terça-feira, maio 27, 2008
desigualdades sociais
Não posso deixar de estar de acordo com Medina Carreira quando advoga uma acréscimo de tributação fiscal para os ordenados duas vezes superiores ao do Presidente da República. As palavras dele vêm, de facto, ao encontro daquilo que é realmente um verdadeiro estado civilizacional e inclusivo. O exemplo que deu em que existem pessoas, nesta Europa de valores (em Portugal), que ganham mais num dia que muitos trabalhadores numa vida inteira é, simplesmente, uma forma vergonhosa do nosso tempo se mostrar.
o faz tudo
Curioso o apontamento de Basílio Horta quando afirmou, no programa Prós e Contras, que viu José Sócrates, na recente visita à Venezuela, sentado à secretária, discutir o macarrão e outras espécies alimentares com o interlocutor venezuelano. Ora, eu fico um bocado preocupado quando o primeiro-ministro de Portugal se debruça nestas questões menores. A explicação pode ser, simplesmente, baseada em termos de personalidade. Já Salazar, ao que parece, dava ordens à sua governanta para comprar a batata e o arroz em determinadas mercearias (criava também coelhos e galinhas nos jardins de S. Bento).
Mas o que realmente me assusta é esta vertente de tudo querer abarcar, o que pode ser revelador de um sintoma de fragilidade. Para além disso, parece óbvio que a confiança nos seus "ajudantes" (foi assim que Cavaco, um dia, se referiu aos seus ministros) já teve melhores dias.
Mas o que realmente me assusta é esta vertente de tudo querer abarcar, o que pode ser revelador de um sintoma de fragilidade. Para além disso, parece óbvio que a confiança nos seus "ajudantes" (foi assim que Cavaco, um dia, se referiu aos seus ministros) já teve melhores dias.
segunda-feira, maio 26, 2008
domingo, maio 25, 2008
o neto de ferreira leite
O que quererá transmitir Manuela Ferreira Leite quando, orgulhosamente, afirma que, se o seu primeiro neto nascer por altura do debate televisivo da SIC, não fará parte desse encontro televisivo entre os candidatos a líder do partido? Na verdade, este tipo de linguagem desprendida por parte da candidata começa a maçar. Estou em crer que esta postura, por parte de Manuela Ferreira Leite, só a prejudica, pois os militantes social-democratas começam a olhar para ela como uma candidata que está numa eleição a contragosto, sem convicção alguma.
Apetece-me lembrar o episódio em que Mário Soares, com visita agendada à Hungria (?), recebeu a notícia que o seu filho se encontrava entre a vida e a morte, quando o avião que o transportava caiu em terras africanas. Mesmo assim, o então Presidente da República não adiou a visita oficial ao país da Europa Central. É por estas e por outras que a política anda como anda.
Neste sentido, podemos esboçar uma análise comparativa destes dois tempos ou destas duas espécies de políticos tendo em conta a derivação semântica de uma só palavra: missão. Ou de duas: causa pública.
Apetece-me lembrar o episódio em que Mário Soares, com visita agendada à Hungria (?), recebeu a notícia que o seu filho se encontrava entre a vida e a morte, quando o avião que o transportava caiu em terras africanas. Mesmo assim, o então Presidente da República não adiou a visita oficial ao país da Europa Central. É por estas e por outras que a política anda como anda.
Neste sentido, podemos esboçar uma análise comparativa destes dois tempos ou destas duas espécies de políticos tendo em conta a derivação semântica de uma só palavra: missão. Ou de duas: causa pública.
culto ao líder
Sabemos que Santana Lopes, num assomo qualquer indecifrável, chamou socialista de meia-tigela ao primeiro-ministro José Sócrates. Na verdade, o homem anda em campanha eleitoral e, de repente, deu-lhe para um discurso cuja vertente social se encontra hiperconsciencializada. Aliás, esta viragem à esquerda, no que diz respeito às questões sociais, é comum a todos os candidatos. Este facto dá para vislumbramos como é que anda a política à portuguesa. Convém dizer que o epíteto de Santana a Sócrates tinha como base a referência à fome que ainda existe em Portugal, segundo o líder parlamentar do PSD, e a consequente falta de sensibilidade do primeiro-ministro para esta franja cada vez maior da população. Daí que o termo "socialista de meia-tigela" adquira, neste âmbito, um significado pertinente e lógico (Santana, ao colar, deste modo ingénuo, a vertente social ao Partido Socialista, presta um mau serviço ao seu próprio partido e a ele próprio enquanto ex-primeiro-ministro).
