceiros, como uma mera interrupção na aceitação, pela União, do documento assinado em Lisboa. Ora, todo este processo revela exemplarmente o que o povo europeu vale para os senhores Europa. É que vale a pena pensar por que é que a Irlanda votou negativamente o Tratado de Lisboa. Por outro lado, vale também a pena reflectir sobre o que seria a orientação do voto dos restantes países, se eventualmente tivessem a mesma oportunidade dos irlandeses. Aposto que votavam não. Que admiração!
sábado, junho 14, 2008
manuela ferreira leite e o neto
Falta a Manuela Ferreira Leite aquilo que define o homem (a mulher) político, que é precisamente uma disponibilidade permanente para a causa pública, isto é, para a política, para os problemas do país. Neste sentido, um político com responsabilidades, seja ao nível do governo, da oposição, ou mesmo sem cargo específico deve estar em completa e rápida disponibilidade para o país. Um exemplo: Mário Soares, que estava de férias no Algarve quando ocorreu o 11 de Setembro, interrompeu de imediato esses dias de descanso e dirigiu-se para Lisboa. É o instinto político a funcionar. Possivelmente, Soares, já na altura na condição de ex-presidente, nada fez (o que se poderia fazer?) para ultrapassar ou minimizar o pânico que então se vivia no mundo. Mas estava ali, pronto para o que desse e viesse, para ir a qualquer sítio onde porventura fosse necessário ir.
Ora, com Manuela Ferreira Leite isto não acontece, nem nunca acontecerá. Ameaçou, na altura das directas, não comparecer a um debate porque o seu neto nascia nessa altura em Londres. Agora, com a grave crise social que se avizinhava com a paralisação dos camionistas, não se ouviu e refugiou-se, novamente, no neto. Temos, assim, uma líder da oposição que, um pouco ao jeito de Cavaco, não nasceu para isto. Esta falha de cultura política é, indubitavelmente, o que mais prejudicará Manuela Ferreira Leite no seu âmbito programático enquanto líder do PSD. E é pena porque com esta atitude, Manuela Ferreira Leite está, inconscientemente, a prejudicar o espaço feminino na política. Com estes discursos de dona de casa, Ferreira Leite muito dificilmente granjeará o voto popular ou mesmo o voto do PSD. Exige-se, portanto, muito mais da actual líder do maior partido da oposição. A opção pela política deve ser encarada a tempo inteiro. Em nome da sua própria credibilidade.
Ora, com Manuela Ferreira Leite isto não acontece, nem nunca acontecerá. Ameaçou, na altura das directas, não comparecer a um debate porque o seu neto nascia nessa altura em Londres. Agora, com a grave crise social que se avizinhava com a paralisação dos camionistas, não se ouviu e refugiou-se, novamente, no neto. Temos, assim, uma líder da oposição que, um pouco ao jeito de Cavaco, não nasceu para isto. Esta falha de cultura política é, indubitavelmente, o que mais prejudicará Manuela Ferreira Leite no seu âmbito programático enquanto líder do PSD. E é pena porque com esta atitude, Manuela Ferreira Leite está, inconscientemente, a prejudicar o espaço feminino na política. Com estes discursos de dona de casa, Ferreira Leite muito dificilmente granjeará o voto popular ou mesmo o voto do PSD. Exige-se, portanto, muito mais da actual líder do maior partido da oposição. A opção pela política deve ser encarada a tempo inteiro. Em nome da sua própria credibilidade.
sexta-feira, junho 13, 2008
ser benfiquista, actualmente
O que este processo do possível afastamento do Futebol Clube do Porto da Liga dos Campeões revelou é que o Benfica é dirigido por gente sem nível algum. O modo como aquela gente salivou, na esperança doentia de conseguir um lugar na terceira eliminatória da Liga dos Campeões, é verdadeiramente confrangedor para quem olha a vida em geral e o desporto em particular assentes em valores desde sempre considerados basilares para a edificação de uma engrandecida humanidade. A dignidade de um clube vê-se com estes exemplos. Não me esqueço duma resposta de Pinto da Costa quando o Benfica perdeu 7-0 com o Vigo. Questionado por um jornalista se tinha gostado da derrota do Benfica, Pinto da Costa respondeu que gostava que o Benfica perdesse 7 a 0 com o Porto, mas não se deleitou com a pesada derrota em Vigo. Rui Costa sai muito mal na fotografia, ao pactuar (nem que seja pelo silêncio), com este tipo de apuramento gemido e pérfido.
