Não sei porquê, mas o argumento de Pedro Passos Coelho de que a política, apesar de séria, não deve ser feita por pessoas sisudas, não me convence de todo. Olha-se para a personagem e não se vê um homem de 43 ou 44 anos. É, no fundo, a velha questão da idade, entre o ser e o parecer. Nas últimas presidenciais tivemos este dilema: afinal quem era o candidato mais velho: Cavaco Silva, com 70 anos, ou Mário Soares, com 80?
Por falar em Mário Soares, lembro-me muito bem, aqui há uns 10 anos atrás, de Passos Coelho, no ímpeto da sua juventude partidária (estes rapazes das juventudes partidárias envelhecem precocemente e, depois, fazem umas malabarices mediáticas para mostrarem a sua irreverência) ter dito que Mário Soares estava já fora de prazo de validade (teria então mais ou menos 70 anos), a respeito de uma qualquer intervenção do ex-presidente da República. Lembro-me também da advertência de Pacheco Pereira ao "irreverente" Passos Coelho, ao afirmar que o argumento da idade não é relevante nem deve ser considerado em questões de debate ideológico-político.
Por isso, é irónico que o agora maduro ex-líder da jota social democrata seja visto como um jovem ainda inexperiente para exercer o cargo de líder do seu partido e, consequentemente, candidato a primeiro-ministro. Mas concordo com Pacheco Pereira: a idade é um argumento que não deve contar.
quarta-feira, abril 30, 2008
terça-feira, abril 29, 2008
o polícia solitário numa esquadra
Afinal, Portugal ainda é um país de bons costumes à beira-mar plantado. Um polícia, sozinho, numa esquadra de Moscavide (pouco mais de 12 000 habitantes, segundo os últimos censos), reflecte a santa ideologia que foi apanágio durante todo o consolado salazarista. Arrepia só de pensar o que é aconteceria se, por exemplo, no Brasil, nos arredores do Rio de Janeiro, houvesse uma esquadra com um simpático polícia lá metido.
No entanto, o episódio da esquadra de Moscavide, em que um desgraçado perseguido por uma turba de arruaceiros procurou uma desolada protecção (policial... sem ironia) não passou despercebido ao Ministro de Administração Interna. Atento, Rui Pereira veio logo em solene recomendação: "Não é prática aconselhável haver uma esquadra da PSP em que esteja apenas um agente da polícia", adiantando que "as esquadras não podem ser locais vulneráveis".
É evidente que não, sr. Ministro da Administração Interna, é evidente que não!..
No entanto, o episódio da esquadra de Moscavide, em que um desgraçado perseguido por uma turba de arruaceiros procurou uma desolada protecção (policial... sem ironia) não passou despercebido ao Ministro de Administração Interna. Atento, Rui Pereira veio logo em solene recomendação: "Não é prática aconselhável haver uma esquadra da PSP em que esteja apenas um agente da polícia", adiantando que "as esquadras não podem ser locais vulneráveis".
É evidente que não, sr. Ministro da Administração Interna, é evidente que não!..
o discurso de jardim visto por manuela ferreira leite
No programa Falar Claro, da Rádio Renascença, onde é comentadora permanente, Manuela Ferreira Leite desvalorizou as palavras de Alberto João Jardim, quando este apelidou de bando de loucos os deputados do Parlamento Regional da Madeira. Os argumentos por ela apresentados não podiam ser mais disparatados: "Aquilo [a Madeira] é um ambiente específico com uma linguagem específica". Deu, de seguida, para melhor elucidar o seu raciocínio, um exemplo, comparando as assimetrias vocabulares entre o norte e o sul do continente: "O que aqui [Lisboa] é um palavrão, lá [no norte] não é. [Por isso], é preciso dar um desconto.".
Perante isto, eu não digo mais nada (f...!, c...!).
