Ana Gomes habituou-nos a a uma oratória límpida, correcta e sem subterfúgios semânticos. Neste sentido, a eurodeputada pode considerar-se uma das (poucas) vozes livres dentro do PS. É neste pressuposto que se deve observar a entrevista que deu ao programa Diga lá Excelência.
No entanto, não posso concordar com o seu ponto de vista (de admiração) relativamente à posição de António Costa quando decidiu trocar o lugar de ministro pelo de candidato à Câmara de Lisboa. Em primeiro lugar, porque ele jurou cumprir um mandato como Ministro da Administração Interna (era também Ministro de Estado e número dois do governo). Tinha, portanto, obrigações acrescidas. Depois, porque a sua decisão não revelou, como prenuncia Ana Gomes, coragem (Carmona Rodrigues era um presidente moribundo e o seu sucessor pelo PSD - Fernando Negrão - estaria sempre condenado a uma derrota inglória), mas, pelo contrário, um mero e banal tacticismo político (ganha as eleições e fica por lá mais um mandato e, quem sabe, bilhete para outras paragens mais apetecíveis...).
O exemplo de coragem política que Ana Gomes esboçou enquadra-se com mais propriedade em João Soares que, após ter sido um (bom) presidente da Câmara de Lisboa, aceitou uma disputa eleitoral em Sintra, com resultados previsivelmente mais incertos.
domingo, fevereiro 24, 2008
visita de cavaco ao interior do país
Não resisto (não posso resistir) a transcrever o que Cavaco Silva disse a respeito das desigualdades que continuam a grassar em Portugal.
O presidente visitou, como se sabe, os concelhos de Ribeira de Pena e de Boticas (entre outros), os quais - como também se sabe - são exemplos de um Portugal fatal e tragicamente esquecido pelo poder central.
O que é espantoso é que ninguém tenha dado o devido relevo a estas extraordinárias afirmações. Ou por que ninguém liga ao que o presidente diz (e eu não acredito), ou então por que Cavaco Silva não fez mais do que repetir o que muitos anteriores a ele já esboçaram e, por isso, as suas declarações não são mais do que pura hipocrisia política, ou então por que os nossos jornalistas estão muito mais interessados em saber se o presidente está zangado com Filipe Menezes, por este ter ameaçado romper de vez o acordo com o PS para o chamado "Pacto para a Justiça". Vamos, então, pousar um olhar sobre o que o presidente disse:
Em Ribeira de Pena, Cavaco quis dar "uma palavra de alento e de solidariedade" aos que vivem numa situação de interioridade, ao mesmo tempo que elogiou todos aqueles "que não se vergam nem resignam face à distância a que se encontram dos centros de decisão política, à desertificação, ao abandono escolar e ao envelhecimento das populações".
Já em Boticas, elogiou o "Vinho dos Mortos" que outrora "serviu como resistência ao invasor francês e hoje serve como símbolo face ao esquecimento a que os poderes públicos votam as localidades mais afastadas do litoral."
Ora são realmente espantosas estas declarações. Não só porque Cavaco Silva faz parte, desde há décadas, de muitos centros de decisores políticos (foi, ministro das finanças, primeiro-ministro e agora presidente da república), como também são uma crítica directa e clara ao presente executivo, no que a uma verdadeira descentralização diz respeito. Se repararmos bem nestas frases, notamos que elas se enquadrariam na perfeição durante uma qualquer visita presidencial a tropas portuguesas estacionadas no Líbano, no Kosovo ou Timor.
E é, portanto, com todos estes ingredientes que se faz a popularidade de um Presidente da República.
(publicado nos jornais Público no dia 27/02/2008 e A Voz de Trás-os-Montes do dia 28/02/2008)
O presidente visitou, como se sabe, os concelhos de Ribeira de Pena e de Boticas (entre outros), os quais - como também se sabe - são exemplos de um Portugal fatal e tragicamente esquecido pelo poder central.
O que é espantoso é que ninguém tenha dado o devido relevo a estas extraordinárias afirmações. Ou por que ninguém liga ao que o presidente diz (e eu não acredito), ou então por que Cavaco Silva não fez mais do que repetir o que muitos anteriores a ele já esboçaram e, por isso, as suas declarações não são mais do que pura hipocrisia política, ou então por que os nossos jornalistas estão muito mais interessados em saber se o presidente está zangado com Filipe Menezes, por este ter ameaçado romper de vez o acordo com o PS para o chamado "Pacto para a Justiça". Vamos, então, pousar um olhar sobre o que o presidente disse:
Em Ribeira de Pena, Cavaco quis dar "uma palavra de alento e de solidariedade" aos que vivem numa situação de interioridade, ao mesmo tempo que elogiou todos aqueles "que não se vergam nem resignam face à distância a que se encontram dos centros de decisão política, à desertificação, ao abandono escolar e ao envelhecimento das populações".