irlanda: no
Durão Barroso diz, no alto do seu pedestal tribunício, que o voto negativo dos irlandeses no referendo ao Tratado de Lisboa não deve ser encarado como um voto contra a União Europeia. É claro que não. Não estou sequer muito certo que seja um voto em desfavor do Tratado. Na verdade, o que importa retirar, deste momento referendário, é o voto de protesto não só dos irlandeses tendo em conta um princípio de nacionalidade específico, mas enquanto cidadãos europeus. De facto, a maioria dos cidadãos europeus revêem-se nesta maioria do não, pois não querem uma Europa feita por meia dúzia de cabeças iluminadas, as quais viraram ostensivamente as costas aos cerca de 500 milhões de eleitores do continente. Por isso, enquanto os líderes que compõem este desfigurado espaço europeu continuarem nesta ânsia voraz de carreirismo (ao Sócrates fugiu-lhe, ontem, no Parlamento, a boca um bocadinho para a verdade), numa obsessiva demanda de um lugar na história (o nome, a assinatura, tornam-se mais importantes que o conteúdo, com se viu na paranóica ofuscação de fruirmos um tratado com o nome de Lisboa), não se pode construir uma Europa que se quer, sobretudo, virada para os cidadãos. Só que estes não podem (e não devem) continuar, por resultado de decisões políticas desapropriadas, de costas voltadas para essa mesma edificação de um espaço europeu que é de todos. Por conseguinte, é tempo do directório de sábios, residente em Bruxelas, deixar-se, definitivamente, influenciar-se pela voz do povo, o que não aconteceu, quando os franceses e holandeses já tinham votado da mesma forma o primeiro tratado. É que o povo é, no fundo, a própria Europa.
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quinta-feira, junho 12, 2008
hoje, no parlamento
O lapsus linguae do primeiro-ministro José Sócrates hoje, no debate parlamentar quinzenal, ao afirmar, desassombrado, que o voto afirmativo do povo irlandês ao referendo do Tratado de Lisboa era muito importante para a sua carreira política teve o seu equivalente na pergunta formulada pelo ex-presidente da Assembleia da República, Mota Amaral. Este "lançou o tema" que consistiu em saber por que é que José Sócrates não pediu aos irlandeses para votarem sim ao Tratado de Lisboa, como, aliás, fizeram o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso e o presidente francês, Sarkozy.
De facto, não se entende muito bem qual o alcance da questão de Mota Amaral. Por que razão deveria Sócrates entrar na campanha referendária da Irlanda? Mesmo tendo em conta que a matéria é de interesse objectivamente europeu, convém lembrar que a Irlanda foi o único país da União que submeteu a referendo o Tratado. Por isso, as deambulações de Sarkozy por este país a favor do sim são, no mínimo, patéticas, tendo em conta que a França, por intermédio do seu presidente, rejeitou, liminarmente, a consulta em referendo. Deste modo, a negação do referendo nos seus países obriga a uma espécie de ética de não intromissão numa campanha que eles próprios, internamente, rejeitaram.
De facto, não se entende muito bem qual o alcance da questão de Mota Amaral. Por que razão deveria Sócrates entrar na campanha referendária da Irlanda? Mesmo tendo em conta que a matéria é de interesse objectivamente europeu, convém lembrar que a Irlanda foi o único país da União que submeteu a referendo o Tratado. Por isso, as deambulações de Sarkozy por este país a favor do sim são, no mínimo, patéticas, tendo em conta que a França, por intermédio do seu presidente, rejeitou, liminarmente, a consulta em referendo. Deste modo, a negação do referendo nos seus países obriga a uma espécie de ética de não intromissão numa campanha que eles próprios, internamente, rejeitaram.
quarta-feira, junho 11, 2008
segregações
Os números apresentam-se frios e secos. Segundo relatórios oficiais, dezassete moçambicanos morreram e mais de trinta mil voltaram ao país, na sequência de ataques contra estrangeiros na África do Sul. Estes tiveram, no entanto, consequências ainda mais desastrosas que se saldaram em mais de sessenta mortos e a fuga de milhares de estrangeiros para centros de refugiados internos e países vizinhos.
Deste modo, a pergunta que se impõe é igualmente seca e - por que não? - provocadora: o que leva cidadãos que foram vítimas de um dos mais vergonhosos regimes que se desenvolveram, durante décadas, no século XX - que os obrigava, por exemplo, a medidas tão simplórias de ter que apanhar um autocarro próprio para pretos - a tornarem-se, agora, a finalizar o primeiro decénio deste século, em fomentadores de ódios segregativos e xenófobos, ao ponto de, com uma violência extrema, espancarem e matarem cidadãos pelo simples facto de serem... estrangeiros? Não faço a mínima ideia de como é que esta questão pode ser abordada.
Também na Europa, esse berço da civilização ocidental, vi há bem poucos dias, na televisão, um grupo de romanos a festejarem, com o braço direito bem hirto, denotando, desassombrados, a saudação fascista de Mussolini, a vitória do seu candidato - Gianni Alemanno, da Aliança Nacional - que os levou à presidência da Câmara Municipal de Roma. As diferenças não são, portanto, assim tantas. Sejam brancos ou pretos, haverá sempre razões que a própria razão desconhece.
