domingo, maio 18, 2008

"futebóis"

Em recente artigo no jornal Público, Pacheco Pereira discorre sobre o que ele chama uma cultura da irrelevância. Não posso deixar de concordar com as suas linhas fundamentais. Com efeito, este tipo de posicionamento cultural por parte dos nossos meios de comunicação social, com especial relevo para os três canais generalistas de televisão é, a meu ver, um sinal de preocupação nas sociedades actuais e, particularmente, nas que dizem respeito ao nosso espaço cultural que é o mundo ocidental. Por isso, fico perplexo quando olho para a televisão e vejo, em Cannes, uma série de pessoas que esperam horas e horas e horas por um actor ou actriz, aos gritos, frenéticos, com máquina fotográfica na mão, e com um desejo ainda maior de poder tocar num pedaço do vestido, das calças ou, com muita sorte, numa qualquer fugaz epiderme.
Do mesmo modo, imagino que, no que diz respeito às estrelas do desporto, se viva, nos Estados Unidos, uma situação análoga à que se assiste na Europa, com o basquetebol, basebol, futebol americano, etc. Por isso, estou certo que não me engano se afirmar que a massa popular que segue, com fervor, os diversos campeonatos destas modalidades seja, na interpretação obsessiva que a caracteriza, semelhante à Europa do futebol. Neste sentido, Portugal não foge, portanto, à regra (esta afirmação é exposta sem certezas, pois não sei exactamente se a parolice que grassa no nosso país relativamente à visão do fenómeno do futebol tem paralelo com os restantes países da União Europeia). Mas gostava, sinceramente, que as coisas se não passassem exactamente assim. Neste sentido, a educação escolar (que muitas vezes tem as costas largas) terá, aqui, um papel preponderante. Mas quando a própria escola não resiste ao impacto mediático da modalidade quando, por exemplo, convida uma estrela de futebol a visitá-la, fazendo desse dia feriado escolar, torna-se, assim, parte do problema e não da solução. A cultura da irrelevância grassa, também, no meio escolar.
Nunca mais me esqueço do dia em que me cruzei, na estrada, com o autocarro da selecção. Batedores à frente, de mota, mandando encostar os automobilistas que guiavam em sentido contrário. Mais batedores, de carro, com todas as luzinhas ligadas, com o mesmo sentido persecutório. Finalmente, o autocarro a ocupar mais de metade da estrada, a alta velocidade. Um espanto! A selecção iniciava, arrebatadamente, o seu estágio, em Chaves (não se deslocava, portanto, para jogo algum. A tarde findava e os jogadores, provavelmente, não podiam chegar atrasados para o... jantar). Os automobilistas que transitavam na estrada, ora em sentido contrário, ora no mesmo encaminhamento da selecção (acompanhar o autocarro era tarefa de muita dificuldade, visto que a velocidade ultrapassava, em muito, os limites legais) eram completamente marginalizados pela própria Brigada de Trânsito. Na cabeça dos polícias, o fito era apenas um: fazer com que o autocarro que transportava os jogadores chegasse a tempo ao que os jornalistas desportivos (uma outra espécie curiosíssima pindérica no panorama jornalístico) apelidam de quartel-general.
Agora, com novo euro, uma outra dose de futilidades assoma. Sabemos já os luxos exageradíssimos que esta gente tem em Viseu, nas pessoas que vão esperar horas e horas e horas para ver um autocarro cheio de pressa e cheio de assinaturas de famosos (os nosso famosos são uns pacóvios). O circo começa. O povo assiste. O governo agradece.
Por tudo isto, gostaria que a nossa diferença, enquanto povo e nação secular, se iniciasse precisamente na construção duma realidade social diferente, em que a inocuidade informativa não tivesse, conscientemente, lugar nas chamadas grelhas editoriais. Neste sentido, aposta de Portugal, enquanto país deste espaço europeu, deveria também enquadrar-se num âmbito sócio-cultural mais interveniente e, porque não, inovador. Seria, sem dúvida, uma boa forma de exportação. E quem sabe de receitas.

(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes no dia 22/05/2008)

sexta-feira, maio 16, 2008

as surpresas, segundo santana lopes

Santana lopes diz que "não é tempo para entregar a governação de Portugal a quem, por força das leis e das condições da vida, não teve ainda tempo para se preparar" e que "já chega de surpresas e de exercícios inesperados de poder". Retenho o "já chega de surpresas e de exercícios inesperados de poder". Nunca Santana Lopes esboçou uma auto-análise crítica tão perfeita, apesar da retórica ser direccionada para Passos Coelho.

o cigarrito de sócrates

Fiquei enternecido com o pedido de desculpas de José Sócrates quando admitiu que sim, que fumou um cigarrinho no avião. Afinal, o homem também sabe pedir desculpas, também se engana. Temos, assim, um primeiro ministro que ficou a saber que os fumadores podem, inconscientemente, prevaricar.
Mas convém lembrar ao sr. primeiro-ministro que não são só os fumadores que podem, involuntariamente, transgredir. Por exemplo, no outro dia fui multado por conduzir a 100 km/hora quando não podia ultrapassar os 90. Deste modo, fiquei também a saber que os condutores podem, inconscientemente, ultrapassar limites de velocidade (eu juro que não sabia e prometo que não volta a acontecer).

quinta-feira, maio 15, 2008

quanto vale menezes?

