sábado, janeiro 26, 2008
viver e morrer no interior do país
Não me ocorre mais nenhum título para definir o que se passou anteontem à noite numa aldeia remota do distrito de Vila Real, concelho de Alijó. Sofre-se em vida e pena-se na morte no interior deste nosso Portugal profundo.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
a tragicomedia
Vale a pena ouvir o diálogo surrealista entre uma operadora do INEM, o irmão duma vítima supostamente já falecida, um bombeiro de Favaios e um outro bombeiro de Alijó. O que se prova, com esta tragicomédia, é que certas opções políticas são tomadas sem o mínimo conhecimento da realidade do país, principalmente com aquele panorama mais esquecido que é o interior do país.
out of question, by Santana Lopes
Só mesmo Santana Lopes para produzir uma frase com todos estes "soundbytes". Até a diz em inglês, não vá alguém entendê-la. E o que é que ele diz? Que se recusa trabalhar com uma agência de comunicação, no caso em apreço com a agência Cunha Vaz & Associados, a que assessoria Menezes desde que tomou posse como presidente do partido. A julgar pelo trabalho que a agência vem desenvolvendo na cada vez mais primordial tarefa de "fazer passar a mensagem" (se repararmos bem, um dos reparos mais sonantes da nossa vida política diz respeito a esta chaga política que é a de que a mensagem não está sendo bem assimilada pelos respectivos receptores, logo, torna-se imprescindível trabalhar o locutor...), Santana Lopes fez bem em repulsar o trabalho da instituição de comunicação. E fez mais: disse, enfático, e ainda com um rasgo ânglico, que "nós aqui não precisamos de "outdoors" (lembram-se do homem na câmara de Lisboa?...). Continuamos, assim, a ter Santana Lopes no seu melhor.
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quinta-feira, janeiro 24, 2008
as urgências: uma proposta discriminadora
Em primeiro lugar, devo referir o que penso acerca do desempenho do ministro Correia de Campos e da lógica que está na base da sua política reformadora da saúde.
O ministro Correia de Campos não se adequa ao lugar que ocupa. Não chegam as intenções (quem as não tem?), mas (sobretudo) a capacidade de perceber o verdadeiro pulsar das populações, nomeadamente aquelas que sofrem desde há décadas (eventualmente séculos) um arrastamento cada vez mais gritante daquilo que todos nós no fundo procuramos e que se resume a uma vida cada vez mais confortável nos vários parâmetros que constituem a nossa condição de seres humanos.
Quanto à política do ministério (Sócrates bem diz que não há uma política deste ou daquele ministério, mas antes uma política do governo...), verificamos desde logo um erro de base: ela alicerça-se tendo especialmente em conta critérios macro-económicos, designadamente o tão proclamado défice económico-financeiro do país. Tudo, portanto, errado, visto que qualquer política de saúde se deve basear noutro tipo de défice que não o financeiro. Neste sentido, importa muito mais aquilo que Manuel Alegre designou (e bem) como o défice social (injustiças sociais, assimetrias regionais, índices culturais e educacionais baixos em grande parte da população do interior, etc.).
O que fazer, então? Em primeiro lugar, o ministro da saúde deve pedir a demissão do lugar que ocupa, pois não tem já capacidade de reacção (de resposta) relativamente aos milhares de pessoas que se sentem directamente atingidas com o modo patriarcalmente desajustado em que ele, nas suas incontáveis comunicações ao país ("Prós e Contras", entrevistas temáticas, entrevistas de rua...) tenta, exauridamente, sublinhar que todo este árduo trabalho constitui-se exclusivamente com o propósito de oferecer às pessoas (a estas mesmas pessoas que não o entendem) o que elas até aqui nunca tiveram: um sistema de saúde condigno com as suas necessidades.
O segundo passo a dar é também muito simples e baseia-se na tão proclamada discriminação positiva. Com efeito, esta expressão não se deve ligar exclusivamente a eventuais benefícios fiscais (a empresas ou mesmo a pessoas) direccionadas para certas regiões mais desajustadas com o todo nacional. Pelo contrário, a discriminação positiva deverá englobar tudo o que diz respeito à vida das pessoas, principalmente daquelas que mais necessitam: saúde, educação, estradas, tecnologia, etc.