Perante isto, eu não digo mais nada (f...!, c...!).
segunda-feira, abril 28, 2008
manuela ferreira leite
Começou a campanha de Manuela Ferreira Leite. Nada surpreendente, aliás, as primeiras palavras da candidata. De facto, a declaração da apresentação formal de Ferreira Leite andou em volta de áreas vocabulares bem definidas. Anotei umas poucas: "rigor", "respeito", "reformista", "confiança", "responsabilidade", "ponderação" (que levou ao sacrifício pessoal), "rumo" (outra vez o leme).
Manuela Ferreira Leite pouco divergirá desta orientação programática. Em primeiro lugar, porque é incapaz; por outro lado, é precisamente o sentido cavaquista de homem do leme que está na base da sua própria mistificação. De qualquer modo, as contas saíram trocadas a Sócrates: quando esperava a dupla titubeante Menezes e Santana, aparece-lhe o oposto, verdadeiramente um outro partido.
Manuela Ferreira Leite pouco divergirá desta orientação programática. Em primeiro lugar, porque é incapaz; por outro lado, é precisamente o sentido cavaquista de homem do leme que está na base da sua própria mistificação. De qualquer modo, as contas saíram trocadas a Sócrates: quando esperava a dupla titubeante Menezes e Santana, aparece-lhe o oposto, verdadeiramente um outro partido.
fim dos contratos colectivos
"[Os contratos colectivos de trabalho que] "nunca caducam (...) um atraso de vida e um factor de bloqueamento para a economia e para os trabalhadores."
Quem assim falou foi o nosso primeiro-ministro e não um qualquer líder da oposição à esquerda do PS. Quer isto dizer que José Sócrates iniciou, aqui, uma estratégia que vai durar até à eleição legislativa de 2009 (ainda mais quando Manuela Ferreira Leite se adivinha como o próximo líder do PSD) e que passa por fazer oposição ao seu próprio governo, no sentido de encaminhar a memória colectiva do povo português para um passado que o PSD, previsivelmente mais forte, fez parte. Vai ser, portanto, um ano de "deixem-nos acabar a obra", com assombros passadistas.
Quem assim falou foi o nosso primeiro-ministro e não um qualquer líder da oposição à esquerda do PS. Quer isto dizer que José Sócrates iniciou, aqui, uma estratégia que vai durar até à eleição legislativa de 2009 (ainda mais quando Manuela Ferreira Leite se adivinha como o próximo líder do PSD) e que passa por fazer oposição ao seu próprio governo, no sentido de encaminhar a memória colectiva do povo português para um passado que o PSD, previsivelmente mais forte, fez parte. Vai ser, portanto, um ano de "deixem-nos acabar a obra", com assombros passadistas.
sábado, abril 26, 2008
o estudo de paula espírito santo
Paula Espírito Santo, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, elaborou um estudo que chega a uma conclusão nada admirável: os discursos de tomada de posse dos presidentes da república, ao longo destes 34 anos de democracia, têm-se pautado por um mimetismo lancinante. Com efeito, desde Eanes até Cavaco, a ética discursiva presidencial gira em volta de preocupações de conciliação, coesão nacional (e a importância do cargo de Presidente da República para atingir, cabalmente, essa mesma coesão), política externa (a imagem de Portugal no mundo), aproximação entre os eleitores e os eleitos, resignação e pessimismo e, invariavelmente, a economia. Conclui, portanto, a investigadora: "não existem traços distintivos marcantes entre os diversos discursos de tomada de posse".
Ouvindo a recente reacção de José Sócrates ao discurso de Cavaco no Parlamento, no dia 25 de Abril, poderíamos, por empréstimo, chegar à mesma conclusão, isto é, nada tem mudado, principalmente quando estamos perante um refinamente da chamada hipocrisia política. Transcrevo as palavras de Sócrates: "Só posso concordar com o presidente e manifestar a vontade de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para chamar a atenção dos jovens para a política". Basta ler os jornais do ano passado do dia 26 de Abril.