O que é de todo inconcebível, no meio desta poeira retórica e eleitoralista, é que o sr. Vitalino Canas, porta-voz do PS, venha, em defesa de Sócrates, erigir um saloio e inadequado culto ao líder do PS e líder do governo. Diz ele que não gostou de ouvir Santana e que esta expressão é de "baixíssimo nível". Para além disso, acrescentou que compreende que Santana não goste de Sócrates porque este já lhe infringiu uma pesada derrota eleitoral. É tudo, portanto, para Vitalino Canas, uma questão de sensibilidades e percepções vocabulares e semânticas. Não deveria, pois, Vitalino Canas ir por aí, logo numa altura em que o líder do seu partido foi condenado pelo tribunal a uma indemnização de 10000 euros a António Cerejo, jornalista do Público, precisamente por lhe ter apontado, em artigo escrito, sintagmas adjectivais que desprestigiam a honra e a idoneidade pessoal e profissional do jornalista. Pelo menos, foi assim que sentenciou o tribunal.
O que é de todo inconcebível, no meio desta poeira retórica e eleitoralista, é que o sr. Vitalino Canas, porta-voz do PS, venha, em defesa de Sócrates, erigir um saloio e inadequado culto ao líder do PS e líder do governo. Diz ele que não gostou de ouvir Santana e que esta expressão é de "baixíssimo nível". Para além disso, acrescentou que compreende que Santana não goste de Sócrates porque este já lhe infringiu uma pesada derrota eleitoral. É tudo, portanto, para Vitalino Canas, uma questão de sensibilidades e percepções vocabulares e semânticas. Não deveria, pois, Vitalino Canas ir por aí, logo numa altura em que o líder do seu partido foi condenado pelo tribunal a uma indemnização de 10000 euros a António Cerejo, jornalista do Público, precisamente por lhe ter apontado, em artigo escrito, sintagmas adjectivais que desprestigiam a honra e a idoneidade pessoal e profissional do jornalista. Pelo menos, foi assim que sentenciou o tribunal.
as justificações de jardim
João Jardim diz que reflectiu muito quando decidiu não se candidatar a líder do PSD. Em artigo no Primeiro de Janeiro, o líder madeirense aponta as razões por que não se candidata. Salienta, entretanto, que tinha já congregado as candidaturas necessárias, assim como recebeu centenas de telefonemas do continente, oferecendo-lhe o respectivo apoio incondicional. No entanto, decidiu não avançar. Só que Jardim tem essa capacidade, um tanto irrisória e patética, de mistificar o que não é mistificável ou, quando isso não acontece, de se auto-mistificar. Explicando: diz Alberto João Jardim, em tom crítico, que não aceita "posicionamentos que, pactuando com uma derrota em 2009, se baseiam num calculismo para o posteriormente". Muito bem! De facto, o PSD tem pago, de forma atroz, as diversas recusas politicamente cobardes dos chamados barões em se candidatarem a líderes do partido, precisamente em nome dum oportunismo político que, cedo ou tarde, acaba sempre por florescer. Daí se justifica como é que Santana Lopes chegou a líder e - mais espantosamente - a primeiro ministro, ou como Luís Filipe Menezes conseguiu, em directas, a vantagem sobre Marques Mendes. O tempo não corria, portanto, a favor da nobreza partidária. Por isso, Menezes tem razão quando faz deste facto um ponto de batalha (ou até de honra) política. Jardim está, assim, na linha de actuação do ainda líder do partido, isto é, contra os calculismos políticos que mais não fazem do que afundar cada vez mais o partido.
Só que Alberto João Jardim não é - nunca foi - um exemplo de coerência. Neste artigo, não deixa de deixar portas abertas para um futuro próximo. Ou seja: do mesmo modo que arrisca afirmar, categórico, que não aceita posicionamentos calculistas, pede, poucas linhas adiante, calma às centenas de cidadãos que, do continente, lhe enviaram mensagens de apoio. E a justificação que nos apresenta para esse pedido é que "estamos a atravessar uma situação que é um mero episódio". Ora, esta fase episódica, na razão do líder madeirense, terá o seu fim desejável no congresso do partido, que se realizará depois das directas.
Desgraçadamente, Jardim sonha com um levantamento nacional que levante o seu nome a um ponto incontornável. E para que isso aconteça, ele sabe que o melhor é ir espalhando, no seio desta família que é o PSD, ou melhor, as suas afamadas bases, pérolas retóricas que não fazem mais do que, como atrás referi, mistificar aquilo que não é mistificável.