Deste modo, a pergunta que se impõe é igualmente seca e - por que não? - provocadora: o que leva cidadãos que foram vítimas de um dos mais vergonhosos regimes que se desenvolveram, durante décadas, no século XX - que os obrigava, por exemplo, a medidas tão simplórias de ter que apanhar um autocarro próprio para pretos - a tornarem-se, agora, a finalizar o primeiro decénio deste século, em fomentadores de ódios segregativos e xenófobos, ao ponto de, com uma violência extrema, espancarem e matarem cidadãos pelo simples facto de serem... estrangeiros? Não faço a mínima ideia de como é que esta questão pode ser abordada.
Também na Europa, esse berço da civilização ocidental, vi há bem poucos dias, na televisão, um grupo de romanos a festejarem, com o braço direito bem hirto, denotando, desassombrados, a saudação fascista de Mussolini, a vitória do seu candidato - Gianni Alemanno, da Aliança Nacional - que os levou à presidência da Câmara Municipal de Roma. As diferenças não são, portanto, assim tantas. Sejam brancos ou pretos, haverá sempre razões que a própria razão desconhece.
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acordo antram-governo
O que fica, deste acordo anunciado entre a ANTRAM (Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias) e o Governo, é que, afinal, vale a pena os cidadãos - ou as associações em nome destes - optarem por formas de protesto radicais, como foi a que os camionistas iniciaram segunda-feira. De facto, a ser verdade o que vem na comunicação social, o Governo recuou em toda a linha, desde as portagens reduzidas no período nocturno, a majoração das despesas de combustíveis para efeito de despesas em sede de IRC (num mínimo de 20 por cento), a manutenção do valor do Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) em 2009, o imposto de camionagem nos valores de 2007 durante os próximos três orçamentos do Estado, etc.
Por outro lado, convém salientar que não são só sobre os camionistas que recai este agravamento dos preços dos combustíveis, pois outros trabalhadores, que utilizam o seu carro particular, diariamente, para trabalhar, são também fortemente penalizados por estas medidas económicas relacionadas com o preço do petróleo. Só que estes não têm associações para se defenderem.
Ainda dentro desta perspectiva conciliatória entre o Governo e a ANTRAM, um sinal cómico (e que tem a ver com os tempos que correm) veio - quem mais nos poderia agraciar?... - do ministro Mário Lino, ao introduzir, após longas horas de discussão, a divergência relativamente ao vocábulo a ser expandido na comunicação social. A ANTRAM queria "acordo", mas este extraordinário ministro disse que não, optando pelo mais inócuo "entendimento". Parece que levaram mesmo o caso a José Sócrates. Não me parece, porém, que tenha Sócrates a capacidade para definir, cabalmente, esta questão de um âmbito marcadamente sociolinguístico. Assim, é pena que estas coisas tenham o seu tempo próprio de decisão (não podíamos esperar muito tempo, sob pena do país ficar, efectivamente, paralisado), pois uma decisão deste tipo merece, sem dúvida, ser encarada de uma forma mais reflexiva e aprofundada. Seria até uma forma de preencher ainda mais o plano de trabalhos dessas agências de comunicação que tanto se fala - e pululam -, actualmente, na política.
E então? Em que é que ficamos? Entendimento ou acordo?
Por outro lado, convém salientar que não são só sobre os camionistas que recai este agravamento dos preços dos combustíveis, pois outros trabalhadores, que utilizam o seu carro particular, diariamente, para trabalhar, são também fortemente penalizados por estas medidas económicas relacionadas com o preço do petróleo. Só que estes não têm associações para se defenderem.
Ainda dentro desta perspectiva conciliatória entre o Governo e a ANTRAM, um sinal cómico (e que tem a ver com os tempos que correm) veio - quem mais nos poderia agraciar?... - do ministro Mário Lino, ao introduzir, após longas horas de discussão, a divergência relativamente ao vocábulo a ser expandido na comunicação social. A ANTRAM queria "acordo", mas este extraordinário ministro disse que não, optando pelo mais inócuo "entendimento". Parece que levaram mesmo o caso a José Sócrates. Não me parece, porém, que tenha Sócrates a capacidade para definir, cabalmente, esta questão de um âmbito marcadamente sociolinguístico. Assim, é pena que estas coisas tenham o seu tempo próprio de decisão (não podíamos esperar muito tempo, sob pena do país ficar, efectivamente, paralisado), pois uma decisão deste tipo merece, sem dúvida, ser encarada de uma forma mais reflexiva e aprofundada. Seria até uma forma de preencher ainda mais o plano de trabalhos dessas agências de comunicação que tanto se fala - e pululam -, actualmente, na política.
E então? Em que é que ficamos? Entendimento ou acordo?
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