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quarta-feira, outubro 08, 2008

acabou o tempo da prosperidade

Não posso deixar de sublinhar a melhor intervenção de hoje no Parlamento e que teve a cargo de Jerónimo de Sousa. Tudo a propósito das infelizes e decorrentes (decorrentes na infelicidade) declarações de Manuel Pinho, que é ministro da economia de Portugal. Manuel Pinho, reflectido, afirmou há dias que o tempo da prosperidade acabou. Já ouvimos muitas variantes frásicas do verbo acabar, desde Santana Lopes (a crise acabou) até ao próprio Sócrates (a crise acabou, ou a brincadeira acabou, referindo-se à educação...). Mas o que nunca tínhamos ouvido foi este arrastamento do pobre verbo para uma dupla negação, isto é, o tempo da prosperidade deixou de existir. Mas o que disse Jerónimo de Sousa? Apenas se interrogou: mas a prosperidade acabou para quem? Quem é que, ao longo destes anos prosperou? Sócrates, o visado, não respondeu.

(publicado no jornal Público em 11/10/2008)

o mundial de futebol

Numa breve entrevista inserida na última página do DN, diz o inefável Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol: "Mundial não é prioridade mas era muito bom". Ficamos também a saber, por parte deste senhor, que "sabemos da disponibilidade no nosso Governo para a realização do Campeonato do Mundo em 2018" e que "isto [campeonato do mundo de futebol] não é nenhuma prioridade nacional".
Pela minha parte, agradeço ao sr. Madaíl esta preciosa informação relativamente aos intentos do Governo da República nesta matéria. Eu não sabia. Possivelmente, nem o Presidente da República saberá. Mas isso também não será importante, segundo a óptica de Madaíl, pois sublinha, desassombrado, que "ele [Cavaco Silva] também já tinha a mesma opinião [contrária] no Campeonato da Europa de 2004" e que, "como é o nosso Presidente da República, temos de respeitar". Nem mais. Temos de respeitar. Gostava de ouvir a opinião do seu parceiro Laurentino Dias, apesar de não ser difícil adivinhar qual seja.

quinta-feira, outubro 02, 2008

ainda o casamento

Ouvi agora os respectivos líderes parlamentares do PS e do PSD. Aquele afirma, extraordinariamente que o ex-líder da JS é o único deputado com liberdade de voto, visto ter sido uma bandeira de há muito dos jovens socialistas. Acrescenta ainda, desavergonhadamente, que esta excepção simboliza o grau de liberdade que se vive no interior do partido. É, sem dúvida, um bom ponto de partida para qualquer humorista explorar. Quanto ao líder parlamentar do PSD sublinha a liberdade de voto, sem no entanto deixar de referir a cartilha ultra-conservadora de Manuela Ferreira Leite que se resume àquela ideia tosca da procriação como o principal fito do casamento. Ora, tendo em conta esta posição, deveria o PSD seguir o PS na obrigatoriedade do "não". Por outro lado, o PS, nesta sua lógica de liberdade interna que fala Alberto Martins, só poderia, naturalmente, ingressar no "sim".

o ps e o psd e o casamento gay

Sabemos que isto já não é, politicamente, o que era. Sabemos também que existe um efectivo esbatimento de uma certa ideologia tradicionalmente colada a diferentes facções partidárias. No entanto, nunca esperei ver o PS a acusar uma obrigatoriedade de voto contra o casamento homossexual e o PSD de Manuela Ferreira Leite a dar liberdade de voto aos seus deputados. É, por um lado, o partido do governo a pescar votos à direita; por outro, o partido da oposição, a intrometer-se (imagino com que esforço de consciência para Manuela Ferreira Leite) em orientações tradicionalmente fixadas à sua esquerda. Pois, mas a tradição já não é o que era. Principalmente quando as eleições espreitam.

