Afinal, quem anda sempre, obcecado, atrás dum passado que, para ele, será sempre ilusão, é Santana Lopes. Logo ele que, quinzenalmente, nos debates parlamentares com o primeiro-ministro, acusa José Sócrates (com alguma razão) de reviver sistematicamente o que representou a liderança social-democrata para o país. Mas agora Santana Lopes diz, claramente, ao que vem: a demanda de uma legitimidade para governar que, segundo ele, não conseguiu quando, em 2004, substituiu Durão Barroso na liderança do partido e do Governo.
Santana anda perdido e afunda-se nas suas contradições. É evidente que nunca se deixará submergir completamente: a sua áurea permanecerá, não só na sua própria cabeça, com também na cabecinha de alguns indefectíveis. O problema é que ele se auto-convence dos seus argumentos absurdos. Daí a sua incapacidade de discernir que o desastre do seu espantoso governo, após a fuga de Barroso, não teve a ver com legitimidade. Afinal, quanto vale um Presidente da República se nem para conferir legitimidade institucional a um governo serve?!... O problema do seu governo residiu, simplesmente, na previsível incompetência de Santana em chefiar um governo da República sem, primeiramente, se deslumbrar. E o deslumbramento, quando encima o nosso entendimento, é sempre sinal de inaptidão. Santana jura que está, agora, mais previsível. Eu acredito, obviamente, nele.
terça-feira, maio 06, 2008
segunda-feira, maio 05, 2008
crises
Ainda não saímos duma crise económica e já se prevê (ou já lá estamos) uma outra crise, mas desta vez alimentar. Vi há pouco, na SIC, uma família que tem, para alimentação, pouco mais de 100 euros por mês. Alguns membros dessa família não davam, envergonhados, a cara. Outros, mais corajosos, mostravam-se no telejornal. A minha pergunta é simples e está destituída de qualquer retórica demagógica: por onde pára o tal défice que já conseguimos, brilhantemente, segundo o governo, ultrapassar?
sábado, maio 03, 2008
o que vale alberto joão jardim
Afinal, o que é que vale Alberto João Jardim? Decididamente, vale muito menos do que os abrangentes opinion makers e demais jornalistas configuram. Aliás, o Presidente da Região Autónoma da Madeira é o único que tem a noção do seu próprio limite, o qual é, desastradamente, muito curto. O triste exemplo em que ele próprio se afundou (ou deixou que outros o submergissem), em que num dia nos aparece um Alberto João vigoroso, capaz de uma candidatura corajosa a líder do seu partido e, no dia seguinte, reaparece a mesma entidade, cabisbaixa, medrosa, cobarde, arranjando mil desculpas para justificar a negação da véspera, ou a sua desgraçada postura titubeante no desapoio e apoio a Santana Lopes é paradigmático duma falsa mistificação que, desde sempre, foi construída em torno desta personagem.
E a culpa é, obviamente, de todos, mas, principalmente de alguns. À cabeça estão, naturalmente, os diversos chefes de governo e presidentes da república que nunca foram capazes de discernir a pacovice de Alberto João Jardim. A última visita de Cavaco Silva à Madeira pode ilustrar o que acabo de afirmar. Depois, embora numa posição mais secundária, os jornalistas que, apesar dos espasmos sistemáticos de alguns, sempre olharam para Alberto João como muitos olham para o Benfica e o seu presidente: vende bem.
Deste modo, olhamos para o senhor da Madeira e vemos uma personagem já apagada que não faz mais, neste momento, do que lutar por si próprio, para não cair cada vez mais num ridículo que nem mesmo os seus súbditos da ilha lhe possam valer, pois até estes, sentido o ocaso do chefe, serão os primeiros a sair à rua, gargalhando como nunca o tinham feito anteriormente.
E a culpa é, obviamente, de todos, mas, principalmente de alguns. À cabeça estão, naturalmente, os diversos chefes de governo e presidentes da república que nunca foram capazes de discernir a pacovice de Alberto João Jardim. A última visita de Cavaco Silva à Madeira pode ilustrar o que acabo de afirmar. Depois, embora numa posição mais secundária, os jornalistas que, apesar dos espasmos sistemáticos de alguns, sempre olharam para Alberto João como muitos olham para o Benfica e o seu presidente: vende bem.
Deste modo, olhamos para o senhor da Madeira e vemos uma personagem já apagada que não faz mais, neste momento, do que lutar por si próprio, para não cair cada vez mais num ridículo que nem mesmo os seus súbditos da ilha lhe possam valer, pois até estes, sentido o ocaso do chefe, serão os primeiros a sair à rua, gargalhando como nunca o tinham feito anteriormente.
o impulsivo santana
Santana Lopes, neste seu ressurgimento eleitoral (somente eleitoral porque o ex-presidente da Câmara de Lisboa é daquelas personagens que nunca saiem verdeiramente de cena, pois têm o temperado hábito de andarem sempre "por aí"...), afirmou, aprazivelmente, o seguinte: "Já não reajo por impulso. Estou muito mais previsível".