Assim, em todos os concelhos, principalmente os que se localizam no interior (os outros, situados em regiões mais desenvolvidas, têm por perto hospitais com valências mais completas), deveria existir, 24 horas por dia, um serviço de urgência básica, com capacidade de diagnóstico célere e capaz de efectuar pequenas cirurgias (e por que não radiologia e análise), composto por médicos (um ou dois em permanência) e enfermeiros (um ou dois em permanência). É evidente que muitas das noites destes profissionais de saúde seriam passadas a jogar às cartas ou a ver televisão. E ainda bem! Toda a gente gosta de ver os carros dos bombeiros bem estacionadinhos lá nas garagens, não é verdade?
O que realmente ninguém deveria ter orgulho é na política que este ministro da saúde está a desenvolver e que afecta lamentável e vergonhosamente todas aquelas pessoas que, devido a factores vários, muito precisam de alguém que as acompanhe, seja médico ou amigo. Mas se puder ser médico e amigo, melhor ainda.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes na edição do dia 31 de janeiro de 2008)
O ministro Correia de Campos não se adequa ao lugar que ocupa. Não chegam as intenções (quem as não tem?), mas (sobretudo) a capacidade de perceber o verdadeiro pulsar das populações, nomeadamente aquelas que sofrem desde há décadas (eventualmente séculos) um arrastamento cada vez mais gritante daquilo que todos nós no fundo procuramos e que se resume a uma vida cada vez mais confortável nos vários parâmetros que constituem a nossa condição de seres humanos.
Quanto à política do ministério (Sócrates bem diz que não há uma política deste ou daquele ministério, mas antes uma política do governo...), verificamos desde logo um erro de base: ela alicerça-se tendo especialmente em conta critérios macro-económicos, designadamente o tão proclamado défice económico-financeiro do país. Tudo, portanto, errado, visto que qualquer política de saúde se deve basear noutro tipo de défice que não o financeiro. Neste sentido, importa muito mais aquilo que Manuel Alegre designou (e bem) como o défice social (injustiças sociais, assimetrias regionais, índices culturais e educacionais baixos em grande parte da população do interior, etc.).
O que fazer, então? Em primeiro lugar, o ministro da saúde deve pedir a demissão do lugar que ocupa, pois não tem já capacidade de reacção (de resposta) relativamente aos milhares de pessoas que se sentem directamente atingidas com o modo patriarcalmente desajustado em que ele, nas suas incontáveis comunicações ao país ("Prós e Contras", entrevistas temáticas, entrevistas de rua...) tenta, exauridamente, sublinhar que todo este árduo trabalho constitui-se exclusivamente com o propósito de oferecer às pessoas (a estas mesmas pessoas que não o entendem) o que elas até aqui nunca tiveram: um sistema de saúde condigno com as suas necessidades.
O segundo passo a dar é também muito simples e baseia-se na tão proclamada discriminação positiva. Com efeito, esta expressão não se deve ligar exclusivamente a eventuais benefícios fiscais (a empresas ou mesmo a pessoas) direccionadas para certas regiões mais desajustadas com o todo nacional. Pelo contrário, a discriminação positiva deverá englobar tudo o que diz respeito à vida das pessoas, principalmente daquelas que mais necessitam: saúde, educação, estradas, tecnologia, etc.
Assim, em todos os concelhos, principalmente os que se localizam no interior (os outros, situados em regiões mais desenvolvidas, têm por perto hospitais com valências mais completas), deveria existir, 24 horas por dia, um serviço de urgência básica, com capacidade de diagnóstico célere e capaz de efectuar pequenas cirurgias (e por que não radiologia e análise), composto por médicos (um ou dois em permanência) e enfermeiros (um ou dois em permanência). É evidente que muitas das noites destes profissionais de saúde seriam passadas a jogar às cartas ou a ver televisão. E ainda bem! Toda a gente gosta de ver os carros dos bombeiros bem estacionadinhos lá nas garagens, não é verdade?
O que realmente ninguém deveria ter orgulho é na política que este ministro da saúde está a desenvolver e que afecta lamentável e vergonhosamente todas aquelas pessoas que, devido a factores vários, muito precisam de alguém que as acompanhe, seja médico ou amigo. Mas se puder ser médico e amigo, melhor ainda.
(publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes na edição do dia 31 de janeiro de 2008)
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terça-feira, janeiro 22, 2008
governo sabia há muito dos estudos do aeroporto
Eu ouvi e vi o presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) afirmar que o primeiro ministro sabia desde 19 de dezembro que o campo de tiro de Alcochete era a melhor localização para o futuro aeroporto de Lisboa, segundo o estudo apresentado (e explicado) numa reunião em que também participaram o ministro das Obras Públicas e o ministro da Presidência, Pedro da Silva Pereira. Vi e ouvi o presidente do LNEC afiançar que Mário Lino conhecia as conclusões do estudo "muito antes" desta data ("desde o início de dezembro"). Mas também vi e ouvi José Sócrates e Mário Lino, em janeiro, assegurarem que estavam à espera do estudo do LNEC para se pronunciarem sobre a localização do novo aeroporto.
É, pois, neste permanente festival idiossincrático que vivemos, em que a mentira convive de paredes meias com a hipocrisia, e a hipocrisia enlaça-se imperecivelmente com uma parlapatice sonsa e pacóvia.
(publicado no jornal Expresso na edição do dia 26/janeiro/2008)
É, pois, neste permanente festival idiossincrático que vivemos, em que a mentira convive de paredes meias com a hipocrisia, e a hipocrisia enlaça-se imperecivelmente com uma parlapatice sonsa e pacóvia.
(publicado no jornal Expresso na edição do dia 26/janeiro/2008)
antónio nunes no parlamento
A recente visita de António Nunes, o inspector-geral da ASAE, ao Parlamento para "explicar aos deputados" os eventuais excessos persecutórios deste agrupamento de inspecção das actividades económicas (pelo sentido da sigla se nota que o termo polícia é completamente desajustado nos seus pressupostos de acção) revelou uma personagem sem surpresas. António Nunes começou por sublinhar que as suas declarações anteriores (que avisavam que metade dos restaurantes e cafés "estão condenados a fechar", segundo o semanário Sol) foram mal interpretadas e compreendidas (por sua incapacidade, referiu, como aliás, convém a um inspector-geral). Afinal, o homem quis simplesmente dizer o seguinte: "cinquenta por cento da restauração precisava de modernizar-se, adaptar-se" (DN). Esclarecido este importante ponto de reunião, António Nunes invocou ainda, de forma tão natural como quem bebeu de seguida um gole da água que assentava no seu copo, Bruxelas e a Europa e, qual um mágico a sacar da cartola o respectivo coelhito, tirou da algibeira umas fotografias degradantíssimas, com ratos, bolor, sujidade, baratas, aranhas e teias, onde a cor dominante era invariavelmente o branco sujo e o castanho besuntoso.
Por estas e por outras, estou propenso a crer que este sr. António Nunes ainda nos vai dar muitas alegrias.
Por estas e por outras, estou propenso a crer que este sr. António Nunes ainda nos vai dar muitas alegrias.
debate pros e contras e o fumo do tabaco
O debate ontem realizado na RTP no âmbito do programa "Prós e Contras" sobre a nova lei que impõe regras apertadas aos fumadores chegou a ser patético na argumentação de alguns intervenientes (o Sr. Dr. Sabe quantas partículas o monóxido de carbono?...; a lei trezentos e setenta e três barra 98 na alínea h no parágrafo cinco está de acordo com a trezentos e quarenta e tal barra sete alínea não sei quantas...; responda-me sr. Dr., responda-me...; é o que a Europa está a fazer... a Bélgica começou... A Irlanda... etc. etc.).
São pois destes esclarecidos que a agora polícia de intervenção (ASAE, leia-se) gosta, muito especialmente o seu extraordinário chefe António Nunes.
Com efeito, bom senso e menos armalhanço (desculpem-se popularismo vernacular) seriam necessários para que o legislador, essa figura abstracta mas que é invocada como se do sr. Silva se tratasse, não fosse conduzido para uma panóplia extremada de números em nome dos bons interesses europeus.
São pois destes esclarecidos que a agora polícia de intervenção (ASAE, leia-se) gosta, muito especialmente o seu extraordinário chefe António Nunes.
Com efeito, bom senso e menos armalhanço (desculpem-se popularismo vernacular) seriam necessários para que o legislador, essa figura abstracta mas que é invocada como se do sr. Silva se tratasse, não fosse conduzido para uma panóplia extremada de números em nome dos bons interesses europeus.
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