Afinal, Luíz Filipe Menezes parece valer mais do que, a princípio, todos pensariam. Depois de Santana, foi a vez de Passos Coelho prestar vassalagem ao ainda líder do partido. Este candidato teve a esperteza de convidar o filho de Menezes para mandatário da juventude. Espertezas, pois claro. Não são mais do que isso. Entretanto, quem se ciumentou foi Santana Lopes que lá tornou a falar do Jorge Sampaio e do seu governo demissionário, etc. etc. etc. Logo ele, que frisou que este tipo de discurso passadista não iria fazer parte da sua campanha. Aguardam-se os próximos episódios.

quarta-feira, maio 14, 2008

pcp

A crónica de António Pina no Jornal de Notícias reflecte cabalmente o calcanhar de Aquiles do Partido Comunista Português ao longo dos últimos anos. Na verdade, enquanto existir, no seio deste partido, membros com responsabilidades que se pronunciam, a respeito da China, afirmando que "confirmámos aos camaradas chineses a nossa firme condenação às enormes acusações internacionais contra a China que estão a ser feitas utilizando o pretexto dos Jogos Olímpicos" e que, a respeito do Tibete, não é "uma questão de soberania, nem de direitos humanos, mas sim uma forma das potências imperialistas pressionarem a China, aproveitando o pretexto dos Jogos Olímpicos" e que "o papel cada vez mais importante da China na comunidade global, os êxitos inegáveis do país e os objectivos socialistas que Pequim se propõe alcançar são as razões que justificam a campanha internacional contra a política chinesa", enquanto esta gente falar desta maneira, o PCP não passará de um grupelho que se tornará, inevitavelmente, cada vez mais grotesco. Esperemos, sinceramente, que não.

jardim não se candidata

Jardim não se candidata a presidente do seu partido. Novidade? Só mesmo para os mais incautos e distraídos. O folclore do Presidente da Região Autónoma da Madeira não podia, obviamente, durar muito mais. Afinal, só faltam 15 dias para as directas. Neste sentido, é espantoso como a personagem conseguiu tanta mediatização em torno de uma fátua ameaça de candidatura. Sinceramente, pensava que Jardim só reinava na Madeira. Enganei-me. Os periódicos do continente, precisamente aqueles que ele sistematicamente descompõe, gostam, afinal, do homem.

terça-feira, maio 13, 2008

a coação, a corrupção, o futebol

Vi ontem o programa Prós e Contras dedicado inteiramente à recente deliberação da Comissão Disciplinar da Liga no âmbito do chamado processo Apito Final. Devo confessar que o programa, ao contrário do que esperava, foi, para mim, clarificador. As minhas dúvidas residiam, basicamente, na justiça do castigo tanto ao Boavista (descida de divisão), como relativamente aos dois anos de suspensão a Pinto da Costa. Neste sentido, fiquei um tanto perplexo com a conferência de imprensa dada pelo presidente da liga, um sr. chamado Hermínio Loureiro. Na verdade, a mediatização era completamente desnecessária. Mas esta espécie de marketing judicativo tem uma razão de ser, que é, suponho, a de transmitir uma credibilidade dos órgãos disciplinares da Liga. Mas não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, quem decide com esta pompa fá-lo, por norma, com pouca determinação. Ainda para mais quando a possibilidade do recurso é já uma realidade. Por isto, tudo me pareceu estranho.
Não sou um apreciador do Valentim Loureiro. Não gosto da maneira como ele se orienta nas várias opções profissionais que desde há muito mantém. No entanto, não posso de lhe dar razão nos argumentos por ele evocados neste processo. Houve, de facto, uma interpretação abusiva, por parte dos decisores, na condenação tanto do Boavista como de Pinto da Costa. Uma coisa é a coação (que deve ser condenada), outra é o resultado dessa coação. E, pelos vistos, os jogos em que o Boavista participou impregnados de desconfiança arbitral, não foram avaliados como sendo favoráveis a este clube, isto é, os membros encarregues de avaliar a actuação do árbitro ajuizaram que este teve uma acção, durante o jogo, normalíssima, errando ora para um lado, ora para o outro (o melhor árbitro é aquele que erra menos, convém nunca esquecer isto).
Quanto a Pinto da Costa, a lógica é a mesma. Se dúvida houvesse sobre o que paira em redor do presidente do FC Porto e do seu presidente, dissiparam-se quando o advogado Dias Ferreira entrou em cena, com uma postura hipócrita, realçando que o que julga são factos e os factos dizem que Pinto da Costa recebeu um árbitro, em véspera de um jogo, em sua casa. Logo, o outro senhor, Dias da Cunha, até este momento envergonhado, iniciou também, titubeante, a sua tese, na qual a única coisa que se compreendeu foi que existem dirigentes há tempo a mais no futebol.
Deste modo, estes dois senhores contribuíram, decididamente, para uma clarificação do problema. Li o artigo de António Barreto no Público no último domingo. Pensava que estes dois ex-dirigentes do Benfica e do Sporting fossem mais capazes e não optassem por uma postura tão óbvia nas suas conjecturas e, consequentemente, não dessem razão ao que António Barreto escreveu na crónica.
Não sei se Lisboa convive mal com a hegemonia do FCP no futebol. O que tenho a certeza é que o ódio que certas personalidades destilam contra o Porto e, especialmente, contra Pinto da Costa, é, por demais, notória. Há gente que anda há demasiado tempo no futebol? Pois deve haver. Mas quem?

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...