domingo, setembro 28, 2008

supostos furos jornalísticos

Eu sei que Alberto Martins, quando abre a boca politicamente, fá-lo, normativamente, de forma evasiva e pouco clara a entendimentos directos, o que resulta, na maior parte da vezes, numa inocuidade de sentido verdadeiramente perversa. "É um político", dirão alguns, resignados com este tipo de procedimento, habituados a escutar o acostumado e oportuno laconismo desta classe profissional nas diversas comunicações ao povo português, seja através de conferências de imprensa, seja no Parlamento ou mesmo (principalmente) em entrevistas de maior ou menor extensão.
Todavia, retirar da entrevista que o líder da bancada parlamentar do Partido Socialista concedeu ao programa Diga lá Excelência (Rádio Renascença e Público) uma espécie de furo jornalístico que a imprensa titula de alterações políticas (com maior ou menor grau de variabilidade enfática) entre Cavaco Silva e a maioria socialista é um passo que só um jornalismo pouco sério consegue empreender. É que as alterações políticas resumem-se, tão somente, a dois vetos presidenciais, de manifesta importância, os quais têm que ver com variantes marcadamente (in)constitucionais e de correlação entre diversos órgãos de soberania (Estatuto dos Açores) e também com outro tipo de agendamento político - este de feição mais social (embora de importância constitucional igualmente relevante) - que é a Lei do Divórcio, cujo delineamento preconiza mudanças que, não sendo radicais, implementariam um novo paradigma nas relações matrimoniais que avistam, na sua forma litigiosa, o seu término.
Na verdade, o que Alberto Martins reflectiu na entrevista foi que a relação constitucional funciona de "forma harmónica, equilibrada" e que houve divergências políticas entre Governo e Presidência a respeito destes dois casos. Ora, cada veto presidencial corresponde, naturalmente, a uma divergência política. Daí que se chame veto, isto é, proibição, recusa, suspensão (de uma lei) e que o mesmo seja uma prerrogativa constitucional do Presidente da República enquanto órgão de soberania último da autonomia nacional, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República. Assim, se nos orientarmos por este tipo de sofreguidão jornalística, nomeadamente no que aos títulos da imprensa escrita e abertura de telejornais diz respeito, não fazíamos mais nada do que analisar, de forma deprimente, as "alterações políticas" entre as duas maiorias eleitas pelo povo português. É que Cavaco Silva já utilizou a arma da não promulgação e devolução dos diplomas ao Parlamento (o veto político) noutras questões socialmente relevantes. Só em Agosto do ano passado, Cavaco vetou por três vezes igual número de diplomas governamentais: a lei orgânica da GNR, o estatuto dos jornalistas e o diploma sobre a responsabilidade civil extracontratual do Estado. Não se falou, na altura, de alterações institucionais "delicadas" entre governo e presidência. No entanto, a pouco mais de meio ano de eleições legislativas, autárquicas e europeias, tudo serve para perscrutar sinais de divergências. Tudo isto não passaria de relevâncias fugazes se não se iniciasse, a partir de agora e até Junho ou Julho, um acompanhamento delirante de todas as mensagens políticas originárias de ambas as partes. Infelizmente ou não (os jornalistas encontram-se, sem sombra de dúvida, nesta última hipótese), não falta ao governo porta-vozes do disparate. Pelo outro lado - o lado presidencial - a companhia também não é famosa, se tivermos em conta as vozes que se alevantam sistematicamente de forma contraditória, em que Manuela Ferreira Leite, no seu perfil cavaquista, se empenha em não criar ondas de choque com o seu presidente. Resta-nos a nossa própria capacidade de discernir o que é ou não relevante na mensagem política sabendo que, muitas vezes, políticos e jornalistas andam, ardilosamente, de braço dado.

quinta-feira, agosto 28, 2008

um caso paradigmático no portugal profundo

Em Vila Real, mais concretamente na freguesia de Lamas de Olo, uma estrada vai ser, finalmente, construída. Esta estrada, de 800 metros de extensão, vai permitir que os seus utilizadores (são várias aldeias) poupem mais ou menos meia hora, pois os 14 km que antes percorriam transformar-se-ão em 3,5 km. Os custos vão ser suportados 90% pelo governo da República e 10% pela Câmara Municipal de Vila Real. Ao todo são 300 000 euros. Até aqui tudo bem. Só que esta estradita demorou nem mais nem menos que 40 anos. É isso mesmo: em Trás-os-Montes, numa zona onde vivem algumas centenas de pessoas, os vários governos da Terceira República têm, de forma sistemática, desatendido uma indispensabilidade desses mesmos habitantes. Ou seja: torna-se mais fácil construir aeroportos, expo's, campeonatos europeu de futebol, etc. etc. etc. do que uma estradita de 800 metros em Lamas de Olo.
Mas a história não acaba aqui. Ou melhor, poderia acabar, mas eu não quero que termine. Tudo por que fui ver os resultados das últimas campanhas autárquicas. Deparei-me com o que desconfiava: o partido que governa há dezenas de anos a autarquia tem sido, invariável e maioritariamente, o mais votado em Lamas de Olo. Afinal, têm o que merecem.

