segunda-feira, junho 09, 2008

cidadania europeia

Um dos postulados europeus (no sentido que deve ser enquadrada a União Europeia) de sempre, para além da livre circulação de pessoas e bens, é o da construção de uma verdadeira cidadania europeia. Daí que muitos dos tratados que têm vindo a ser assinados, culminando no de Lisboa, absorvem, como base programática, esta ideia da Europa dos cidadãos. Só que, quando não existe, no seio da União, políticos com carisma suficiente e capazes de erigir uma verdadeira política virada para os cidadãos, optando antes por um refúgio acomodatício nos articulados - muitas vezes ilegíveis - dos tratados, pode acontecer que, à margem dessas linhas alinhavadas em incontáveis reuniões e em escritórios fechados, os cidadãos levantem, dignamente, o pressuposto da cidadania europeia. É o que está acontecer por essa Europa fora, com os protestos contra o aumento dos combustíveis. Ou seja: estamos perante um verdadeiro sentir transnacional que releva, afinal, que pode acontecer uma verdadeira União Europeia. O irónico é que os governantes são, mas agora por completa inabilidade, os culpados de tudo isto.

domingo, junho 08, 2008

200 mil manifestantes, menezes e presidenciais EUA

Juro que também a mim passou despercebida a manifestação de 200 mil descontentes com a acção deste governo. Faço, desde já, aqui, a mea culpa. Para quem (como foi o meu caso), neste últimos dias, viu os telejornais e fizeram leituras diagonais da imprensa escrita, o país deixou de existir. Vivemos numa espécie de nada que não é, ao contrário do que afirmava Pessoa, tudo. É mesmo nada.
Entretanto, soube também a posteriori que Menezes chamou, em rigorosa linguagem de tasca, canalha a Pacheco Pereira. Não sei se o emotivo presidente da Câmara Municipal de Gaia sabe, mas perdeu, com o seu posicionamento durante as directas do seu partido, todo o capital de confiança que, segundo propagandeou, lhe conferiria, se se candidatasse, mais de 50% dos votos (penso que chegou aos 60%).
Noutras latitudes, Hillary já deu os parabéns a Obama, convergindo no slogan do candidato "yes we can". Um gesto de nobreza política que prenuncia mudanças num país que se afundou nos últimos 8 anos, levando grande parte do globo com ele.
Entretanto, a selecção de futebol ganhou 2-0 à Turquia e eu levei 30 minutos de telejornal com a equipa das quinas, ou magriços, ou viriatos, ou clube de Portugal, ou lá como estes espantosos jornalistas desportivos costumam chamar à "equipa de todos nós".

sábado, junho 07, 2008

não há alternativas

Tem sido assim ao longo dos tempos. Os "ajudantes" de Cavaco, a certa altura, começaram a vociferar que não havia alternativas à maioria absoluta cavaquista. Com Guterres, já não havia ajudantes, mas uma e outra voz lá se levantava, e, timidamente, não resistiam a entrar pela mesma linha de orientação programática. Depois, houve um apaziguamento deste tipo de retórica, embora os dislates discursivos não tivessem abrandado, pois Barroso inaugurou o famoso discurso da tanga e Santana decretou o fim da crise. Agora, no consulado de José Sócrates, novamente num governo de maioria absoluta, já não vislumbramos os ajudantes cavaquistas, pelo menos com foram definidos pelo actual Presidente da República. No entanto, este governo acarreta o peso de uma maioria e, assim, afigura-se tarefa quase impossível suprimir, na totalidade, este tipo de assistentes iluminados, pois vivem, quais peixes pegadores evocados pelo Padre António Vieira no seu sermão na cidade de São Luís do Maranhão, em 1654, parasitando ao redor da ilusão dos votos. Por isso, não se coíbem em elaborar raciocínios apurados e pretensiosamente estratégicos, os quais resultam, afinal, em dedutivas boçalidades. Parece que grande parte desta incumbência, neste governo, fica a cargo de Vitalino Canas, porta-voz do PS e, segundo estranhamente se avalia, também do governo. Deste modo, Vitalino Canas apossou-se de uma das mais infelizes frases feitas que pode existir num regime democrático, que é o de afirmar, desinibida e arrogantemente, que não existe uma alternativa política a este governo PS.
Ora, como toda a gente sabe (menos o Vitalino Canas), em democracia há sempre uma alternativa. Na verdade, ele não vê que este tipo de raciocínio tubiforme constitui, numa leitura levada às últimas consequências, uma espécie de enxovalho para o Presidente da República. Até porque este continua com o poder, que a constituição lhe confere (artigo 133), de dissolver a Assembleia da República e de convocar novas eleições, ou até de eleger um governo de iniciativa presidencial. Para além disso, convém nunca esquecer – e parece que os políticos actualmente não relevam este facto – que a soberania da República reside, constitucionalmente, no povo. Por isso, em democracia, a última e definitiva resposta caberá sempre ao povo que, através do voto, elege mas também pune os governos.
Deste modo, quando alguém próximo dos governos, ajudante ou não, começa a definir uma estratégia de exclusividade (ou nós ou o caos), o resultado é, em geral, funesto para o executivo. Por isso, só me espanta como é que esta gente não tem aprendido ao longo destes anos. O curioso é que, depois de perderem as eleições, todos são capazes de vislumbrar o que agora, por mero oportunismo político, não conseguem atingir. Será, assim, o tempo das análises sectoriais, dos dedos apontados ao chefe, das acusações de insensibilidade, das obsessões irrelevantes, das inabilidades, dos deslumbramentos, em suma, da acusação que o governo não foi capaz de escutar e de olhar frontalmente para as pessoas, ou melhor, para o povo, substituindo-o, antes, por números. E é este mesmo povo que, sentindo-se desprezado por um governo que não governa tendo em conta, primeiramente, as necessidades das pessoas, faz uso daquilo que, em democracia, é a sua arma. E é assim que as eleições se perdem.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes no dia 12/06/2008)