Só que Alberto João Jardim não é - nunca foi - um exemplo de coerência. Neste artigo, não deixa de deixar portas abertas para um futuro próximo. Ou seja: do mesmo modo que arrisca afirmar, categórico, que não aceita posicionamentos calculistas, pede, poucas linhas adiante, calma às centenas de cidadãos que, do continente, lhe enviaram mensagens de apoio. E a justificação que nos apresenta para esse pedido é que "estamos a atravessar uma situação que é um mero episódio". Ora, esta fase episódica, na razão do líder madeirense, terá o seu fim desejável no congresso do partido, que se realizará depois das directas.
Desgraçadamente, Jardim sonha com um levantamento nacional que levante o seu nome a um ponto incontornável. E para que isso aconteça, ele sabe que o melhor é ir espalhando, no seio desta família que é o PSD, ou melhor, as suas afamadas bases, pérolas retóricas que não fazem mais do que, como atrás referi, mistificar aquilo que não é mistificável.
sexta-feira, maio 23, 2008
desigualdades sociais
Segundo um relatório da União Europeia (Eurostat), Portugal é o país da União com maior disparidade na repartição dos rendimentos. No lado oposto, os países com uma vertente social e distributiva mais igualitária são os que se situam no norte da Europa, nomeadamente a Suécia e Dinamarca.
Não é, de todo, surpreendente, o resultado desta estatística. Confesso que, embora me sinta amargurado vendo que Portugal se posiciona em último lugar numa lista que é, provavelmente, a que maior pertinência possui para avaliar os índices civilizacionais de um país (basta reparar nos países do terceiro mundo e depressa verificamos que, no que diz respeito a desigualdades sociais, conseguem-nos superar), o que me realmente me espanta (e é espanto mesmo) é ouvir a justificativa do Secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques, ao remeter o estudo do Eurostat para o ano de 2004 salientando que, actualmente, estas discrepâncias estão já diminuídas. Tem razão o Secretário de Estado: o mesmo estudo, mas reportando-se agora ao ano de 2006, coloca Portugal à frente da Letónia. Acrescenta ainda o membro do governo os desconchavos do costume, como a aposta em áreas prioritárias de intervenção, as quais se constringem a três: melhoria das qualificações (Programa Novas Oportunidades), rendimentos (com o salário mínimo "a atingir aumentos sem precedentes") e protecção social (apoio às famílias mais carenciadas).
Não creio que estas medidas, embora sejam consensuais e positivas, façam com que a situação social, em Portugal, se altere significativamente. Na verdade, com o aumento generalizado dos bens de consumo, a precariedade crescente nos empregos (recibos verdes, contratos a prazo ad eternum, etc.), os ordenados congelados e deploráveis, o mais certo é a verificação de um agravamento das desigualdades sociais, o que conduzirá, inevitavelmente, a um crescimento progressivo e preocupante daquilo que os cientistas sociais apelidam de exclusão social, entendida esta como a fase extrema dum paulatino processo de marginalização. Ora, como é fácil entender, a exclusão social, embora não esteja directamente ligada à pobreza (podemos ser pobres sem nos sentirmos socialmente excluídos), é, contudo, maioritariamente fomentada por situações de carência monetária, pois os recursos das famílias pobres ficam tão seriamente abaixo da média nacional que aquelas ficam, de facto, excluídas dos padrões de vida, costumes e actividades correntes, isto é, de alguns dos sistemas sociais básicos. Dentro desta perspectiva padronizada dos sistemas sociais básicos, podemos destrinçar, por exemplo, a área social (famílias, vizinhança, associativismo, mercado de trabalho, etc.), o domínio económico (salário, poupanças, etc.), o domínio institucional (sistemas educativo, de saúde, de justiça, direitos cívicos, etc.), o domínio territorial (o caso concreto das zonas marginalizadas das grandes cidades como os bairros de lata, ou, em concelhos rurais, as freguesias esquecidas pelo poder central, o que, muitas vezes, conduz a uma migração crescente para zonas mais desenvolvidas) e, finalmente, as chamadas referências simbólicas, isto é, uma dimensão subjectiva do fenómeno da exclusão, a qual se traduz numa perda de referências importantes que o excluído sofre, como a sua própria identidade social, a auto-estima, a auto-confiança, a capacidade de iniciativa, o sentido de pertença à sociedade e, sobretudo, a capacidade de visionar positivamente o futuro.