Já em Boticas, elogiou o "Vinho dos Mortos" que outrora "serviu como resistência ao invasor francês e hoje serve como símbolo face ao esquecimento a que os poderes públicos votam as localidades mais afastadas do litoral."
Ora são realmente espantosas estas declarações. Não só porque Cavaco Silva faz parte, desde há décadas, de muitos centros de decisores políticos (foi, ministro das finanças, primeiro-ministro e agora presidente da república), como também são uma crítica directa e clara ao presente executivo, no que a uma verdadeira descentralização diz respeito. Se repararmos bem nestas frases, notamos que elas se enquadrariam na perfeição durante uma qualquer visita presidencial a tropas portuguesas estacionadas no Líbano, no Kosovo ou Timor.
E é, portanto, com todos estes ingredientes que se faz a popularidade de um Presidente da República.
(publicado nos jornais Público no dia 27/02/2008 e A Voz de Trás-os-Montes do dia 28/02/2008)
entrevistando Sócrates
Leio a generalidade dos comentários à entrevista de Sócrates na SIC, com a espantosa e abúlica performance de Nicolau Santos e Ricardo Costa, e o que se releva diz respeito à boa prestação do primeiro-ministro. Os jornalistas são, assim, defensados por outros jornalistas, os quais alegam que aqueles não podem fazer o trabalho que compete à oposição, isto é, remeter o entrevistado para um plano de respostas mais incisivas e acutilantes. Ora tudo isto parece ser verdade. No entanto, convém também lembrar que os tratamentos não são iguais para todos. Basta olhar para o Expresso da Meia-Noite e verificar que o duo jornalístico sabe, afinal, automatizar posturas intervencionistas mais audazes.
Mas o que se cria com tudo isto é a construção duma personagem que supostamente vai emergindo em direcção a um plano cada vez mais inatingível. Na verdade, José Sócrates vai cair por ele próprio. Basta que apareça alguém do lado de lá capaz de com ele ombrear e vamos ver os jornalistas, estes mesmos que agora o bajulam, serem os primeiros a apontarem-lhe os maiores defeitos do mundo. Injustamente, é claro.
Mas o que se cria com tudo isto é a construção duma personagem que supostamente vai emergindo em direcção a um plano cada vez mais inatingível. Na verdade, José Sócrates vai cair por ele próprio. Basta que apareça alguém do lado de lá capaz de com ele ombrear e vamos ver os jornalistas, estes mesmos que agora o bajulam, serem os primeiros a apontarem-lhe os maiores defeitos do mundo. Injustamente, é claro.
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sábado, fevereiro 23, 2008
novas fronteiras
Pelo que se viu na abertura de mais uma sessão do forum Novas Fronteiras, esta não passou de mais uma sessão de "show off" do primeiro-ministro.
O programa Novas Fronteiras nasce com um mérito proclamado: o de pretender mobilizar sectores alargados da sociedade portuguesa que não desenvolvam uma actividade política ou partidária regular. Ora o pior que pode acontecer a este fórum é o de se transformar num mero objecto laudatório do governo. Hoje, Sócrates discursou durante 30 minutos e de "fórum" o seu discurso teve muito pouco. Nestes sentido, é curioso compararmos os anteriores discursos do ministro nestes encontros para verificarmos que há de facto uma mudança na estratégia comunicacional (e quão importante ela se torna actualmente!) de Sócrates. Na verdade, a dissertação de hoje assemelhou-se muito mais a uma comunicação eleitoral (crítica aos críticos, ao PSD, etc.) do que a uma intervenção marcada por pressupostos ideológicos ou racionalistas.