quinta-feira, junho 05, 2008

abastecer em espanha

Vi hoje na televisão, num telejornal, que a frota de camiões da Câmara Municipal de Tavira abastece de gasóleo em Espanha, junto à fronteira. Ora, este feito, não constituindo, obviamente, crime, é deveras extraordinário. E é extraordinário porque uma autarquia faz parte natural de uma pirâmide pública cujo cume se situa no chamado estado central, embora, com sabemos, o sistema político-administrativo local usufrua de uma autonomia praticamente intocável. Lembrei-me dum famoso grito dum presidente da Câmara de Freixo de Espada-à-Cinta, ameaçando, também na televisão, há uns anos, a respeito já não sei do quê, que ou o Estado olhava para eles ou entregava tudo aos espanhóis. A metáfora que o verbo acarretava, naquele tempo, adquiriria hoje um sentido bem mais ligeiro e suave.

quarta-feira, junho 04, 2008

o país de emigrantes

É este tipo de recepção que a selecção teve na Suíça que nos provoca um conjunto de reflexões paradoxais. Se, por um lado, é um absurdo este endeusamento a um grupo de 23 rapazolas e um treinador que ganham não sei quantos milhares de euros por mês e que, no caso do treinador, constitui uma triste aposta publicitária da CGD - paga, naturalmente, de acordo com os pergaminhos do senhor Scolari -, por outro lado, os emigrantes, endoidecidos por uma selecção de futebol, exaltam uma certa imagem de Portugal como um país de emigrantes. Uma imagem que se iniciou, no princípio do século XX, com o Brasil, passando, com Salazar, para destinos mais próximos (França, Suíça, Alemanha), retomando, agora, um pressentido e desditoso ímpeto emigratório, ao procurarmos, na Inglaterra e noutros países afins, o futuro que Portugal não consegue garantir. Por isso, aquela gente ainda olha para um autocarro pintalgado, repleto de óculos escuros e de ipod's ornamentais e vê, antes de tudo, o pai, a mãe, uma aldeia, a tasca do futebol mas, principalmente, uma bandeira. Só depois é que vêm os Scolaris e os Figos (parece que foi nomeado embaixador da selecção!). Valha-nos, ao menos, isso.

segunda-feira, junho 02, 2008

a expo de saragoça

Já se falou aqui do verdadeiro significado, para um país, dum verdadeiro desenvolvimento homogéneo. A Espanha, que muito nos (paradoxalmente) conforta e apoquenta é exemplo desse paradigma. Agora, a Exposição Mundial é em...Saragoça, uma cidade com pouco mais do que 600 mil habitantes. Digo agora porque os exemplos multiplicam-se. Nós, por cá, estamos à espera que descortinem uma outra área de Lisboa degradada que precise dumas obrazitas para empreendermos um outro caminho místico que afirme Portugal no mundo.

a vitória de manuela

Manuela Ferreira Leite constituiu a pior projecção para José Sócrates. E a razão primeira que se prende a esta asserção liga-se à capacidade surpreendentemente revelada da líder do PSD em construir uma imagem que Sócrates, artificial e desatinadamente, tem vindo a erigir. Até as associações que a imprensa tem vindo a fazer, ligando Manuela Ferreira Leite às actuais linhas políticas orientadoras do Partido Socialista, ou melhor, do governo (porque não se conhece ao PS algum assomo ideológico que não passe por ser uma espécie de almofada do executivo), favorecem objectivamente a candidata. Na verdade, os portugueses têm demonstrado, ao longo destes trinta e poucos anos de democracia (e até mesmo durante os 48 anos de ditadura) não gostarem de mudanças bruscas do panorama político-governativo. Assim, vão ter, em 2009, a oportunidade de uma pequeníssima mudança. Deste modo, votando em Manuela Ferreira Leite sabem que elegem a imagem original de Sócrates. Ainda para mais quando a ex-ministra das finanças de Cavaco Silva (que a partir de agora não está seguro na sua reeleição) se transfigura, extraordinariamente, para uma orientação desburocratizada e vincadamente social. Enquanto isso, a política portuguesa continuará mais do mesmo, isto é, nada muda efectivamente, a não ser os efémeros e cada vez mais irónicos estados de graça. No entanto, se a perspectivada maioria relativa (PS ou PSD) se concretizar estaremos perante um tímido sinal metamórfico.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...