Ontem, questionado por uma jornalista sobre uma eventual desistência a favor de Alberto João Jardim, respondeu desta maneira: "Desistir? Eu?... Sorry?!..."
Pela minha parte, é-me difícil escolher qual das duas declarações do candidato melhor o ilustram. Fica, pois, ao critério de quem as ler.
Ontem, questionado por uma jornalista sobre uma eventual desistência a favor de Alberto João Jardim, respondeu desta maneira: "Desistir? Eu?... Sorry?!..."
Pela minha parte, é-me difícil escolher qual das duas declarações do candidato melhor o ilustram. Fica, pois, ao critério de quem as ler.
sexta-feira, maio 02, 2008
um anacronismo
Pedro Passos Coelho relata que é um anacronismo a ideia de que os empregos, actualmente, devam ser considerados para a vida toda. É, de facto, um dogma que o neo-liberalismo emergente tem vindo a advogar com insistência de há uns anos para cá. O argumento é sempre o mesmo e liga-se à própria transformação do tecido social e profissional, comparativamente ao que se passava anteriormente. Há, contudo, nesta posição normativa, ideias que é preciso combater.
Uma delas tem a ver com a própria fundamentalização do problema. Se é verdade que antigamente havia a ideia que bastava estar quietinho no seu posto de trabalho e deixar, simplesmente, o tempo fazer o seu percurso normalizado até ao momento que, por imperativo da própria natureza humana, a reforma surgisse como o término de toda uma vida profissional (e muitas vezes pessoal), também é verdade que criar uma espécie de fundamentalismo liberal, em que aparece como paradigma económico a ideia que não há empregos para toda a vida se torna, efectivamente, uma falsidade. Primeiro, porque, felizmente, continuam a existir empregos para toda a vida. Aliás, não me parece crível que um indivíduo que esteja num emprego com dedicação e que, ao longo da sua vida, se dedique a um melhoramento da sua actividade profissional através, por exemplo, de leituras, de acções de formação, etc., se veja, agora, remetido para uma mudança de emprego pela simples mudança de teorização laboral. Se assim for, não tenho dúvidas que mudou - no que diz respeito à realidade profissional - para pior.
É preciso, pois, não criar esta ideia de contínua precariedade profissional (social, psicológica, etc.) e fomentar um emprego que pode ser, realmente, para toda a vida.
(Nota final: é curioso verificar que os paladinos destes normativos são pessoas que, na sua maior parte, se mantêm nos seus empregos há décadas, como, por exemplo, alguns directores e comentadores de jornais...).
(esboço do artigo publicado em A Voz de Trás-os-Montes do dia 8/5/2008)
Uma delas tem a ver com a própria fundamentalização do problema. Se é verdade que antigamente havia a ideia que bastava estar quietinho no seu posto de trabalho e deixar, simplesmente, o tempo fazer o seu percurso normalizado até ao momento que, por imperativo da própria natureza humana, a reforma surgisse como o término de toda uma vida profissional (e muitas vezes pessoal), também é verdade que criar uma espécie de fundamentalismo liberal, em que aparece como paradigma económico a ideia que não há empregos para toda a vida se torna, efectivamente, uma falsidade. Primeiro, porque, felizmente, continuam a existir empregos para toda a vida. Aliás, não me parece crível que um indivíduo que esteja num emprego com dedicação e que, ao longo da sua vida, se dedique a um melhoramento da sua actividade profissional através, por exemplo, de leituras, de acções de formação, etc., se veja, agora, remetido para uma mudança de emprego pela simples mudança de teorização laboral. Se assim for, não tenho dúvidas que mudou - no que diz respeito à realidade profissional - para pior.
É preciso, pois, não criar esta ideia de contínua precariedade profissional (social, psicológica, etc.) e fomentar um emprego que pode ser, realmente, para toda a vida.
(Nota final: é curioso verificar que os paladinos destes normativos são pessoas que, na sua maior parte, se mantêm nos seus empregos há décadas, como, por exemplo, alguns directores e comentadores de jornais...).
(esboço do artigo publicado em A Voz de Trás-os-Montes do dia 8/5/2008)
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quinta-feira, maio 01, 2008
confusão social democrata
Reina, por aqui, alguma confusão ideológica. Eu sei que a ideologia anda um bocadinho irradiada do debate político, não se sabendo onde termina a esquerda e começa a direita (e vice-versa), ou mesmo se esquerda e direita realmente têm, actualmente, legitimação política. Naturalmente, para alguns, interessa que esta dicotomia, construída ao longo de todo o século XX e que teve o seu zénite, em Portugal, na revolução de Abril, seja definitivamente apagada da discussão política. São estes os chamados liberais, ou neo-liberais (ou ultraliberais), os quais alicerçam toda a sua "ideologia" na chamada economia de mercado, confiando, cegamente, nas suas capacidades de auto-regulação. O Estado, para estes, não é mais do que uma entidade economicamente apagada, porventura a mais fraca de todos os intervenientes na área exclusivamente económica. Pelo contrário, outros defendem um Estado forte. O PCP forneceu, há bem pouco tempo, um exemplo paradigmático, ao defender que 50% da banca deveria estar nas mãos do Estado. Deste modo, a esquerda e a direita, em Portugal, começam e acabam nestas duas perspectivas existencialistas.
