sábado, maio 31, 2008

passos coelho ganhou o futuro

É uma ideia errada a que está expressa no título deste post e que muitos comentadores - abrangendo praticamente a unanimidade - têm sistematicamente aventado. Na verdade, Pedro Passos Coelho não ganhou nada. Antes pelo contrário, perdeu as directas, ficando em segundo lugar no número de militantes que nele confiaram para liderar o partido. Por isso, esta espécie de futurologia em torno do ex-candidato sofre, antes de mais, duma clara miopia política. É que isto de reservas morais, principalmente quando o que está aqui em causa se liga à idade do candidato (tem futuro, ganhou o futuro, mais oportunidades terá, etc. etc. etc.) não é matéria de grande interesse político-partidário. A não ser, é claro, para aqueles que teimam, incessantemente, em alimentar uma imprensa que liga, cada vez mais, a este tipo de fait divers.

o ataque de menezes

Luís Filipe Menezes, no último dia da campanha, deu um ar da sua graça, ao proclamar que não apoiaria ninguém mas... mas que saberia muito bem em quem votar (ou não teria dúvidas) se, em vez de directas partidárias, tivéssemos perante eleições legislativas. É evidente que Menezes, com estas rasteirinhas de trazer por casa, referia-se a Manuela Ferreira Leite, quando esta hesitou à pergunta se tinha ou não votado em Santana Lopes (teria sido só ela a não votar em Santana?!...).
Mas o mais interessante, a meu ver, destas asserções menezistas, liga-se ao facto de ter garantido que, com ele na disputa da liderança, ganharia com larga margem de diferença face aos restantes candidatos. Ora, esta divagação leva-nos, invariavelmente, à seguinte pergunta: se tinha tanta fé na vontade e crença dos militantes, por que é que não se candidatou? A resposta reside, portanto, na auto-análise que o líder cessante faz do seu percurso como presidente do partido. Mais: com estas declarações, o autarca de Gaia remeteu-se, de forma definitiva (embora ele acredite ou tente passar a mensagem que assim não será), para o feudo autárquico. Deste modo, o presidente da Câmara de Gaia salientou o engano que foi a sua eleição a líder do partido. É, sem dúvida, um digno rebate de consciência que vai mesmo contra, segundo o próprio, a vontade dos militantes.

quinta-feira, maio 29, 2008

a moção de censura

Este post poder-se-ia chamar As moções de censura, isto é, alterá-lo para o plural, visto que o governo de José Sócrates já conta com três moções de censura, depois do PCP e o Bloco de Esquerda terem desencadeado essa prerrogativa parlamentar. Agora, foi a vez do CDS-PP, em nome do combate a políticas desastrosas (segundo as palavras de Portas) para áreas tão sensíveis como a saúde, a economia, a educação e segurança, apresentar a sua tentativa de derrube, por via parlamentar, do governo. Ora, uma moção representa, na vida democrática e parlamentar, uma atitude que se posiciona, dentro das várias formas de censurar o governo, como o recurso mais extremoso que os partidos com assento parlamentar possuem.
Por isso, ouvir o José Sócrates dizer que a moção de censura do CDS-PP é "puro oportunismo político" parece-me um argumento demasiado pobre e tubular. Até porque, obviamente, uma moção de censura representa, dentro do desenho estrutural de um grupo parlamentar, um acto político ou, se quisermos, um acto de oportunismo político. Mas não é por aí que o primeiro-ministro se deveria encostar. Uma moção de censura é um acto demasiado sério para ser discutido desse modo. De facto, com esta atitude pavorosamente superficial (se tivermos em linha de conta que Sócrates é o primeiro responsável do governo), José Sócrates contribuiu, decididamente, para a construção duma imagem que se posiciona entre a leveza e a saturação ou, se quisermos, entre um autismo e alguns tipos de tiques que completam aquilo que Mário Soares chamou, em tempos, ao governo de Cavaco Silva, ditadura da maioria.
E para ajudar à festa, veio o Alberto Martins, líder bem-falante da maioria parlamentar socialista, com aquela pérola da "linguagem imagética animalesca" referindo-se, sem ironia, a Francisco Louçã.