(resumo do artigo publicado no jornal A Voz de Trás-os-Montes em 28/08/2008)

quinta-feira, julho 10, 2008

debate "estado da nação" (4)

Silva Pereira encerra o debate. Retoma o discurso de Sócrates e o deve e haver entre a anterior legislatura e a presente. Fala como se o país não existisse, ou seja, com se fosse outro o país. Se é tudo tão cor-de-rosa (ele não aceita a cor negra para analisar o estado social do país, como referiu), por que será que é precisamente através de um descontentamento social que os portugueses, de uma maneira geral, se fazem ouvir? Antes dele, Vera Jardim teve uma boa peça retórica, mas não mais do que isso. Valeu pelas gargalhadas proporcionadas à bancada socialista (do que se ri esta gente?). No entanto, o que disse foi igual a zero.
Decididamente, estas pessoas, representantes do povo, têm um discurso esgotadíssimo. Paulatinamente, os portugueses (aqui está uma boa coisa que a educação pode e deve proporcionar, isto é, uma percepção mais racional das questões políticas...) se vão percebendo que nada mudará enquanto tudo for espuma discursiva. É que não pode haver, de um lado, um partido que, por estar no governo, é senhor da razão e um outro que, por querer se governo, ataca tudo quanto o governo edifica. Depois, quando a moldura política se modifica, o governo passa a oposição e esta a governo. E trocam - literalmente - os papéis.

sábado, abril 26, 2008

o estudo de paula espírito santo

Paula Espírito Santo, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, elaborou um estudo que chega a uma conclusão nada admirável: os discursos de tomada de posse dos presidentes da república, ao longo destes 34 anos de democracia, têm-se pautado por um mimetismo lancinante. Com efeito, desde Eanes até Cavaco, a ética discursiva presidencial gira em volta de preocupações de conciliação, coesão nacional (e a importância do cargo de Presidente da República para atingir, cabalmente, essa mesma coesão), política externa (a imagem de Portugal no mundo), aproximação entre os eleitores e os eleitos, resignação e pessimismo e, invariavelmente, a economia. Conclui, portanto, a investigadora: "não existem traços distintivos marcantes entre os diversos discursos de tomada de posse".
Ouvindo a recente reacção de José Sócrates ao discurso de Cavaco no Parlamento, no dia 25 de Abril, poderíamos, por empréstimo, chegar à mesma conclusão, isto é, nada tem mudado, principalmente quando estamos perante um refinamente da chamada hipocrisia política. Transcrevo as palavras de Sócrates: "Só posso concordar com o presidente e manifestar a vontade de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para chamar a atenção dos jovens para a política". Basta ler os jornais do ano passado do dia 26 de Abril.

segunda-feira, abril 21, 2008

líder para o psd e o futuro do PS

Não há fome que não dê em fartura! Se há uns meses atrás ninguém avançava para líder do maior partido da oposição, agora, com Sócrates em possível queda, alinham-se os candidatos com sonhos de curto, médio e longo prazo. O último foi Manuela Ferreira Leite.
Na verdade, a antiga ministra de Cavaco Silva, com a sua áurea sebastiânica, é uma má notícia para Sócrates. E a razão é só uma: Ferreira Leite é melhor que Sócrates naquilo que Sócrates tenta ser bom. Explicando: José Sócrates granjeou um determinado capital de confiança em parte devido a um modus faciendi que não se coadunava com o PS tradicional, isto é, um partido em que as pessoas estavam, efectivamente, em primeiro lugar ("os portugueses não são números", lembram-se do slogan guterrista?). Neste sentido, Sócrates é um socialista atípico, pois desbaratou (não determinantemente, graças aos chamados históricos, como Alegre ou Soares) um capital doutrinário que vem do tempo da Primeira República e reformulado em 1973, na cidade alemã de Bad Munstereifel, aquando do nascimento do partido, consequência natural do desmembramento da Acção Socialista Portuguesa (ASP).
Ora, com Manuela Ferreira Leite na corrida a líder do PSD - e com clara vantagem com os seus adversários (alguns completamente inócuos, outros completamente estratégicos, outros ainda completamente ausentes) -, os portugueses vão ter a oportunidade, em 2009, de confrontar duas faces da mesma moeda.
A questão que se coloca, a um ano de distanciamento, é se, por um lado, Sócrates irá nortear a sua política, nestes treze ou catorze meses que faltam até às eleições, com um sentido socialmente mais apelativo, mais humanista, mais... socialista ou, por outro lado, continuará num trilho despersonalizado (tendo em conta o património do partido), liberal, ao jeito dum PSD cavaquista, isto é, ao jeito dum PSD de... Manuela Ferreira Leite.
É que se for este o caminho, Sócrates não tem hipóteses: não só perde a maioria absoluta, como também perde as eleições. Quem ganha, para além do PSD, é também o PCP. Mas isto, sendo a mesma história, é já uma outra história.