Vem isto a propósito do primeiro debate de ideias que a candidatura de Pedro Passos Coelho promoveu. O tema era sugestivo e direccionável: "Portugal, que Futuro na Economia". O que me surpreendeu (e baralhou), lendo na imprensa o resumo do encontro, foi os argumentos apresentados pelos mais próximos do candidato relativamente às críticas expostas ao actual executivo PS e também à mais directa rival na campanha, Manuela Ferreira Leite.
Assim, foram perfilhados pontos de vista admiráveis como, por exemplo, quando se defendeu que a solução para a actual crise económica não passa por opções contabilísticas, mas antes pela "estratégia e visão de estadista" (Nogueira Leite, antigo Secretário de Estado de... Guterres, Mira Amaral e Miguel Frasquilho). Passos Coelho foi mais longe: "Portugal fixou-se na obsessão do défice, estamos a reduzir o défice, mas a destruir a economia e as empresas".
Confesso que já tive mais certezas quanto ao que vai sair das directas do PSD. Não sei o que aquela gente pensará disto tudo. Ou, pelo contrário, será isto que faz o PSD reconhecidamente o partido mais popular de Portugal?
Vem isto a propósito do primeiro debate de ideias que a candidatura de Pedro Passos Coelho promoveu. O tema era sugestivo e direccionável: "Portugal, que Futuro na Economia". O que me surpreendeu (e baralhou), lendo na imprensa o resumo do encontro, foi os argumentos apresentados pelos mais próximos do candidato relativamente às críticas expostas ao actual executivo PS e também à mais directa rival na campanha, Manuela Ferreira Leite.
Assim, foram perfilhados pontos de vista admiráveis como, por exemplo, quando se defendeu que a solução para a actual crise económica não passa por opções contabilísticas, mas antes pela "estratégia e visão de estadista" (Nogueira Leite, antigo Secretário de Estado de... Guterres, Mira Amaral e Miguel Frasquilho). Passos Coelho foi mais longe: "Portugal fixou-se na obsessão do défice, estamos a reduzir o défice, mas a destruir a economia e as empresas".
Confesso que já tive mais certezas quanto ao que vai sair das directas do PSD. Não sei o que aquela gente pensará disto tudo. Ou, pelo contrário, será isto que faz o PSD reconhecidamente o partido mais popular de Portugal?
a hipervalorização das casas em portugal
Em resposta a um proposta de Pedro Santana Lopes, ontem no Parlamento, que sugestionava a criação de um Plano de Impulso à Actividade Económica, à semelhança do que Zapatero fez em Espanha, com uma injecção de dois mil milhões de euros para o financiamento de Pequenas e Médias Empresas, José Sócrates respondeu que a realidade de Portugal era diferente da de Espanha. O primeiro-ministro baseava-se, no seu argumento, na conjectura imobiliária dos dois países. Assim, defendeu que aqui ao lado, em território espanhol, existe uma grave crise do sector imobiliário, o que originou, portanto, a intervenção do governo espanhol em defesa do sector. Em Portugal, adiantou ainda Sócrates, as coisas são diferentes, visto que as casas não estão ainda hipervalorizadas.
Fiquei surpreendido. Não tenho dados que me permitam comparar a realidade portuguesa e espanhola quanto à compra e venda de casas. Mas afirmar que, em Portugal, não existe uma hipervalorização na construção de casas revela um desconhecimento preocupante não do sector (tenho a certeza que Sócrates, antes da sua entrada no Parlamento, fez duas ou três perguntitas sobre quanto custava um apartamento de três assoalhadas em Lisboa, no Porto, em Bragança, etc.), mas da realidade socioeconómica da maioria das famílias portuguesas. Bastaria olhar para duas vertentes: os sinais de riqueza dos empreiteiros (dos grandes e dos pequenos) e os empréstimos à habitação concedidos pelos bancos, que já alastraram o prazo do empréstimo para os... cinquenta anos. Se isto não é um sinal de gravíssima crise no sector (no sentido da hipervalorização e da especulação imobiliária, claro), então o que será?
Fiquei surpreendido. Não tenho dados que me permitam comparar a realidade portuguesa e espanhola quanto à compra e venda de casas. Mas afirmar que, em Portugal, não existe uma hipervalorização na construção de casas revela um desconhecimento preocupante não do sector (tenho a certeza que Sócrates, antes da sua entrada no Parlamento, fez duas ou três perguntitas sobre quanto custava um apartamento de três assoalhadas em Lisboa, no Porto, em Bragança, etc.), mas da realidade socioeconómica da maioria das famílias portuguesas. Bastaria olhar para duas vertentes: os sinais de riqueza dos empreiteiros (dos grandes e dos pequenos) e os empréstimos à habitação concedidos pelos bancos, que já alastraram o prazo do empréstimo para os... cinquenta anos. Se isto não é um sinal de gravíssima crise no sector (no sentido da hipervalorização e da especulação imobiliária, claro), então o que será?
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