outra vez a avaliação

Temos, novamente, a avaliação dos professores na ordem do dia sindical. Agora, são as quotas, emanadas pelos teóricos do Ministério da Educação, os quais proclamam que as escolas só poderão atribuir um máximo de 10% de classificações de "Excelente" e 25% de "Muito Bom", no âmbito da avaliação de desempenho dos professores, mas só se tiverem nota máxima nos cinco domínios que compõem a avaliação externa. Ou seja: segundo a minha leitura (e confesso que começo a estar cansado desta gente do ministério, nem sei, aliás, a razão por que ainda permanecem nos lugares que, para mal de todos nós, ocupam), a avaliação dos professores estará sempre dependente da avaliação da escola, mesmo que aqueles que são avaliados não tenham uma relação directa com o último momento de avaliação externa do estabelecimento de ensino (por exemplo, os professores que, no ano seguinte, iniciam, pela primeira vez nessa escola, as suas aulas). Mas a culpa é também dos sindicatos que se deixaram enredar pelo canto da sereia do ministério e andaram por aí a cantarolar vitória que, afinal - sabe-se agora - não foi mais do que simpáticos recuos administrativos. Enquanto isso, a educação afunda-se cada vez mais neste lamaçal que o Ministério desenvolveu, em nome duma obtusa transparência, em nome duma hipócrita exigência.
Na verdade, o que, ao longo destes últimos anos, se tem andado a debater não é educação. Neste sentido, é paradigmático como é que este despacho que define a percentagem dos "Muitos Bons", dos "Bons", dos "suficientes", etc. que cada escola deve estabelecer, foi apresentado, em conjunto, pelos ministérios da Educação e da Finanças. Curioso, não é?

quarta-feira, maio 28, 2008

o aviso de soares

As declarações de ontem de Mário Soares, publicadas no DN, em que o fundador do PS aconselhou o governo a estar mais atento às questões sociais (como a pobreza, exclusão social, desigualdades, etc.) irritaram, segundo os jornais de hoje, algumas personalidades do partido começando, desde logo, por José Sócrates. Já ontem, Mário Lino, esse extraordinário ministro das Obras Públicas, referiu, num tom zangadito, que "o PS e o Governo não estão a dormir e à espera que Mário Soares faça um aviso para de repente dar conta do problema" (não sei se Mário Lino é militante do PS mas, mesmo que o seja, não lhe fica bem falar, simultaneamente, em nome do governo e do partido).
Mas o que estas declarações do ex-presidente da República revelam é que, afinal, Sócrates não conseguiu, ao eleger Mário Soares como o candidato natural do PS às presidenciais (e desastradamente anuído por este), fazer com que esta "voz incómoda" (obviamente já se imaginava que a "esquerda moderna", slogan de Sócrates nas directas do PS, colidia com o perfil identitário do partido, que Soares é o primeiro responsável) se tornasse uma "voz amansada". Seria, de facto, um resultado surpreendente, para quem conhece o pensamento político do fundador do Partido Socialista. Por outro lado, é também sintomático que, afinal, Alegre e Soares - os dois candidatos socialistas derrotados - fazem parte da mesma esquerda que, não sendo moderna, à Tony Blair, é, sobretudo, social. Por isso é que, em 2006, houve um confronto contranatura entre estes dois militantes socialistas. Daí que, paulatinamente, a reconstrução (vocábulo, porventura, demasiado carregado) do Partido Socialista se torne, cada vez mais, uma realidade. Nem que para isso seja necessário perder as eleições em 2009.

ribau apoia santana

Santana tem, finalmente, um apoio de peso, "um militante fervoroso do partido, secretário-geral eficaz e sobretudo um autarca com obra muito reconhecida", segundo as palavras do candidato. De facto, Ribau declarou, para surpresa do candidato, o apoio à candidatura de Santana Lopes. Não compreendo a surpresa de Santana. Se há alguém, entre os candidatos, que merece o apoio natural de Ribau, é o ex-primeiro-ministro. Quanto aos outros, fazem como John MacCain em relação a George Bush: fogem dele como o diabo da cruz!

(resposta a um leitor anónimo)

Não posso deixar de responder ao meu leitor anónimo, que reconhece o seu cansaço em me ler, devido, essencialmente, segundo o seu ponto de vista, à "tónica extremamente negativa e pessimista que corre nos seus [meus] apontamentos". Ora, em primeiro lugar, congratulo-me com o optimismo social do leitor. Sim, porque, rebatendo - como legitimamente o faz -, as minhas ideias, apelidando-as de pessimistas, concluo, sem grande exigência de análise, que o leitor anónimo é, de facto, um optimista crónico. O que não há mal nenhum, diga-se de passagem...
Mas o que se debate, aqui neste espaço, não é propriamente estados enlevados de alma. O que realmente interessa contemplar, neste nosso tempo, é o estado social da nossa contemporaneidade, com especial inclinação para a nossa portugalidade. Ou seja: importa debruçarmo-nos, atenta e lucidamente, sobre nós próprios, enquanto povo e país secular que já deu provas de grandes conquistas civilizacionais (não estou a falar de futebol) e tentar ultrapassar sintomatologias sociais negativas, as quais, devido à sua transversalidade, afectam, de modo igualmente negativo, o cidadão e, principalmente o país.
É por isso que eu, ser originariamente positivo, não posso olhar, com o mesmo optimismo com que nasci, a saúde, a educação e a justiça do meu país. Só para dar alguns exemplos padronizados. Por mera proposta intelectual, aconselho o meu leitor anónimo a ler o artigo do Mário Soares no DN de hoje. Ainda para mais quando se sabe que o ex-presidente da República de pessimista tem muito pouco.

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...