sábado, abril 12, 2008

as maternidades e o tgv

A secretária de Estado dos Transportes já afirmou que o TGV Lisboa-Madrid é um investimento que nunca será recuperado, isto é, a sua exploração dificilmente será rentável. Tenho para mim que, no que concerne ao Estado, existem parâmetros estruturais que não devem ter o lucro como objectivo primeiro. A saúde, por exemplo, é uma delas. Porém, todos sabemos que um dos motivos que levou ao encerramento de urgências e de maternidades foi, no caso destas últimas, o facto de não preconizar um número mínimo de partos por ano. Foi assim em Chaves, por exemplo. Como sabemos, nasceram, no Hospital de Chaves, no ano de 2006, 455 crianças, que é um número que não se adequa à margem de lucro que proporciona, segundo a óptica do Governo, a continuação física de uma maternidade. Outros exemplos poderiam ser aqui avocados, desde o encerramento de urgências até – pasme-se! – o encerramento de linhas de caminho-de-ferro que se revelaram não-lucrativas para o governo central.
Ora, com esta orientação governamental – que privilegia os empreendimentos sumptuosos como o TGV, pontes e aeroportos à volta da capital do país que, por acaso, é a região da União Europeia com mais auto-estradas – ficámos a saber, incrédulos, que para este governo socialista é mais importante um TGV que dê prejuízo do que uma maternidade que origine menor prejuízo, o que não confere, digamos, uma sintomatologia aprazível para um governo de esquerda. Só se for isto a tão proclamada esquerda moderna com que José Sócrates ganhou as eleições.

(publicado nos jornais Público, em 15/04/2008, e A Voz de Trás-os-Montes, em 17-04-08)

quinta-feira, abril 03, 2008

jorge coelho e a política

Afinal, também Jorge Coelho vai tratar da vidinha!
É difícil não se gostar do ex-dirigente do PS. Incendiário mas também bombeiro (apesar de ser mais conhecido por este último epíteto), Coelho apareceu com uma expressão de maior visibilidade no PS de António Guterres. Este, com a sua inclinação para frases tonitruantes ("picareta falante", disse dele Vasco Pulido Valente), chegou mesmo a afirmar que o antigo ministro da Administração Interna era "imprescindível". Daí ter chegado a número dois do partido, com uma suposta arte de engendrar tácticas e estratégias orientadoras do PS (pelo menos é com esta áurea com que os jornalistas, na sua globalidade, o interpretam). Por isso, um deputado desta maioria chega mesmo ao ponto de declarar, segundo a edição do DN de hoje, que "Jorge Coelho é um senador" (quem será o deputado?!...).
Todavia, este "senador" foi tratar da vidinha, afirmando que não é rico e precisar de "ganhar a vida". Nada, aliás, que outros "senadores" (agora estou a sorrir, ao contrário do deputado do PS que teria dito o mesmo sem se rir...) não tivessem já feito. Quatro exemplos que o DN de hoje invoca: Pina Moura, Ferreira do Amaral, Armando Vara, Fernando Nogueira. Há outros, muitos outros. Só que ainda não chegaram a senadores...

segunda-feira, janeiro 14, 2008

a campanha do psd para o bcp vista por augusto santos silva

Parece que o ministro Augusto Santos Silva anda por aí a bradar que nunca se viu tamanha indecência no que diz respeito à intromissão dos partidos na economia privada. Tudo por causa dos futuros orgãos que presidirão ao maior banco privado português. Fá-lo deste modo conclusivo: «nunca antes se vira na democracia portuguesa o facto insólito de um partido, neste caso o PSD, decidir fazer campanha por uma das listas concorrentes a um banco privado». Continua: «O PS pede ao PSD que, de uma vez por todas, acabe com esse tipo de comportamento, porque o destino de uma direcção de uma instituição financeira privada apenas compete aos seus accionistas, e não a partidos ou outras associações políticas».
A pergunta (muito ingénua) que eu coloco é a seguinte: mas não foi o tão proclamado acordo de cavalheiros (de partidos) que está na base de uma espécie de rotatividade entre os dois partidos de governo para o preenchimento deste tipo de altos cargos de gestão? Não se designará este tipo de comportamento como hipocrisia política?

coisas

vamos pela estrada e sentimo-nos bem. lá fora, o vento sopra, a neve cai, voam duas aves perdidas. eu sei que tenho de chegar a algum lugar...

neste momento...