Assim, é importante relevar que a exclusão social, estimulada pelas desigualdades sociais, é também um problema político, pois constitui, eventualmente num primeiro plano, um problema de cidadania. Daí que a responsabilização do governo (e de todos os cidadãos, evidentemente) deva ser encarada como prioritária no sentido de atenuar as repercussões individuais (e colectivas) desta sombria conjuntura social. No entanto, os sinais que o actual governo tem vindo a esboçar neste combate fundamental para o equilíbrio civilizacional do país (através, por exemplo, da recusa em intervir na regulação de alguns nichos de mercado, como os combustíveis) são, ainda, muito ténues.
Veremos, pois, se conseguimos empreender, enquanto país, de uma vez por todas, um verdadeiro combate a situações que nos devem a todos envergonhar.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes no dia 29/maio/2008)
Não é, de todo, surpreendente, o resultado desta estatística. Confesso que, embora me sinta amargurado vendo que Portugal se posiciona em último lugar numa lista que é, provavelmente, a que maior pertinência possui para avaliar os índices civilizacionais de um país (basta reparar nos países do terceiro mundo e depressa verificamos que, no que diz respeito a desigualdades sociais, conseguem-nos superar), o que me realmente me espanta (e é espanto mesmo) é ouvir a justificativa do Secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques, ao remeter o estudo do Eurostat para o ano de 2004 salientando que, actualmente, estas discrepâncias estão já diminuídas. Tem razão o Secretário de Estado: o mesmo estudo, mas reportando-se agora ao ano de 2006, coloca Portugal à frente da Letónia. Acrescenta ainda o membro do governo os desconchavos do costume, como a aposta em áreas prioritárias de intervenção, as quais se constringem a três: melhoria das qualificações (Programa Novas Oportunidades), rendimentos (com o salário mínimo "a atingir aumentos sem precedentes") e protecção social (apoio às famílias mais carenciadas).
Não creio que estas medidas, embora sejam consensuais e positivas, façam com que a situação social, em Portugal, se altere significativamente. Na verdade, com o aumento generalizado dos bens de consumo, a precariedade crescente nos empregos (recibos verdes, contratos a prazo ad eternum, etc.), os ordenados congelados e deploráveis, o mais certo é a verificação de um agravamento das desigualdades sociais, o que conduzirá, inevitavelmente, a um crescimento progressivo e preocupante daquilo que os cientistas sociais apelidam de exclusão social, entendida esta como a fase extrema dum paulatino processo de marginalização. Ora, como é fácil entender, a exclusão social, embora não esteja directamente ligada à pobreza (podemos ser pobres sem nos sentirmos socialmente excluídos), é, contudo, maioritariamente fomentada por situações de carência monetária, pois os recursos das famílias pobres ficam tão seriamente abaixo da média nacional que aquelas ficam, de facto, excluídas dos padrões de vida, costumes e actividades correntes, isto é, de alguns dos sistemas sociais básicos. Dentro desta perspectiva padronizada dos sistemas sociais básicos, podemos destrinçar, por exemplo, a área social (famílias, vizinhança, associativismo, mercado de trabalho, etc.), o domínio económico (salário, poupanças, etc.), o domínio institucional (sistemas educativo, de saúde, de justiça, direitos cívicos, etc.), o domínio territorial (o caso concreto das zonas marginalizadas das grandes cidades como os bairros de lata, ou, em concelhos rurais, as freguesias esquecidas pelo poder central, o que, muitas vezes, conduz a uma migração crescente para zonas mais desenvolvidas) e, finalmente, as chamadas referências simbólicas, isto é, uma dimensão subjectiva do fenómeno da exclusão, a qual se traduz numa perda de referências importantes que o excluído sofre, como a sua própria identidade social, a auto-estima, a auto-confiança, a capacidade de iniciativa, o sentido de pertença à sociedade e, sobretudo, a capacidade de visionar positivamente o futuro.
Assim, é importante relevar que a exclusão social, estimulada pelas desigualdades sociais, é também um problema político, pois constitui, eventualmente num primeiro plano, um problema de cidadania. Daí que a responsabilização do governo (e de todos os cidadãos, evidentemente) deva ser encarada como prioritária no sentido de atenuar as repercussões individuais (e colectivas) desta sombria conjuntura social. No entanto, os sinais que o actual governo tem vindo a esboçar neste combate fundamental para o equilíbrio civilizacional do país (através, por exemplo, da recusa em intervir na regulação de alguns nichos de mercado, como os combustíveis) são, ainda, muito ténues.
Veremos, pois, se conseguimos empreender, enquanto país, de uma vez por todas, um verdadeiro combate a situações que nos devem a todos envergonhar.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes no dia 29/maio/2008)
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