Ouvindo a recente reacção de José Sócrates ao discurso de Cavaco no Parlamento, no dia 25 de Abril, poderíamos, por empréstimo, chegar à mesma conclusão, isto é, nada tem mudado, principalmente quando estamos perante um refinamente da chamada hipocrisia política. Transcrevo as palavras de Sócrates: "Só posso concordar com o presidente e manifestar a vontade de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para chamar a atenção dos jovens para a política". Basta ler os jornais do ano passado do dia 26 de Abril.
o estudo de cavaco
Cavaco Silva, no silêncio da sua presidência, deu ordens para que, em completo segredo (este homem é realmente muito sóbrio!...) um estudo provasse o conhecimento dos jovens portugueses sobre a realidade política. Foram três as perguntas elaboradas: o número dos estados membros da União Europeia (não sei), o nome do primeiro presidente eleito após o 25 de Abril (é difícil, mas sei) e se o PS dispunha ou não de uma maioria absoluta no Parlamento (esta é fácil). Ora, como é óbvio, estas três questões, de cartilha, não provam absolutamente nada quanto ao conhecimento dos jovens portugueses relativamente à nossa realidade política. Quando muito, provam que o Presidente da República acredita em inquéritos que, através de duas ou três perguntitas, resultam completamente enviesados.
Um exemplo: aqui há tempos, Cavaco Silva foi criticado por não saber que Os Lusíadas, expoente literário e cultural de todo o espaço lusófono, é composto por dez cantos (ele disse que tinha nove). Provavelmente, os mesmos jovens que responderam errado ao inquérito da presidência, acertariam, de olhos fechados, no que falhou o presidente. Agora, perante o erro de Cavaco relativamente ao épico de Camões, é-me permitido afirmar, categórico, que estamos perante o presidente mais inculto da nossa República? Obviamente que não! Cavaco Silva é, naturalmente, um presidente culto, apesar de não ter um tipo de cultura abrangente, vincadamente humanista. Aliás, se o eleitorado fosse atrás de perfis culturalmente abrangentes, não teria escolhido Cavaco Silva para o mais alto cargo da nação. Com efeito, tanto Soares como Alegre ficam a milhas de distância de Cavaco quanto a perspectivas culturais, sejam elas nacionais, como universais.
Deste modo, não quero com isto dizer que está tudo muito bem relativamente ao conhecimento que os jovens têm da nossa história recente. Mas culpabilizar os deputados (mesmo colocando-lhes uma quota parte da culpa) parece-me estupendamente abusivo.
(publicado no jornal Público no dia 3/Maio/2008)
Um exemplo: aqui há tempos, Cavaco Silva foi criticado por não saber que Os Lusíadas, expoente literário e cultural de todo o espaço lusófono, é composto por dez cantos (ele disse que tinha nove). Provavelmente, os mesmos jovens que responderam errado ao inquérito da presidência, acertariam, de olhos fechados, no que falhou o presidente. Agora, perante o erro de Cavaco relativamente ao épico de Camões, é-me permitido afirmar, categórico, que estamos perante o presidente mais inculto da nossa República? Obviamente que não! Cavaco Silva é, naturalmente, um presidente culto, apesar de não ter um tipo de cultura abrangente, vincadamente humanista. Aliás, se o eleitorado fosse atrás de perfis culturalmente abrangentes, não teria escolhido Cavaco Silva para o mais alto cargo da nação. Com efeito, tanto Soares como Alegre ficam a milhas de distância de Cavaco quanto a perspectivas culturais, sejam elas nacionais, como universais.
Deste modo, não quero com isto dizer que está tudo muito bem relativamente ao conhecimento que os jovens têm da nossa história recente. Mas culpabilizar os deputados (mesmo colocando-lhes uma quota parte da culpa) parece-me estupendamente abusivo.
(publicado no jornal Público no dia 3/Maio/2008)
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