O programa Novas Fronteiras nasce com um mérito proclamado: o de pretender mobilizar sectores alargados da sociedade portuguesa que não desenvolvam uma actividade política ou partidária regular. Ora o pior que pode acontecer a este fórum é o de se transformar num mero objecto laudatório do governo. Hoje, Sócrates discursou durante 30 minutos e de "fórum" o seu discurso teve muito pouco. Nestes sentido, é curioso compararmos os anteriores discursos do ministro nestes encontros para verificarmos que há de facto uma mudança na estratégia comunicacional (e quão importante ela se torna actualmente!) de Sócrates. Na verdade, a dissertação de hoje assemelhou-se muito mais a uma comunicação eleitoral (crítica aos críticos, ao PSD, etc.) do que a uma intervenção marcada por pressupostos ideológicos ou racionalistas.
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
outra vez santana
Não posso estar mais de acordo com Fernanda Câncio, jornalista do DN, que, em artigo de opinião, esboçou uma análise crítica, a roçar eventualmente as fronteiras da análise psicanalítica, sobre Santana Lopes. Este, em entrevista à SIC, recorreu à imagem paterna para se automartirizar com as críticas que lhe têm sido feitas a propósito da denúncia, feita pelo jornal Expresso, de um alegado favorecimento da Estoril-Sol efectuado pelo seu governo. "O meu pai fez 75 anos e no jantar de aniversário tive de estar a explicar isto", atirou, lastimosamente, o líder da bancada parlamentar do PSD. E continuou: "cada vez que ponho a cabeça de fora, começa o tiroteio".
Sejamos justos: Santana tem uma certa razão. Na verdade, o homem é um político permanentemente na mira dos jornalistas que, ao mínimo desconchavo (comportamental, verbal...), todos lhe saltam em cima. O problema é que estas personagens se põem sempre a jeito, pois não resistem a luz efémera dos holofotes.
Sejamos justos: Santana tem uma certa razão. Na verdade, o homem é um político permanentemente na mira dos jornalistas que, ao mínimo desconchavo (comportamental, verbal...), todos lhe saltam em cima. O problema é que estas personagens se põem sempre a jeito, pois não resistem a luz efémera dos holofotes.
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
yes, we can!
Sócrates podia-nos ter poupado do "sim nós conseguimos, como se diz na América". Até aqui era Tony Blair o leitmotiv do nosso primeiro ministro. Mudam-se os tempos... Yes, you can, josé!
presidente promulga decreto lei
O Presidente da República promulgou o decreto que estabelece os regimes de vinculação, carreiras e remunerações dos trabalhadores da Função Pública. No entanto, fê-lo com dúvidas! Estranhei, pois pensei: se tem dúvidas, por que é que o promulgou?!...
Fui ao site da presidência da república. Cavaco explica: O referido diploma suscita dúvidas em dois planos, as quais, na altura devida, foram expressas pelo Presidente da República, designadamente no pedido de fiscalização preventiva da constitucionalidade enviado ao Tribunal Constitucional.
Assim, por um lado, o diploma em apreço continua a consagrar soluções que, por pouco claras e transparentes, podem criar dificuldades de percepção por parte dos respectivos destinatários, potenciando situações de conflitualidade no seio da Administração Pública.
Por outro lado, subsistem dúvidas quanto à remissão para simples portaria da regulação de matérias de carácter inovatório e ainda quanto à preferência concedida a pessoas colectivas na celebração de contratos de prestação de serviços, o que pode implicar uma excessiva e injustificada dependência da Administração Pública relativamente a grandes empresas privadas.
Anoto os adjectivos: "pouco claras e transparentes", "excessiva e injustificada dependência da Administração Pública".
Sr. Presidente, desculpe lá, mas isto não era para promulgar! (ou então justificava doutro modo...)
Fui ao site da presidência da república. Cavaco explica: O referido diploma suscita dúvidas em dois planos, as quais, na altura devida, foram expressas pelo Presidente da República, designadamente no pedido de fiscalização preventiva da constitucionalidade enviado ao Tribunal Constitucional.
Assim, por um lado, o diploma em apreço continua a consagrar soluções que, por pouco claras e transparentes, podem criar dificuldades de percepção por parte dos respectivos destinatários, potenciando situações de conflitualidade no seio da Administração Pública.
Por outro lado, subsistem dúvidas quanto à remissão para simples portaria da regulação de matérias de carácter inovatório e ainda quanto à preferência concedida a pessoas colectivas na celebração de contratos de prestação de serviços, o que pode implicar uma excessiva e injustificada dependência da Administração Pública relativamente a grandes empresas privadas.
Anoto os adjectivos: "pouco claras e transparentes", "excessiva e injustificada dependência da Administração Pública".
Sr. Presidente, desculpe lá, mas isto não era para promulgar! (ou então justificava doutro modo...)
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